“Considero-me um atento
observador do mundo e de mim mesmo e, em minha poética, recolhi dúvidas,
indignações, arrependimentos, pequenas alegrias e desejos calados.
Busquei compreender-me a
adaptar-me ao terreno movediço da existência.
Faço poesia com tudo, o
meu tudo, o tudo que conheço”
Conheço Júlio César Teixeira desde seu primeiro livro “Influências” de 2003 e venho acompanhando seu crescimento na poesia a cada livro. Ele não escreve para críticos que procuram falhas ou acertos na obra alheia, escreve com a sinceridade de seus sentimentos e exclusivamente para o leitor que o segue, por isso posso sim, afirmar como leitor que sou, que seus versos mexem comigo da primeira a última página e com certeza fará o mesmo com aqueles que tiverem sensibilidade para lê-lo. Sua poesia é simples e dessas que saem naturalmente da alma, fala de si e ao falar de si mesmo, revela verdades onde o poeta se desnuda completamente, desvendando seus sentimentos mais íntimos.
Recebo
“Quando sinto falta de mim” (Arte Impressa Editora) no qual a poesia já começa
pelo título. Aqui encontrei poemas simples e diretos ao leitor, sem a
preocupação de agradar críticos e intelectuais, mas pessoas que tem
sensibilidade para a poesia. Júlio César Teixeira confesso, é um dos raros
poetas os quais me identifico poéticamente, pois seu modo de conduzir seus
versos levam o leitor a compreender o
que se passa nos sentimentos do autor ao compor o poema e na minha concepção, a
verdadeira poesia é a que atinge o leitor sem que ele tenha necessidade de
buscar o dicionário para entender o que se quer dizer naquele livro. Vejo isso
em Drummond, Quintana e Bandeira, por exemplo. Não preciso afirmar se o autor é
um grande ou não poeta (e quem poderá afirmar?), deixo isso aos críticos de plantão que buscam detalhes nos versos
alheios. Sou leitor e os versos que aqui encontrei me agradaram pela sutileza e
sensibilidade. Em “A gota e o poema” o poeta se revela um verdadeiro artesão da
palavra, com a destreza de quem compreende o poema.
“Uma gota pingou sobre o poema
Modificando-lhe a
estrutura
Fazendo rasuras
Misturando as palavras
de minha inspiração
O papel tornou-se frágil
Em ponto de
desmanchamento
Imitando o corpo
moribundo
Que pingava sobre o
poema
A vida negou o brilho
Contrariando as cores do
arco-íris
Que brilhava em todas as
direções
Refletindo a gota que
pingou sobre o poema
As frases perderam o
sentido
Por falarem apenas de
sonhos
Daqueles que ficaram
pelo caminho
Afogados na gota que
pingou sobre o poema”
Em
“Brasa” expõe versos em metáforas e imagens de raríssima beleza estética.
“Preciso ser feliz sem despistes
Anseio por uma inundação
de esperança
Por um amor extasiado
Em meio a esse mundo
movediço
Observo portas e janelas
entreabertas
Ouvindo conversas
cruzadas
Lamentos errantes e
desesperançados
Vidas abertas e
suscetíveis a intromissões
Em meio a trinta e dois
dentes
Escondem-se os tártaros
da angústia
Nos olhos um resto de
brilho
De quem apostou com
cartas vencidas
E em minha insaciável
curiosidade de vida
Fustigo as emoções e
dores
E antes que desvaneça o
amor
Sopro a brasa que me
acende”
Mas é justamente no pequeno poema “Dívidas” que se mostra inteiro como ser humano que carrega a sensibilidade poética dentro de si, coisa que só verdadeiros poetas (aqui não falo de versos, mas de personalidade) tem.
“Já não sou mais o mesmo
Mas continuo a pagar as
dívidas
Daquele que um dia fui”
Júlio César Teixeira é natural de São João Del Rei, de onde saiu com 12 anos de idade, juntamente com sua família, para residir em Belo Horizonte. Trabalhou durante 8 anos na extinta MINASCAIXA e, desde 2024, é funcionário aposentado da Caixa Econômica Federal, onde trabalhou durante 35 anos. Sua primeira incursão no mundo da poesia ocorreu em 2003, quando lançou *Influências* (Anomelivros). O segundo livro, *O Tempo, A Mulher e A Poesia* (Edição do Autor), foi lançado em 2010 e, *Quando sinto falta de mim* (Arte Impressa Editora), estava engavetado há mais de 15 anos, esperando o momento do parto, que ocorreu em 2026. O poeta ainda participou das coletâneas: *Poetas En/cena 4:* Reunião de poemas de poetas brasileiros no 6º Belô Poético – Encontro Nacional de Poesia de Belo Horizonte, em 2010, *Poetas En/cena 5:* Reunião de poemas de poetas brasileiros no Sétimo Belô Poético, em 2011 e *Poesia na Praça Sete”, em 2011. Também assinou uma coluna na Revista Estilo Fashion (Editora Domínio), onde publicou resenhas e contos.
“Quando sinto falta de mim” é um livro sim, de poesia e das melhores que li nas minhas leituras literárias, pois há uma forte carga de sentimentos em cada verso, em cada estrofe, em cada página. Sente-se com sua leitura, uma verdade que sai do âmago do autor, sem preâmbulos ao dizer palavras que emocionam do início ao fim de cada poema. O autor confessa que o livro foi escrito com alma e diz: “Faço poesia com tudo, o meu tudo, o tudo que conheço!” E com essa determinação atinge em cheio quem desvenda seus versos a cada leitura.
“Quando
sinto falta de mim” é um livro verdadeiro. Em suas páginas não encontramos
imaginações, mas o sentimento diário que quem escreveu seus versos com a
sinceridade que lhe brota da alma. Um livro de poemas simples para quem busca a
simplicidade literária para uma leitura gostosa e saboreá-la como quem saboreia
algo gostoso numa refeição íntima. Recomendo.
Contato:
juceteixeira@yahoo.com.br
