quinta-feira, 9 de julho de 2026

“QUANDO SINTO FALTA DE MIM” DE JÚLIO CÉSAR TEIXEIRA, POESIA SIMPLES PARA SIMPLES LEITORES


Por Rogério Salgado

 

“Considero-me um atento observador do mundo e de mim mesmo e, em minha poética, recolhi dúvidas, indignações, arrependimentos, pequenas alegrias e desejos calados.

Busquei compreender-me a adaptar-me ao terreno movediço da existência.

Faço poesia com tudo, o meu tudo, o tudo que conheço”

 

Conheço Júlio César Teixeira desde seu primeiro livro “Influências” de 2003 e venho acompanhando seu crescimento na poesia a cada livro. Ele não escreve para críticos que procuram falhas ou acertos na obra alheia, escreve com a sinceridade de seus sentimentos e exclusivamente para o leitor que o segue, por isso posso sim, afirmar como leitor que sou, que seus versos mexem comigo da primeira a última página e com certeza fará o  mesmo com aqueles que tiverem sensibilidade para lê-lo. Sua poesia é simples e dessas que saem naturalmente da alma, fala de si e ao falar de si mesmo, revela verdades onde o poeta se desnuda completamente, desvendando seus sentimentos mais íntimos.

Recebo “Quando sinto falta de mim” (Arte Impressa Editora) no qual a poesia já começa pelo título. Aqui encontrei poemas simples e diretos ao leitor, sem a preocupação de agradar críticos e intelectuais, mas pessoas que tem sensibilidade para a poesia. Júlio César Teixeira confesso, é um dos raros poetas os quais me identifico poéticamente, pois seu modo de conduzir seus versos levam o leitor a  compreender o que se passa nos sentimentos do autor ao compor o poema e na minha concepção, a verdadeira poesia é a que atinge o leitor sem que ele tenha necessidade de buscar o dicionário para entender o que se quer dizer naquele livro. Vejo isso em Drummond, Quintana e Bandeira, por exemplo. Não preciso afirmar se o autor é um grande ou não poeta (e quem poderá afirmar?), deixo isso aos críticos de  plantão que buscam detalhes nos versos alheios. Sou leitor e os versos que aqui encontrei me agradaram pela sutileza e sensibilidade. Em “A gota e o poema” o poeta se revela um verdadeiro artesão da palavra, com a destreza de quem compreende o poema.

 “Uma gota pingou sobre o poema

Modificando-lhe a estrutura

Fazendo rasuras

Misturando as palavras de minha inspiração

 

O papel tornou-se frágil

Em ponto de desmanchamento

Imitando o corpo moribundo

Que pingava sobre o poema

 

A vida negou o brilho

Contrariando as cores do arco-íris

Que brilhava em todas as direções

Refletindo a gota que pingou sobre o poema

 

As frases perderam o sentido

Por falarem apenas de sonhos

Daqueles que ficaram pelo caminho

Afogados na gota que pingou sobre o poema”

 

Em “Brasa” expõe versos em metáforas e imagens de raríssima beleza estética.

 “Preciso ser feliz sem despistes

Anseio por uma inundação de esperança

Por um amor extasiado

Em meio a esse mundo movediço

 

Observo portas e janelas entreabertas

Ouvindo conversas cruzadas

Lamentos errantes e desesperançados

Vidas abertas e suscetíveis a intromissões

 

Em meio a trinta e dois dentes

Escondem-se os tártaros da angústia

Nos olhos um resto de brilho

De quem apostou com cartas vencidas

 

E em minha insaciável curiosidade de vida

Fustigo as emoções e dores

E antes que desvaneça o amor

Sopro a brasa que me acende”

 Mas é justamente no pequeno poema “Dívidas” que se mostra inteiro como ser humano que carrega a sensibilidade poética dentro de si, coisa que só verdadeiros poetas (aqui não falo de versos, mas de personalidade) tem.

 “Já não sou mais o mesmo

Mas continuo a pagar as dívidas

Daquele que um dia fui”

 Júlio César Teixeira é natural de São João Del Rei, de onde saiu com 12 anos de idade, juntamente com sua família, para residir em Belo Horizonte. Trabalhou durante  8 anos na extinta MINASCAIXA e, desde 2024, é funcionário aposentado da Caixa Econômica Federal, onde trabalhou durante 35 anos. Sua primeira incursão no mundo da poesia ocorreu em 2003, quando lançou *Influências* (Anomelivros). O segundo livro, *O Tempo, A Mulher e A Poesia* (Edição do Autor), foi lançado em 2010 e, *Quando sinto falta de mim* (Arte Impressa Editora), estava engavetado há mais de 15 anos, esperando o momento do parto, que ocorreu em 2026. O poeta ainda participou das coletâneas: *Poetas En/cena 4:* Reunião de poemas de poetas brasileiros no 6º  Belô Poético – Encontro Nacional de Poesia de Belo Horizonte, em 2010, *Poetas En/cena 5:* Reunião de poemas de poetas brasileiros no Sétimo Belô Poético, em  2011 e *Poesia na Praça Sete”, em 2011. Também assinou uma coluna na Revista Estilo Fashion (Editora Domínio), onde publicou resenhas e contos.

 “Quando sinto falta de mim” é um livro sim, de poesia e das melhores que li nas minhas leituras literárias, pois há uma forte carga de sentimentos em cada verso, em cada estrofe, em cada página. Sente-se com sua leitura, uma verdade que sai do âmago do autor, sem preâmbulos ao dizer palavras que emocionam do início ao fim de  cada poema. O autor confessa que o livro foi escrito com alma e diz: “Faço poesia com tudo, o meu tudo, o tudo que conheço!” E com essa determinação atinge em cheio quem desvenda seus versos a cada leitura.

“Quando sinto falta de mim” é um livro verdadeiro. Em suas páginas não encontramos imaginações, mas o sentimento diário que quem escreveu seus versos com a sinceridade que lhe brota da alma. Um livro de poemas simples para quem busca a simplicidade literária para uma leitura gostosa e saboreá-la como quem saboreia algo gostoso numa refeição íntima. Recomendo.

Contato: juceteixeira@yahoo.com.br