segunda-feira, 15 de junho de 2026

“...E QUANDO TUDO DESAPARECER...”: EMOÇÃO À FLOR DA PELE NOS PALCOS BELORIZONTINOS

 



Por Rogério Salgado


O jornalista, letrista e poeta Raphael Vidigal Aroeira estréia na dramaturgia com o pé direito. Autor de “... quando tudo desaparecer...” nos mostra um trabalho cênico altamente poético, desses que seguram a platéia cada segundo do espetáculo, com a densidade emocional de cada personagem a nos envolver segundo a segundo do espetáculo. O texto em si fala do tempo que se esvai e a dor da perda em cada um de nós, humanos. Aqui, uma mãe precisa conviver com a ausência da filha e um amor que ficou pedaços perdidos na vida e a angústia do que poderia ter sido e não foi. Cada personagem convive com suas dúvidas e incertezas e a busca por respostas que talvez nunca sejam adquiridas.

Segundo o autor, a idéia inicial veio quando ao perder uma amiga ainda muito jovem. “Ela tinha 20 anos e eu 22. Tempos depois, perdi outro amigo também jovem, com apenas 27 anos”, relembra. Lidar com a morte tão de perto provocou-lhe um processo de angústia, reflexão e elaboração profundas, que desembocaram na dramaturgia do espetáculo. “Tenho uma forma de escrever naturalmente poética, fragmentária, opaca, e foi ao juntar fragmentos de ideias, anotações de sonhos e epifanias que construí o enredo que veremos em cena, com a ajuda fundamental dos atores nesse processo”.

Inicialmente, Vidigal tinha criado um roteiro para cinema, mas a paixão que o jornalista nutre pelo teatro desde a infância fez com que direcionasse o texto para os palcos. “Na adolescência, eu dirigia peças de teatro na escola. Também tive uma tia artista, que era pintora, poeta, compositora, e foi muito importante na minha formação afetiva e intelectual, a Maria Inês Aroeira, que me presenteou com uma coleção de todos os clássicos do teatro da editora Abril. A leitura desses textos me motivou a adaptar o roteiro de cinema e experimentar essa arte que precisa do instante vivo e instável para acontecer, o que me soava ainda mais sedutor em tempos dispersivos como os de agora”.

“... quando tudo desaparecer...” tem direção de Gabriela Luque, trilha sonora assinada por Ed Nasque, figurinos e cenografia por conta de Alê Tavera e iluminação de Gabriel Corrêa. As projeções são de Felipe Canêdo. E vem com um elenco de primeira linha: Gláucia Vandeveld é atriz, diretora e professora de teatro, integra a Zula Cia de Teatro e tem entre seus trabalhos os espetáculos “Banho de Sol” e “CASA”. É a diretora do renomado “Às que aqui ficaram” da Tríade Cia. De Teatro. No cinema participa, entre outros trabalhos, do elenco de filmes premiados como “Levante” de Lillah Halla; “No Coração do Mundo“ de Gabriel Martins e Maurílio Martins; e “Arábia” de Affonso Uchôa e João Dumans. Também esteve em peças do Espanca!. Cláudio Dias é ator, diretor e membro-fundador da Cia. de Teatro Luna Lunera, formado em História pela UFMG, com formação em Artes Cênicas pelo Palácio das Artes/Cefart, e construiu uma sólida carreira no teatro, marcada por atuações em peças como “Fazer festa com o perigo: Cintura Fina” (2024), “Auto da Compadecida: A Ópera” (2022), “E ainda assim se levantar” (2019), “Perdoa-me por me traíres” (2000) e “Antígona” (1995). Além disso, co-dirigiu e atuou nos aclamados espetáculos “Aqueles Dois” (2007) e “Prazer” (2013). Adyr Assumpção é ator, diretor, dramaturgo e produtor, adaptou e dirigiu recentemente o “Sortilégio”, de Abdias Nascimento, e esteve em turnê nacional com o espetáculo “Leão Rosário”, uma adaptação sua do “Rei Lear”, de Shakespeare. No cinema, pode ser visto nos recentes filmes “O Silêncio das Ostras”, de Marcos Pimentel, e em “O Coro do Te-ato”, de Stella Penido, que remonta aos primeiros anos da trupe do Teatro Oficina de Zé Celso Martinez Corrêa. Graduado em Teatro pela UFMG e Mestre em Artes pela Unicamp, também é idealizador do festival de cinema “Imagem dos Povos”, voltado a produções indígenas e da diáspora negra. Camila Felix é atriz, bailarina e coreógrafa, formada em Teatro pela UFMG, foi dançarina do Grupo Primeiro Ato e integrou, em 2023, o elenco da premiada versão do Grupo Oficcina Multimédia para “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues. Também atuou nos espetáculos “Colóquio Sentimental”, “EuLírico: Mulher”, “A Contribuição Milionário de Todos os Erros”, “Estrela ou Escombros da Babilônia”, dentre outros. No cinema, protagonizou “Anita Garibaldi: Visões e fragmentos de Vida”, de Gianluca Barbadori.

“... quando tudo desaparecer...” foi, sem sombra de dúvidas o melhor espetáculo que pude assistir neste primeiro semestre de 2026. Direção impecável, elenco envolvido até a alma de cada personagem que desfila pelo palco, trilha sonora perfeita com a proposta de cada movimento. Resumindo, um trabalho impecável em seu todo.

A peça teve estréia dia 4 de junho na capital mineira no Teatro João Ceschiatti, no Palácio das Artes, dentro da programação do projeto “Palácio Todo Dia”. Seguiu na segunda semana de junho, entre os dias 11, 12 e 14 de junho no Teatro da Cidade, integrando a programação do “No Palco Cidade”, encerrando essa primeira temporada no Galpão 1 da Funarte, por dois finais de semana, de quinta a domingo, entre os dias 18 e 21 de junho; e de 25 a 28 de junho, completando um mês em cartaz. Esperamos que a produção consiga outros espaços cênicos para que um espetáculo como esse possa nos proporcionar emoções à flor da pele, como esse excelente “... quando tudo desaparecer...”

Créditos das fotos: Luiza Villarroel/divulgação

 

*Rogério Salgado é poeta com 51 anos de carreira literária. Também é autor teatral.

 


segunda-feira, 13 de abril de 2026

“FLORES DO DESERTO”: DE MÁRCIO CATUNDA. UM LIVRO PARA SE LER COM GOSTO, MUITO GOSTO.

Por Rogério Salgado

Não me arvoro a ser crítico literário, sou apenas um leitor que gosta de livros e comenta suas impressões sobre o que lê. E nesse contexto, não suporto livro de poemas os quais necessito de um dicionário ao lado ou horas de releituras para entender o autor. Poesia para mim é simplicidade, aquela que atinge quem a lê com facilidade e sensibiliza com seus versos. Vejo isso em Drummond, Bandeira e Quintana e agora nesse “Flores do deserto” (Ventura Editora) do poeta Márcio Catunda. Na minha leitura, senti como se estivéssemos numa sala a conversar e nessa conversa, eu entendesse cada frase, cada verso de seus versos.

O primeiro poema a chamar minha atenção foi “Um desagravo para Julian Assange”, editor-chefe da WikiLeaks, em 2010 eleito Personalidade do Ano pelos leitores da revista Time. Personagem real que foi condenado por conspiração e espionagem em tribunal federal nas Ilhas Marianas (território dos EUA no Pacífico) em 26 de junho de 2024, sendo libertado em seguida e retornando para sua casa na Austrália. “Martirizaram o revolucionário que revelou os/segredos das cloacas./O profeta pós-moderno é perseguido,/porque gritou “Abaixo a prepotência!”/Em nenhum lugar do mundo existe o direito de/exercer a oposição./Toda oportunidade de viver em paz é reprimida./Ninguém ousa dissuadir a intimidação./Ninguém protesta contra o castigo imposto/ao fugitivo da injusta miséria./As ovelhas obedientes aplaudem/os fabricantes da mercadoria mortífera,/elevam aos pedestais/os deuses da falsa numismática./ é da humanidade/que não reconhece a própria estupidez.” Poesia que passeia por variados temas, com a liberdade de se expressar, Márcio Catunda nos emociona a cada página virada deste excelente livro. No poema “Dia dos santos poetas” canoniza versejadores que deixaram sua marca e lembra um poeta português quase esquecido, poeta esse o qual considero o mais importante do século 20 em Portugal. Falo de Mário de Sá-Carneiro. Mais a frente, o poema “Mãos” nos diz: “A esquerda e a direita me tem sido úteis./Com a direita, escrevo e faço outras proezas./Com a esquerda, abro a porta com chave./Sei que as mãos, que tanto me ajudam a viver,/devem distribuir o bem/e procuro usar as duas mãos com essa finalidade./Uso as duas mãos, não desprezo nenhuma,/já que a

Natureza mas disponibilizou/para o trabalho da sobrevivência./Os cinco dedos em cada mão/são cinco ferramentas flexíveis/que trazem néctares à minha boca/e afugentam os ratos do meu deserto./Só tenho um certo cuidado em evitar a contramão.” Sem pudor e livre pra dizer, nos mostra uma “Elegia sobre a punheta” na qual nos diz que: “Tocar punheta é o cara literalmente se fuder./É um pugilato covarde: cinco contra um./Uma punheta vale por duas partidas de futebol./(...)” Encontramos sonetos perfeitos num poeta moderno, mostrando-nos que poesia não existe preconceitos e toda forma de poetar vale a pena. Parodia soneto de Camões, de Vinicius de Moraes, um poema de Ferreira Gullar, São Francisco de Assis, Manuel Bandeira, Olavo Bilac, Fernando Pessoa e seu heterônimo Álvaro de Campos, Gregório de Matos, Raimundo Correia, Cassimiro de Abreu, Augusto dos Anjos, Florbela Espanca, Bocage e Cecília Meireles. Se dá o direito de poetar em parceria com Agamenon Honório e Antônio Gutman.

No texto biográfico feito pelo jornalista e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, nos diz que: “Márcio Catunda é poeta, romancista, cronista, ensaísta, compositor, letrista e escritor, nascido em Fortaleza-CE. Formou-se em 1979 em Direito pela Universidade Federal do Ceará e em 1989, em Letras pelo Centro Universitário de Brasília (CEUB). Em 1985, ingressou na carreira diplomática no Instituto Rio Branco, em Brasília. Em função disso, morou em países como Peru, Suíça, Bulgária, República Dominicana, Portugal, Gana, Espanha e Argélia, tendo lançado livros em várias cidades do mundo. Publicou mais de 50 livros, alguns dos quais no idioma espanhol. Produziu também dez CDs de poemas musicados e cantados por diversos parceiros e DVDs – documentários com suas apresentações em teatros e outros centros de cultura. seus livros receberam galardões de algumas instituições culturais. O livro “Paris e seus poetas visionários”, pesquisa biográfica sobre 25 grandes poetas franceses, recebeu o Prêmio Cecília Meireles de 2021, da União Brasileira de Escritores (UBE), seção rio de Janeiro.”

“Flores do deserto” nos mostra poemas de uma belíssima simplicidade, desses que mexem com a sensibilidade do leitor, entre os quais me incluo e têm uma belíssima capa da competente Val Mello, orelha do poeta e ensaísta Anderson Braga Horta e contracapa do poeta e editor Jorge ventura, o qual nos revela que: “O leitor que acompanha a trajetória bem sucedida do escritor Márcio Catunda haverá de concordar comigo. Esta é, certamente, a sua obra mais despojada, irreverente e descontraída, e, nem por isso, não menos reflexiva e comprometida com o lirismo e a literariedade. Aqui, o seu deserto poético não é árido nem ermo, ao contrário, é florido e fértil, terreno apropriado para o cultivo do bom humor, da ludicidade da palavra, dos versos engajados, das questões existenciais e filosóficas. É aspecto dos mais sedutores, nesta presente edição, a pluralidade dos temas tão bem tratados por este autor singular.” Sim, concordo com essas palavras e digo mais: “Flores do deserto” é um livro que muito me agradou, feito para ler com gosto, muito gosto. Recomendo.

Finalizando, transcrevo o poema “Sobre as guerras” no qual nos mostra a que ponto chegamos com tantas batalhas pelo petróleo e terras alheias com a ganância do homem nesses dias atuais: “Perguntam-me de novo sobre as guerras./Digo que é coisa de gente rancorosa,/que tem a pretensão/de montar no jumento do comando/e possuir a verdade./Gente ranzinza,/cheia de complexo de inferioridade,/que valoriza mais a grana/ do que a amizade./Gente antissocial./Baixo-astral./A mais triste/ condição de um ser humano é a de homicida./Toda guerra é uma guerra de merda./E, o pior,/é que não conseguimos dar descarga./Das guerras, pouco digo:/Viva o desertor!”

Contato: marciocatunda@hotmail.com

 

 

 

 

sexta-feira, 13 de março de 2026

UMA FAMÍLIA EXEMPLAR (PERO, NO MUCHO)*

Hoje publico uma crônica do meu amigo e escritor Adilson Júnior Pilotto, crônica esta que merece ser lida por todos e que todos façam uma reflexão sobre a verdade contida nas suas palavras.

 

 

Benito tinha uma família exemplar. Ele provia a casa com seu trabalho como empresário. Sustentava a mulher, Júlia, e os filhos, Adolfo e Caroline. Era uma linda família que ia à igreja todos os sábados à noite; oravam juntos e tinham um respaldo muito grande perante a sociedade. Todos os tinham como um exemplo para toda a cidade. Era lindo ver aquele pai protetor que bancava todas as contas, a mãe zelosa que esperava o marido com o jantar todas as noites quando ele voltava do trabalho e aqueles dois filhos supereducados que sempre obedeciam às ordens dos pais. Enfim, eram o modelo de família voltada ao cristianismo e ao tradicionalismo.

Claro, algumas coisas precisavam ser maquiadas e ignoradas. Tudo bem que Benito tinha uma amante e um filho fora do casamento que ele não registrou para não ter problemas com a empresa (e também vamos fingir que ele não ameaçou a moça para não colocá-lo na justiça). Ainda vale esquecer que o pai bondoso e provedor, vira e mexe, chegava estressado do serviço e descontava a raiva na esposa e nos filhos (com palavras ou pancadas). Afinal, por que vamos ficar pensando em coisas ruins quando podemos olhar aquele pai cristão e protetor?

Ainda vale esquecer que Júlia era dependente, não podia sair do casamento nem denunciar (afinal, o marido tinha boas relações com a polícia e ninguém ia acreditar nela). Não tinha para onde correr e precisava aguentar os "chifres" para não sair sem absolutamente nada e passar fome com os filhos — e ainda ser julgada por toda uma sociedade, pois teria largado o maior "partidão" da redondeza.

Ainda vale jogar para baixo do tapete que Adolfo tinha TDAH e só obedecia na base da pancada (terapia e remédios são desnecessários, e tudo se resolve no laço) e que Caroline não se enquadrava nos padrões heteronormativos, fazendo com que toda a repressão causada pela religião acarretasse em uma profunda depressão; por isso, era quieta e obediente.

Mas, claro, não vamos nos ater a detalhes tão fúteis. O importante é a família ir para a igreja aos sábados à noite, momento em que muitos vão para festas profanas beber e fazer coisas erradas. A família de Benito era linda e, se a gente ignorar uma meia dúzia de coisas banais, não tem melhor. É o modelo a ser seguido por todos e todas.

 

*Adilson Júnior Pilotto, nascido em 1990, em Viadutos, Rio Grande do Sul, Adilson Junior Pilotto é graduado em Filosofia pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Atualmente, trabalha como auxiliar de disciplina na Escola Municipal Luiz Badalotti, em Erechim (RS). Apaixonado por temas sociais, políticos e musicais, Adilson também gosta de futebol, viagens e boa conversa. Em 2025, participou das antologias poéticas “Poemas Letras Amigas” e “Viva Poesia 2025”. Além disso, cultiva o hábito do colecionismo, reunindo, por exemplo, itens relacionados à música, à cultura geek, ou ainda ligados à História, como moedas e selos, refletindo sua curiosidade e busca por conhecimento.

adilsonpilotto@gmail

 

 

 

 

 

 


 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Uma história de golpes num país da América do Sul – 41 anos após a volta da democracia, ainda corremos risco?!


Por Rogério Salgado

 

O Brasil é um país feito de golpes militares, e sobreviveu mais de um século subjugado por tal estigma. Desde os primórdios da Independência, em 7 de setembro de 1822, nossa pátria, pelo que se sabe, já enfrentou pelo menos seis golpes de estado no correr dos anos, o que impactou a vida política deste país e da sociedade como um todo, deixando em nossa história, marcas profundas em nossa frágil democracia. E uma tentativa de golpe, como se sabe, consiste numa tentativa de subverter a ordem institucional e a supressão do Estado de Direito, gerando, no mínimo, uma ditadura.

Tudo começou praticamente com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, e é exatamente nesta data que também teríamos o primeiro golpe de estado, agora na condição de República, quando o marechal Deodoro da Fonseca reuniu seus soldados para depor o Visconde de Ouro Preto, à época ministro do imperador Dom Pedro II. Com este acontecimento, a monarquia chegaria ao fim, surgindo então o início do que os historiadores intitularam de Primeira República.

Daquele momento histórico até os dias atuais, pelo que se sabe, insurgiriam mais cinco golpes de Estado que ainda guardam uma estreita relação com nossa trajetória política até os dias atuais. Enumerando todos os golpes documentados, vejamos quais seriam: Primeiro, os descontentamentos da caserna que ocasionariam a Proclamação da República em 1889; segundo,
o golpe de 3 de novembro de 1891, com a Primeira Revolta da Armada, quando a Marinha Brasileira ameaçou bombardear o Palácio Presidencial e obrigando o Marechal Deodoro da Fonseca a renunciar. Terceiro, a Revolução de 1930. Um golpe civil-militar quando uma junta militar depôs o presidente Washington Luís e assumiu Getúlio Dorneles Vargas, sendo que o motivo alegado para o golpe de Estado foi que a eleição teria sido fraudada (coincidência com os dias atuais) e assim terminava a Primeira República.  O quarto golpe aconteceria no Estado Novo em 1937, quando eleito indiretamente presidente da República em 1934, contando com amplo apoio das Forças Armadas, Vargas fechou o Congresso Nacional e decidiu cancelar as próximas eleições. Ali iniciava a era do chamado Estado Novo. Com este golpe de estado, Vargas se manteve no poder até 1945.  O quinto golpe ocorreu quando o presidente Getúlio Vargas foi deposto em 1945, a partir de decisões que na época contrariaram os militares, levando Vargas a perder sua força política e o estopim para sua deposição foi demitir João Alberto Lins de Barros e nomear seu irmão Benjamin Vargas, visto pelas forças antagônicas como um homem rude, temperamental e de difícil diálogo. O sexto golpe aconteceria em 1964, no qual, após a renúncia intempestiva do então presidente Jânio Quadros, os militares de plantão como sempre, viam o vice João Goulart com muita desconfiança para sucedê-lo na presidência da República. Havia o receio de que Jango se aproximasse do Partido Comunista e da esquerda internacional, especialmente de Cuba, ex-União Soviética e China, lugares aonde chegou, em 1961, a visitar esses dois últimos países com objetivos de ampliar o comércio internacional para o Brasil. Um outro motivo igualmente importante para esse golpe fora a aproximação de João Goulart com a classe operária, o que levou os militares a articularem e realizarem o golpe de estado em 1º de abril de 1964. Este golpe de estado foi o mais longo de todos os outros, permanecendo por 21 anos, até 1985. Os generais Humberto de Alencar Castelo Branco, Artur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Batista de Oliveira Figueiredo, nessa ordem, foram os cinco presidentes desse período. Os governos Costa e Silva e Garrastazu Médice foram historicamente, os que mais ocorreram torturas e desaparecimentos de civis, muitos até os dias atuais, desaparecidos, como é o caso do Deputado Rubens Paiva em 1971, retratado no filme “Ainda estou aqui”. Não podemos jamais esquecer que todas as tentativas de golpe de estado ou a sua consumação, sob qualquer pretexto, de alguma maneira desrespeitaram o que diz a nossa Constituição em seu artigo 142 e colocaram em xeque a soberania do nosso país ao atentarem contra a nossa frágil democracia como se buscassem acabar com a mesma.

Aqui ressalto e registro por minha conta e risco mais três tentativas de golpe a meu ver: a primeira aconteceu quando Fernando Collor de Mello fez uma abertura do mercado para carros importados, forçando uma redução dos impostos de importação, o que permitiu no Brasil que veículos de outras nacionalidades entrassem no país após décadas de mercado fechado. Isso levou, em 1992, a elite brasileira a buscar destituí-lo e na tentativa de encontrar algo que o incriminasse, sem êxito, já que não encontraram praticamente nada (seria o tal crime perfeito?) encontraram em sua garagem um Fiat Elba Weekend 1991 e alegaram ser fruto de corrupção, pedindo então o seu impeachment, levando-o, na sequência, a renunciar. Na ocasião, um jornalista do SBT ao encontrar na saída de um restaurante, ninguém menos do que Barbosa Lima Sobrinho, um dos maiores juristas deste país, na ocasião, aos 94 anos, acompanhado de sua neta e ao indagá-lo sobre a renúncia do atual presidente, ouviu com ironia a resposta do jurista de que aquele cidadão era, legalmente, um cidadão limpo perante as leis.

A segunda vamos falar agora: abalroado por denúncias de envolvimento no “petrolão”, o presidente da Câmara Eduardo Cunha parece encurralado, após solicitar que a presidenta Dilma Rousseff convencesse seu partido a votar a seu favor, o que não aconteceu, pois ela liberou para que cada um votasse com a sua consciência. Daí que, numa ação de represália, o mesmo desengavetaria um dos processos engavetados, o que, dentre outras coisas, resultou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 31 de agosto de 2016, por causa das chamadas "pedaladas fiscais", as quais se referem a atrasos intencionais e não transparentes de repasses do Tesouro Nacional para bancos públicos (como Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil) para cobrir despesas de programas sociais (como Bolsa Família e seguro-desemprego) e subsídios, como o Plano Safra, além de editar decretos de abertura de crédito de R$ 95 bilhões sem a autorização do Congresso, o que a levou ao descumprimento da meta fiscal de 2015. O resto já sabemos o que aconteceu.  

A terceira foi quando Luiz Inácio Lula da Silva resolveu concorrer à eleição de 2019 e nas pesquisas ele estava à frente de todos os demais candidatos. Sem uma prova cabível ou cabal de fraude ou crime que o impedisse de concorrer ao pleito, buscaram uma através de um sitio em Atibaia e de um Triplex no Guarujá, sob a denúncia de que ele teria recebido vantagem indevida da construtora OAS, em troca de sua influência em contratos na Petrobras, mas legalmente, não havia nada de concreto que oficializasse isso. Ele então foi condenado em primeira e segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região - TRF-4 por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A primeira condenação o tornou inelegível e ele foi preso após a condenação em segunda instância. Mas dois hackers, Walter Delgatti Neto e Thiago Eliezer, invadiram os celulares do ex-ministro da Justiça Sergio Moro e do procurador da República Deltan Dallagnol e de outras autoridades e descobriram que, mesmo sem nenhuma prova concreta que pudesse legalmente condenar alguém, pois não havia nenhum documento lavrado em cartório confirmando a veracidade de que os imóveis pertenciam ao Luis Inácio Lula da Silva, ele foi considerado culpado e virou réu no dia 12 de julho de 2017, a nove anos e seis meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Na segunda instância, a pena foi aumentada para 12 anos e um mês. Assim sendo, o Supremo Tribunal Federal anulou a condenação em 2021, considerando que o ex-juiz Sergio Moro não era o juiz competente para julgar o caso e também porque havia indícios de parcialidade na condenação. O caso foi arquivado em 2022 por prescrição. 

Vamos agora aos dias atuais. Em novembro de 2024, a Polícia Federal entregou ao Superior Tribunal Federal um relatório final de uma investigação que apontava a existência de uma organização criminosa no Brasil decidida a manter o ex presidente Jair Messias Bolsonaro no poder depois da derrota nas eleições de 2022 para Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a denúncia, o grupo era composto por 37 pessoas, as quais teriam atuado em núcleos para desacreditar o processo eleitoral, coagir autoridades e abalar o Estado Democrático de Direito. Procuradoria-Geral da República (PGR) também concluiu que militares, com formação no grupo de Forças Especiais do Exército, conhecidos como "kids pretos", foram escalados para convencer comandantes militares do suposto plano golpista para manter o ex-presidente no poder. Segundo o relatório da PGR, "Esse grupo da organização criminosa atuou para pressionar os comandantes das três forças armadas a aderirem ao plano/projeto conspiratório e, simultaneamente, para manter os acampamentos populares em frente aos quartéis de forma a angariar simpatia do Alto Comando do Exército para que o movimento tivesse contornos de “o povo vai às ruas”. Isto já havia funcionado antes, na famosa passeata pela família no Rio de Janeiro de 1964. A polícia Federal também logrou sucesso em vários mandados de busca e apreensão em que encontraram inúmeros documentos formulados, os quais atestavam um planejamento detalhado de uma sequência de ações coordenadas que culminariam com impedimento do candidato eleito tomar posse do cargo de presidente a que fazia jus. Os chamados Kids Pretos tinham entre suas várias atribuições no período, assassinar as mais altas autoridades da república, conforme depoimentos em interrogatórios patrocinados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). As provas conseguidas foram robustas, em mais de dois anos de um processo, que incluiu quebras de sigilo telemático, telefônico, bancário e fiscal, colaboração premiada, buscas, apreensões, dentre outras medidas autorizadas pelo Judiciário. O processo, que transcorreu o comandante do Exército e o Alto Comando, formulando cartas e agitando colegas em prol de ações de força no cenário político, buscando impedir que o candidato eleito entrasse no Palácio do Planalto”. Esses mesmos kids pretos confirmaram em interrogatórios no Supremo Tribunal Federal (STF) a existência de um plano que previa o assassinato de autoridades, de outro que tinha o intuito de prender ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). As provas foram obtidas ao longo de quase dois anos por meio de quebras de sigilo telemático, telefônico, bancário e fiscal, colaboração premiada, buscas e apreensões, entre outras medidas autorizadas pelo Judiciário. O caso chegou à Suprema Corte em sigilo, sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, responsável por outros processos relacionados ao grupo. Em novembro, o sigilo foi retirado e os autos foram enfim, encaminhados à Procuradoria Geral da República, que poderia então, oferecer a denúncia ou pedir seu arquivamento. Em fevereiro de 2025, a PGR através do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet denunciou 34 dos 37 investigados por tentativa de golpe de Estado. Segundo o órgão, o ex presidente chefiou uma organização criminosa. O Supremo Tribunal Federal então aceitou a denúncia contra 31 dos 34 acusados, tornando-os réus. A decisão da 1ª Turma considerou haver evidências suficientes para processá-los. A denúncia tinha o total de 272 páginas e detalha a participação dos investigados, incluindo planos de ações contra o Estado Democrático de Direito, campanhas de desinformação e apoio a manifestantes. Além desta denúncia principal, a gestão de Paulo Gonet na PGR apresentou diversas outras ações ao longo de 2024 e 2025 relacionadas a atos contra a democracia e desvio de verbas. O Ministro Alexandre de Moraes afirmou que os atos investigados culminaram no ataque de 8 de janeiro de 2023, quando extremistas invadiram as sedes dos Três Poderes e destruíram o que viram pela frente, num ato de extremo vandalismo. O ex presidente então foi condenado a 27 anos e três meses de prisão pelos crimes cometidos. Por  fim, foi decretada o inicio do cumprimento das penas desse primeiro grupo. Agora é aguardar os rumos desta história. Muitas águas ainda hão de rolar por debaixo dessa ponte. Quem viver, verá!
Poucos se lembram, mas ano passado, ou seja, 2025 fez 40 anos da volta da democracia no Brasil, mesmo assim, com muitas dificuldades. Tudo isso só foi possível por causa de uma falha dos militares. Explico: no dia 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado nas dependências do Exército na capital paulista. Nesta data, atendendo a uma convocação, Herzog apresentou-se voluntariamente para depor no Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), o órgão repressivo do regime, em São Paulo. Lá, foi detido de maneira ilegal, torturado e assassinado no mesmo dia por agentes do estado. Ele tinha apenas 38 anos. A versão oficial de sua morte – descrita como suicídio por enforcamento nas dependências do Doi-Codi – iniciou uma onda de protestos em setores da sociedade que contestavam a falsa versão dos militares. A foto divulgada pelo regime é claramente uma farsa improvisada, em que o jornalista aparece enforcado ao nível do chão. Na preparação do corpo para o sepultamento, o rabino Sobel viu marcas de tortura e ignorou a causa da morte informada pelas autoridades. Assim, Vlado pôde ser sepultado dentro do cemitério judaico, o que é proibido aos suicidas. Já em seu enterro, em 27 de outubro, a farsa começou a ser denunciada. A repercussão da morte de Vlado abalou a linha dura do regime e impulsionou o processo de enfraquecimento do regime militar. A versão do regime militar sobre as circunstâncias da morte de Herzog jamais convenceu sua família, que sempre buscou o reconhecimento oficial de que o jornalista foi morto pelos agentes da repressão. Em 1978, a Justiça responsabilizou a União por prisão ilegal, tortura e morte de Vladimir Herzog. Em 1997, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos reconheceu o assassinato de Herzog e concedeu uma indenização aos familiares. Mas foi somente em março de 2013, 37 anos após a morte de Herzog, que sua família obteve um novo atestado de óbito. Por iniciativa da Comissão Nacional da Verdade, foi feita a correção do documento. A causa de morte, que até então era descrita como “enforcamento por asfixia mecânica”, foi corrigida para “lesões e maus-tratos sofridos durante os interrogatórios em dependência do II Exército (Doi-Codi). O fim da ditadura militar no Brasil ocorreu em 1985, com a posse de José Sarney como presidente, após o falecimento de Tancredo Neves, marcando o início da Nova República. O período autoritário, que começou com o golpe de 1964, durou 21 anos e foi encerrado por meio de uma eleição indireta para presidente civil, em meio a crises do regime. Infelizmente pelo que me consta, um pouco menos da metade dos brasileiros ignoram sua própria história e apóiam a liberdade dos criminosos que tentaram trazer de volta a ditadura no Brasil.  

Encerrando: recentemente, a OEA (Organização dos Estados Americanos), através da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em seu relatório sobre liberdade de expressão no Brasil, reconheceu a tentativa de golpe de Estado e a deslegitimação dos resultados eleitorais de 2022, destacando o papel fundamental do Supremo Tribunal Federal (STF) na defesa da democracia, afastando a tese de perseguição política defendida por aliados do ex presidente Jair Bolsonaro. O documento elogiou as instituições brasileiras, mas alertou sobre a concentração de poder nas medidas do STF. Esse fato contrariou a narrativa  dos designados bolsonaristas, de perseguição política, frustrando expectativas de sanções internacionais, segundo O Globo e instagram.com. A OEA defendeu que a liberdade de expressão depende de uma sociedade democrática e alertou para o uso indiscriminado de termos como "desinformação", que podem ameaçar essa liberdade se não houver definições claras, mesmo elogiando a atuação do STF. Em resumo, o relatório da OEA é uma validação oficial da tentativa de golpe no Brasil e um reforço à democracia brasileira, desmoralizando a narrativa de perseguição política. Para quem prefere democracia, só nos resta ficarmos atentos.

 

 

 

 

 

 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

A HISTÓRIA REVIVE A OBRA DO POETA MAURO FONSECA

Foi nos idos de 1985, em que eu e os poetas Wagner Torres e Virgínia Reis fomos uns dos cabeças do EPC\Encontro Popular de Cultura; que conheci um poeta que muito chamou a minha atenção, pela riqueza de sua obra e pela doçura de seus gestos: trata-se do saudoso Mauro Fonseca, que esteve presente no EPC juntamente com a turma de poetas da cidade de Juiz de Fora. Mauro era um daqueles poetas sensíveis, que buscavam refúgio nos bares e ali extravasava toda a sua poesia. Uma bela amizade entre nós aconteceu.

Em 1986 estive em Juiz de Fora e num evento literário nos reencontramos, quando recebi de suas mãos autografado, seu livro: “Não há sinal de porto algum”. Mas, lamentavelmente, em 1988 fiquei sabendo de sua trágica morte. Alguns dias se passaram e liguei para a Funalfa\ Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage e sugeri que não deixassem que a obra desse excelente poeta se perdesse por aí. Somente em 2020, ao pesquisar na internet, fiquei sabendo que seu filho, o jornalista Mauro Morais reuniu seus dois livros: “Não sou náufrago na ilha de ninguém” (1982) e “Não há sinal de porto algum” (1984), além de outros 300 poemas inéditos, na coletânea “Entre o aborto e o parto”, publicado através do incentivo cultural da Lei Murilo Mendes. O lançamento aconteceu em 2015 com a exposição “Entre a foto e o fato” e o lançamento do referido livro.

Essa antologia que revela a trajetória e a obra de Mauro Fonseca se confunde com um dos momentos mais importantes da vida cultural da cidade: uma firme atuação literária da geração poética juizdeforana, na década de 80. Em suas mais de 450 páginas, “O aborto e o parto”, nos revela que o verso livre predomina e os temas abordados nos poemas dialogam entre si. Há ênfase nas circunstâncias políticas e sociais e da repercussão desses acontecimentos na alma do autor.  Destaque na obra são também os dois textos do organizador dessa coletânea. Há uma introdução em que Morais conta a história dos movimentos dos grupos “Abre Alas” e da “D’Lira” e do grau e do modo de participação de seu pai nesses grupos. Contudo, é no texto de abertura, “As palavras resistem à corda”, que está prenunciado o valor e o significado do livro. Diz Mauro, o filho, num trecho: – “(…) Coloco-me nu em minhas profundas dores para dizer que quaisquer leituras não dão conta de apresentar um poeta que também é pai. Um escritor que fez em sua pena construção da paternidade.(...)” Leiamos os versos de Mauro Fonseca: “sim, eu preferia minha boca cerrada\se num segundo trouxesse\no bojo da palavra\alguma esperança vã.\agora\lanço no poema o carrocel, a ciranda,\o doce da venda, a fruta maçã...\(ah, quem dera um grito amigo\pra acordar o homem todas as manhãs).”

Foi em 21 de maio de 2015, no aniversário de 53 anos de Mauro Fonseca e lançamento da antologia “Entre o aborto e o parto”, que o poeta Fernando Fiorese leu sua homenagem a este poeta: “Foi aos dezessete anos que conheci o poeta Mauro Fonseca.(...) Aos dezessete anos, conheci o poeta Mauro Fonseca e topei com a obra do voyant Rimbaud. Eram tempos férreos e feéricos, como costumam ser os verdes anos da juventude e como foram os anos de chumbo da ditadura militar (1964-1985). (...) A imagem daquele jovem sozinho e silencioso, assentado nos primeiros degraus de uma escada nos fundos de um enorme salão branco – o corpo pequeno, magro e como que contorcido por um qualquer incômodo físico ou espiritual inominável; os cabelos em desalinho; calça e camisa despreocupadas por inteiro da moda; um cigarro transitando nervoso entre a mão e a boca; as pernas recolhidas, talvez pouco à vontade porque suspensa a errância que lhes era própria; o olhar ora alheio, ora oblíquo, ora lâmina –, a essa imagem colou-se de forma indelével as figurações e as lendas em torno de Rimbaud. Em segredo, sem que nem mesmo ele soubesse, tornou-se um meu Rimbaud pessoal, doméstico, contemporâneo, tangível. (...)”

A mãe de Mauro Morais se encontrava no quinto mês de gestação quando Mauro Fonseca fez da sua morte, seu maior poema de protesto. Era o ano de 1988 e o poeta estava com 25 anos de idade. Em vida, integrou uma geração de escritores literários muito ativos em Juiz de Fora, como Luiz Ruffato, Iacyr Anderson Freitas e Fernando Fiorese.

Nascido quatro meses após o falecimento do pai, o meio pelo qual Mauro Morais travou conhecimento e intimidade com Mauro Fonseca foi através de sua obra. Se a morte física separou pai e filho, a literatura os reuniu.

A publicação de “Entre o aborto e o parto” veio resgatar historicamente a poesia daquele que considero um dos mais importantes poetas da geração dos anos 80. Pena que o livro encontra-se praticamente esgotado, mas após pesquisa descobri que alguns poucos exemplares estão sendo vendidos no site: www.estantevirtual.com.br

Informações sobre a obra do poeta Mauro Fonseca poderão ser encontradas com facilidade no Google.

 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

RUI MONTESE LANÇA “VOO DOS GANSOS”.

 

Por Rogério Salgado

Recebo das mãos do poeta e compositor Rui Montese, seu cd “Voo dos Gansos”, no qual contém uma parceria nossa intitulada “Fundo de quintal”. Depois do CD “Caminhando com as Próprias Pernas” e em seguida o EP “Criando Asas”, Rui se arvora a completar sua trilogia com este “Voo dos Gansos”. Conheci Rui Montese em 1985 durante a realização do 1º EPC\Encontro Popular de Cultura, evento este no qual fazíamos parte da equipe realizadora. Mas só a partir do ano 2000 é que nos tornamos parceiros. Chegamos a fazer um show, juntos, intitulado “No cantinho, um violão”; no Castelo Caiçaras, do nosso amigo ator, diretor e produtor, saudoso Adilson Magha, com casa lotada, dia 09 de agosto de 2003, tendo de repetir a dose no sábado seguinte.

Passei uma manhã de domingo agradável ouvindo este cd, um trabalho primoroso, feito com profissionalismo e gravado nos estúdios LP, do competente músico e produtor musical Luiz Peixoto, que também assina os arranjos e produção musical. São sete canções, sendo duas em parcerias: uma comigo (Fundo de quintal), outra com Orlando Arcanjo (Abnegação), apesar de Rui não precisar tanto assim de parcerias, já que apesar de excelente músico, é também um grande poeta. Quatro canções são interpretadas pelo próprio Rui Montese, sendo três por interpretes amigos. Aqui, o autor passeia por vários ritmos, como por exemplo, o aboio, narrativa musical, rock e até mesmo uma influência do erudito, com o profissionalismo que lhe é peculiar.

Na faixa 01 ouvimos “Casco de Bota”; na faixa 02, “Menino Travesso”; faixa 03, “Garotinha de 20 Anos”, essas na interpretação do próprio autor; na faixa 04, “Abnegação” temos a interpretação afinada de Patrícia de Assis; faixa 05, “Canção de Fazer Dó” na qual Cliver Honorato da voz a essa canção, aqui extraída do show no CCUFMG em 2007, com Cliver Honorato no violão e voz, Eugênio Mitre no baixo e Caio Batera na bateria e percussão; a faixa 06, “Fundo de Quintal” numa excelente Interpretação da cantora Rita Silva, também extraído do show no CCUFMG em 2007, com Cliver Honorato no violão, Eugênio Mitre no baixo e Caio Batera na bateria e percussão; e por último, a faixa 07, “O Fim do Inferno” na interpretação do autor, um rock estilo “Helter Skelter” do álbum branco dos Beatles.

Rui Montese, músico brasileiro, poeta e compositor, vêm cada vez mais conquistando o público nas suas apresentações. Traz na sua bagagem todo um contexto cultural com shows e apresentações em muitos espaços de Belo Horizonte e outras cidades de Minas Gerais. O seu estilo MPB tem variações para o erudito e para a música de raiz, com visão aguçada para o que é real e sensível. Na arte é o resgate de muitos anos de trabalho e de criação. O hábito de estudar lhe dá uma grande perspectiva. Está encontrando o seu caminho montando seu próprio estúdio com o objetivo de fazer suas próprias produções de áudio e de vídeo e assim buscar formas de divulgar seu trabalho. Apesar do Governo Federal mutilar a cultura no Brasil, transformando o Ministério da Cultura numa salinha com banheiro nos fundos, obstinado, Rui Montese lança “Voo dos Gansos”, acreditando no futuro da cultura no Brasil, esperança essa que eu e minha poesia, já desacreditamos desde janeiro de 2019.

O Álbum “O Voo dos Gansos" é um trabalho que merece ser conhecido pelo grande público, pela qualidade de suas canções e está sendo lançado pela CD Baby em várias plataformas de streaming como Spotify, Apple, Amazon e outras tantas no mundo inteiro. O artista fez, no dia 27 de novembro de 2020, o Pré-Lançamento em Live do Encontro Ex-Probam 2020 tendo obtido grande sucesso. Apesar de um grande engajamento social e político do qual o autor busca o sonho de um mundo melhor para todos, ´Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”, por isso o amor e o romantismo ainda fazem parte da vida desse compositor. Vale conferir.

Contatos: (31) 997772734 - ruimontesemascarenhas@gmail.com -  www.ruimontese.com.br

 

 

 


sábado, 24 de outubro de 2020

EXPOSIÇÃO E LANÇAMENTO DE LIVRO: VANDER LÚCIO MACCIEL E ROGÉRIO SALGADO

Dia 6 de janeiro próximo\2021 estará acontecendo o primeiro evento oficial de 2021 na Livraria Páginas, a Rua Padre Eustáquio nº 2475 – Loja 6, bairro Padre Eustáquio, em Belo Horizonte\MG. É que a partir das 18h30, acontecerá à abertura da exposição “As cores e os versos” do artista plástico Vander Lúcio Macciel, inspirado em poemas do poeta Rogério Salgado. No mesmo dia e horário também acontecerá o lançamento do livro “Volúvel Fado” de Rogério Salgado, comemorando 45 anos de carreira poética em 2020 e 67 anos de idade em 2021.

A exposição “As cores e os versos” é composta de 13 pinturas inspiradas em poemas de Rogério Salgado, além de uma escultura intitulada “Linhas da memória", também autoria Vander Lúcio Macciel, feita a partir da coleção de canetas que lhe foi doada pelo poeta Rogério Salgado e que será sorteada entre os que adquirirem o livro.

“Volúvel Fado” tem projeto gráfico da capa (com ilustração de Vander Lúcio Macciel), contracapa e miolo do artdesigner Irineu Baroni e prefácio da escritora paulista Anita Costa Prado. Com tiragem de 500 exemplares, o livro vem com 48 páginas, num formato simples, com 31 poemas escritos nos últimos dois anos. “Em 2018 eu havia escrito poucos poemas, mas ao longo desses 2019 e 2020 realmente estive sem inspiração por causa dos rumos que o país seguiu em relação a tudo e principalmente a cultura. Daí ter escrito tão pouco nesses últimos dois anos.”, desabafa o poeta.

Vander Lúcio Macciel é natural de Belo Horizonte. Artista plástico autodidata, desde criança já colocava algumas idéias no papel, mais como brincadeira, e gostava de ver os desenhos e entalhes em lápis que havia feito em sala de aula. A pintura iniciou-se na década de 90, quando comprou de um colega de trabalho, uma coleção de livros sobre técnicas de desenho e pintura. Expôs seus trabalhos em vários locais da capital mineira, tais como Espaço da Assembléia Legislativa de MG, Centro Cultural Padre Eustáquio, etc. Ilustrou as capas dos livros “Envolver na criação” (Costelas Felinas) e “Volúvel Fado” (RS Edições) do poeta Rogério Salgado. Tem parceria com a Galeria Art` Imperial do artista plástico Wallace Alves, localizada em Itatiaia, Ouro Branco/MG, aonde lá vem produzindo e comercializando suas obras aos turistas que percorrem o circuito da Estrada Real.

Rogério Salgado é natural de Campos dos Goytacazes\RJ. Veio para Belo Horizonte em 1980. Em 1982 publicou seu livro de estréia “Tontinho” (Conto – Edição do Autor). Na década de 80, foi editor da Revista Arte Quintal. Realizou entre 2005 e 2014 com Virgilene Araújo, o “Belô Poético Encontro Nacional de Poesia” de Belo Horizonte. Também com Virgilene Araújo, idealizou e concebeu o projeto “Poesia na Praça Sete”, projeto esse realizado com os benefícios da Lei Municipal de Incentivo a Cultura de Belo Horizonte. Publicou mais de 30 livros. Tem trabalhos publicados em jornais do Brasil e do exterior.

O evento é uma realização da Livraria Páginas e conta com o apoio de Baroni Edições, Restaurante Dona Preta, Cachaçaria Ouro 1 e Qualigraf Copiadora.

A exposição ficará aberta ao público até o final de janeiro.

Abaixo, dois poemas do livro:

 

VOLÚVEL FADO

Meu coração tão instável

fadado a ser infeliz

honesto em suas certezas

mas sempre se contradiz.

 

É um favo doce inquietante

pulsante fino gentil

só chora um fado amargo

por não conseguir ser ardil.

 

Deságua num mar de soluços

carente de colo e calor

é um coração tão volúvel

mas vive em busca de amor.

 

(Parceria com Virgilene Araújo)

 

HUMANO

Cada partícula de mim é poesia

por isso sou humano

e mano a mano

 

por cada ser humano

que merece respeito.

 

Preciso amar e ser amado

por isso estar próximo da cor de rosa

do arco-íris e da negritude.

 

Choro pelos poros

por aqueles que sentem fome

pelo desrespeito humano

e não me dou por vencido

se minha palavra for navalha

 

pois a palavra fere

se for dita com verdade.

Ilusões são sonhos perdidos

que não realizaremos.

 

Cada lágrima que me choro pra dentro

sai de mim salgada nos versos

que escrevo no branco do papel

pois os versos são eu

poesia verdadeira a quem queira ler

poesia verdadeira a quem a recusar

minha palavra é o que digo, sempre

na hora de versejar.