sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Uma história de golpes num país da América do Sul – 41 anos após a volta da democracia, ainda corremos risco?!


Por Rogério Salgado

 

O Brasil é um país feito de golpes militares, e sobreviveu mais de um século subjugado por tal estigma. Desde os primórdios da Independência, em 7 de setembro de 1822, nossa pátria, pelo que se sabe, já enfrentou pelo menos seis golpes de estado no correr dos anos, o que impactou a vida política deste país e da sociedade como um todo, deixando em nossa história, marcas profundas em nossa frágil democracia. E uma tentativa de golpe, como se sabe, consiste numa tentativa de subverter a ordem institucional e a supressão do Estado de Direito, gerando, no mínimo, uma ditadura.

Tudo começou praticamente com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, e é exatamente nesta data que também teríamos o primeiro golpe de estado, agora na condição de República, quando o marechal Deodoro da Fonseca reuniu seus soldados para depor o Visconde de Ouro Preto, à época ministro do imperador Dom Pedro II. Com este acontecimento, a monarquia chegaria ao fim, surgindo então o início do que os historiadores intitularam de Primeira República.

Daquele momento histórico até os dias atuais, pelo que se sabe, insurgiriam mais cinco golpes de Estado que ainda guardam uma estreita relação com nossa trajetória política até os dias atuais. Enumerando todos os golpes documentados, vejamos quais seriam: Primeiro, os descontentamentos da caserna que ocasionariam a Proclamação da República em 1889; segundo,
o golpe de 3 de novembro de 1891, com a Primeira Revolta da Armada, quando a Marinha Brasileira ameaçou bombardear o Palácio Presidencial e obrigando o Marechal Deodoro da Fonseca a renunciar. Terceiro, a Revolução de 1930. Um golpe civil-militar quando uma junta militar depôs o presidente Washington Luís e assumiu Getúlio Dorneles Vargas, sendo que o motivo alegado para o golpe de Estado foi que a eleição teria sido fraudada (coincidência com os dias atuais) e assim terminava a Primeira República.  O quarto golpe aconteceria no Estado Novo em 1937, quando eleito indiretamente presidente da República em 1934, contando com amplo apoio das Forças Armadas, Vargas fechou o Congresso Nacional e decidiu cancelar as próximas eleições. Ali iniciava a era do chamado Estado Novo. Com este golpe de estado, Vargas se manteve no poder até 1945.  O quinto golpe ocorreu quando o presidente Getúlio Vargas foi deposto em 1945, a partir de decisões que na época contrariaram os militares, levando Vargas a perder sua força política e o estopim para sua deposição foi demitir João Alberto Lins de Barros e nomear seu irmão Benjamin Vargas, visto pelas forças antagônicas como um homem rude, temperamental e de difícil diálogo. O sexto golpe aconteceria em 1964, no qual, após a renúncia intempestiva do então presidente Jânio Quadros, os militares de plantão como sempre, viam o vice João Goulart com muita desconfiança para sucedê-lo na presidência da República. Havia o receio de que Jango se aproximasse do Partido Comunista e da esquerda internacional, especialmente de Cuba, ex-União Soviética e China, lugares aonde chegou, em 1961, a visitar esses dois últimos países com objetivos de ampliar o comércio internacional para o Brasil. Um outro motivo igualmente importante para esse golpe fora a aproximação de João Goulart com a classe operária, o que levou os militares a articularem e realizarem o golpe de estado em 1º de abril de 1964. Este golpe de estado foi o mais longo de todos os outros, permanecendo por 21 anos, até 1985. Os generais Humberto de Alencar Castelo Branco, Artur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Batista de Oliveira Figueiredo, nessa ordem, foram os cinco presidentes desse período. Os governos Costa e Silva e Garrastazu Médice foram historicamente, os que mais ocorreram torturas e desaparecimentos de civis, muitos até os dias atuais, desaparecidos, como é o caso do Deputado Rubens Paiva em 1971, retratado no filme “Ainda estou aqui”. Não podemos jamais esquecer que todas as tentativas de golpe de estado ou a sua consumação, sob qualquer pretexto, de alguma maneira desrespeitaram o que diz a nossa Constituição em seu artigo 142 e colocaram em xeque a soberania do nosso país ao atentarem contra a nossa frágil democracia como se buscassem acabar com a mesma.

Aqui ressalto e registro por minha conta e risco mais três tentativas de golpe a meu ver: a primeira aconteceu quando Fernando Collor de Mello fez uma abertura do mercado para carros importados, forçando uma redução dos impostos de importação, o que permitiu no Brasil que veículos de outras nacionalidades entrassem no país após décadas de mercado fechado. Isso levou, em 1992, a elite brasileira a buscar destituí-lo e na tentativa de encontrar algo que o incriminasse, sem êxito, já que não encontraram praticamente nada (seria o tal crime perfeito?) encontraram em sua garagem um Fiat Elba Weekend 1991 e alegaram ser fruto de corrupção, pedindo então o seu impeachment, levando-o, na sequência, a renunciar. Na ocasião, um jornalista do SBT ao encontrar na saída de um restaurante, ninguém menos do que Barbosa Lima Sobrinho, um dos maiores juristas deste país, na ocasião, aos 94 anos, acompanhado de sua neta e ao indagá-lo sobre a renúncia do atual presidente, ouviu com ironia a resposta do jurista de que aquele cidadão era, legalmente, um cidadão limpo perante as leis.

A segunda vamos falar agora: abalroado por denúncias de envolvimento no “petrolão”, o presidente da Câmara Eduardo Cunha parece encurralado, após solicitar que a presidenta Dilma Rousseff convencesse seu partido a votar a seu favor, o que não aconteceu, pois ela liberou para que cada um votasse com a sua consciência. Daí que, numa ação de represália, o mesmo desengavetaria um dos processos engavetados, o que, dentre outras coisas, resultou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 31 de agosto de 2016, por causa das chamadas "pedaladas fiscais", as quais se referem a atrasos intencionais e não transparentes de repasses do Tesouro Nacional para bancos públicos (como Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil) para cobrir despesas de programas sociais (como Bolsa Família e seguro-desemprego) e subsídios, como o Plano Safra, além de editar decretos de abertura de crédito de R$ 95 bilhões sem a autorização do Congresso, o que a levou ao descumprimento da meta fiscal de 2015. O resto já sabemos o que aconteceu.  

A terceira foi quando Luiz Inácio Lula da Silva resolveu concorrer à eleição de 2019 e nas pesquisas ele estava à frente de todos os demais candidatos. Sem uma prova cabível ou cabal de fraude ou crime que o impedisse de concorrer ao pleito, buscaram uma através de um sitio em Atibaia e de um Triplex no Guarujá, sob a denúncia de que ele teria recebido vantagem indevida da construtora OAS, em troca de sua influência em contratos na Petrobras, mas legalmente, não havia nada de concreto que oficializasse isso. Ele então foi condenado em primeira e segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região - TRF-4 por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A primeira condenação o tornou inelegível e ele foi preso após a condenação em segunda instância. Mas dois hackers, Walter Delgatti Neto e Thiago Eliezer, invadiram os celulares do ex-ministro da Justiça Sergio Moro e do procurador da República Deltan Dallagnol e de outras autoridades e descobriram que, mesmo sem nenhuma prova concreta que pudesse legalmente condenar alguém, pois não havia nenhum documento lavrado em cartório confirmando a veracidade de que os imóveis pertenciam ao Luis Inácio Lula da Silva, ele foi considerado culpado e virou réu no dia 12 de julho de 2017, a nove anos e seis meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Na segunda instância, a pena foi aumentada para 12 anos e um mês. Assim sendo, o Supremo Tribunal Federal anulou a condenação em 2021, considerando que o ex-juiz Sergio Moro não era o juiz competente para julgar o caso e também porque havia indícios de parcialidade na condenação. O caso foi arquivado em 2022 por prescrição. 

Vamos agora aos dias atuais. Em novembro de 2024, a Polícia Federal entregou ao Superior Tribunal Federal um relatório final de uma investigação que apontava a existência de uma organização criminosa no Brasil decidida a manter o ex presidente Jair Messias Bolsonaro no poder depois da derrota nas eleições de 2022 para Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a denúncia, o grupo era composto por 37 pessoas, as quais teriam atuado em núcleos para desacreditar o processo eleitoral, coagir autoridades e abalar o Estado Democrático de Direito. Procuradoria-Geral da República (PGR) também concluiu que militares, com formação no grupo de Forças Especiais do Exército, conhecidos como "kids pretos", foram escalados para convencer comandantes militares do suposto plano golpista para manter o ex-presidente no poder. Segundo o relatório da PGR, "Esse grupo da organização criminosa atuou para pressionar os comandantes das três forças armadas a aderirem ao plano/projeto conspiratório e, simultaneamente, para manter os acampamentos populares em frente aos quartéis de forma a angariar simpatia do Alto Comando do Exército para que o movimento tivesse contornos de “o povo vai às ruas”. Isto já havia funcionado antes, na famosa passeata pela família no Rio de Janeiro de 1964. A polícia Federal também logrou sucesso em vários mandados de busca e apreensão em que encontraram inúmeros documentos formulados, os quais atestavam um planejamento detalhado de uma sequência de ações coordenadas que culminariam com impedimento do candidato eleito tomar posse do cargo de presidente a que fazia jus. Os chamados Kids Pretos tinham entre suas várias atribuições no período, assassinar as mais altas autoridades da república, conforme depoimentos em interrogatórios patrocinados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). As provas conseguidas foram robustas, em mais de dois anos de um processo, que incluiu quebras de sigilo telemático, telefônico, bancário e fiscal, colaboração premiada, buscas, apreensões, dentre outras medidas autorizadas pelo Judiciário. O processo, que transcorreu o comandante do Exército e o Alto Comando, formulando cartas e agitando colegas em prol de ações de força no cenário político, buscando impedir que o candidato eleito entrasse no Palácio do Planalto”. Esses mesmos kids pretos confirmaram em interrogatórios no Supremo Tribunal Federal (STF) a existência de um plano que previa o assassinato de autoridades, de outro que tinha o intuito de prender ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). As provas foram obtidas ao longo de quase dois anos por meio de quebras de sigilo telemático, telefônico, bancário e fiscal, colaboração premiada, buscas e apreensões, entre outras medidas autorizadas pelo Judiciário. O caso chegou à Suprema Corte em sigilo, sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, responsável por outros processos relacionados ao grupo. Em novembro, o sigilo foi retirado e os autos foram enfim, encaminhados à Procuradoria Geral da República, que poderia então, oferecer a denúncia ou pedir seu arquivamento. Em fevereiro de 2025, a PGR através do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet denunciou 34 dos 37 investigados por tentativa de golpe de Estado. Segundo o órgão, o ex presidente chefiou uma organização criminosa. O Supremo Tribunal Federal então aceitou a denúncia contra 31 dos 34 acusados, tornando-os réus. A decisão da 1ª Turma considerou haver evidências suficientes para processá-los. A denúncia tinha o total de 272 páginas e detalha a participação dos investigados, incluindo planos de ações contra o Estado Democrático de Direito, campanhas de desinformação e apoio a manifestantes. Além desta denúncia principal, a gestão de Paulo Gonet na PGR apresentou diversas outras ações ao longo de 2024 e 2025 relacionadas a atos contra a democracia e desvio de verbas. O Ministro Alexandre de Moraes afirmou que os atos investigados culminaram no ataque de 8 de janeiro de 2023, quando extremistas invadiram as sedes dos Três Poderes e destruíram o que viram pela frente, num ato de extremo vandalismo. O ex presidente então foi condenado a 27 anos e três meses de prisão pelos crimes cometidos. Por  fim, foi decretada o inicio do cumprimento das penas desse primeiro grupo. Agora é aguardar os rumos desta história. Muitas águas ainda hão de rolar por debaixo dessa ponte. Quem viver, verá!
Poucos se lembram, mas ano passado, ou seja, 2025 fez 40 anos da volta da democracia no Brasil, mesmo assim, com muitas dificuldades. Tudo isso só foi possível por causa de uma falha dos militares. Explico: no dia 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado nas dependências do Exército na capital paulista. Nesta data, atendendo a uma convocação, Herzog apresentou-se voluntariamente para depor no Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), o órgão repressivo do regime, em São Paulo. Lá, foi detido de maneira ilegal, torturado e assassinado no mesmo dia por agentes do estado. Ele tinha apenas 38 anos. A versão oficial de sua morte – descrita como suicídio por enforcamento nas dependências do Doi-Codi – iniciou uma onda de protestos em setores da sociedade que contestavam a falsa versão dos militares. A foto divulgada pelo regime é claramente uma farsa improvisada, em que o jornalista aparece enforcado ao nível do chão. Na preparação do corpo para o sepultamento, o rabino Sobel viu marcas de tortura e ignorou a causa da morte informada pelas autoridades. Assim, Vlado pôde ser sepultado dentro do cemitério judaico, o que é proibido aos suicidas. Já em seu enterro, em 27 de outubro, a farsa começou a ser denunciada. A repercussão da morte de Vlado abalou a linha dura do regime e impulsionou o processo de enfraquecimento do regime militar. A versão do regime militar sobre as circunstâncias da morte de Herzog jamais convenceu sua família, que sempre buscou o reconhecimento oficial de que o jornalista foi morto pelos agentes da repressão. Em 1978, a Justiça responsabilizou a União por prisão ilegal, tortura e morte de Vladimir Herzog. Em 1997, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos reconheceu o assassinato de Herzog e concedeu uma indenização aos familiares. Mas foi somente em março de 2013, 37 anos após a morte de Herzog, que sua família obteve um novo atestado de óbito. Por iniciativa da Comissão Nacional da Verdade, foi feita a correção do documento. A causa de morte, que até então era descrita como “enforcamento por asfixia mecânica”, foi corrigida para “lesões e maus-tratos sofridos durante os interrogatórios em dependência do II Exército (Doi-Codi). O fim da ditadura militar no Brasil ocorreu em 1985, com a posse de José Sarney como presidente, após o falecimento de Tancredo Neves, marcando o início da Nova República. O período autoritário, que começou com o golpe de 1964, durou 21 anos e foi encerrado por meio de uma eleição indireta para presidente civil, em meio a crises do regime. Infelizmente pelo que me consta, um pouco menos da metade dos brasileiros ignoram sua própria história e apóiam a liberdade dos criminosos que tentaram trazer de volta a ditadura no Brasil.  

Encerrando: recentemente, a OEA (Organização dos Estados Americanos), através da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em seu relatório sobre liberdade de expressão no Brasil, reconheceu a tentativa de golpe de Estado e a deslegitimação dos resultados eleitorais de 2022, destacando o papel fundamental do Supremo Tribunal Federal (STF) na defesa da democracia, afastando a tese de perseguição política defendida por aliados do ex presidente Jair Bolsonaro. O documento elogiou as instituições brasileiras, mas alertou sobre a concentração de poder nas medidas do STF. Esse fato contrariou a narrativa  dos designados bolsonaristas, de perseguição política, frustrando expectativas de sanções internacionais, segundo O Globo e instagram.com. A OEA defendeu que a liberdade de expressão depende de uma sociedade democrática e alertou para o uso indiscriminado de termos como "desinformação", que podem ameaçar essa liberdade se não houver definições claras, mesmo elogiando a atuação do STF. Em resumo, o relatório da OEA é uma validação oficial da tentativa de golpe no Brasil e um reforço à democracia brasileira, desmoralizando a narrativa de perseguição política. Para quem prefere democracia, só nos resta ficarmos atentos.

 

 

 

 

 

 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

A HISTÓRIA REVIVE A OBRA DO POETA MAURO FONSECA

Foi nos idos de 1985, em que eu e os poetas Wagner Torres e Virgínia Reis fomos uns dos cabeças do EPC\Encontro Popular de Cultura; que conheci um poeta que muito chamou a minha atenção, pela riqueza de sua obra e pela doçura de seus gestos: trata-se do saudoso Mauro Fonseca, que esteve presente no EPC juntamente com a turma de poetas da cidade de Juiz de Fora. Mauro era um daqueles poetas sensíveis, que buscavam refúgio nos bares e ali extravasava toda a sua poesia. Uma bela amizade entre nós aconteceu.

Em 1986 estive em Juiz de Fora e num evento literário nos reencontramos, quando recebi de suas mãos autografado, seu livro: “Não há sinal de porto algum”. Mas, lamentavelmente, em 1988 fiquei sabendo de sua trágica morte. Alguns dias se passaram e liguei para a Funalfa\ Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage e sugeri que não deixassem que a obra desse excelente poeta se perdesse por aí. Somente em 2020, ao pesquisar na internet, fiquei sabendo que seu filho, o jornalista Mauro Morais reuniu seus dois livros: “Não sou náufrago na ilha de ninguém” (1982) e “Não há sinal de porto algum” (1984), além de outros 300 poemas inéditos, na coletânea “Entre o aborto e o parto”, publicado através do incentivo cultural da Lei Murilo Mendes. O lançamento aconteceu em 2015 com a exposição “Entre a foto e o fato” e o lançamento do referido livro.

Essa antologia que revela a trajetória e a obra de Mauro Fonseca se confunde com um dos momentos mais importantes da vida cultural da cidade: uma firme atuação literária da geração poética juizdeforana, na década de 80. Em suas mais de 450 páginas, “O aborto e o parto”, nos revela que o verso livre predomina e os temas abordados nos poemas dialogam entre si. Há ênfase nas circunstâncias políticas e sociais e da repercussão desses acontecimentos na alma do autor.  Destaque na obra são também os dois textos do organizador dessa coletânea. Há uma introdução em que Morais conta a história dos movimentos dos grupos “Abre Alas” e da “D’Lira” e do grau e do modo de participação de seu pai nesses grupos. Contudo, é no texto de abertura, “As palavras resistem à corda”, que está prenunciado o valor e o significado do livro. Diz Mauro, o filho, num trecho: – “(…) Coloco-me nu em minhas profundas dores para dizer que quaisquer leituras não dão conta de apresentar um poeta que também é pai. Um escritor que fez em sua pena construção da paternidade.(...)” Leiamos os versos de Mauro Fonseca: “sim, eu preferia minha boca cerrada\se num segundo trouxesse\no bojo da palavra\alguma esperança vã.\agora\lanço no poema o carrocel, a ciranda,\o doce da venda, a fruta maçã...\(ah, quem dera um grito amigo\pra acordar o homem todas as manhãs).”

Foi em 21 de maio de 2015, no aniversário de 53 anos de Mauro Fonseca e lançamento da antologia “Entre o aborto e o parto”, que o poeta Fernando Fiorese leu sua homenagem a este poeta: “Foi aos dezessete anos que conheci o poeta Mauro Fonseca.(...) Aos dezessete anos, conheci o poeta Mauro Fonseca e topei com a obra do voyant Rimbaud. Eram tempos férreos e feéricos, como costumam ser os verdes anos da juventude e como foram os anos de chumbo da ditadura militar (1964-1985). (...) A imagem daquele jovem sozinho e silencioso, assentado nos primeiros degraus de uma escada nos fundos de um enorme salão branco – o corpo pequeno, magro e como que contorcido por um qualquer incômodo físico ou espiritual inominável; os cabelos em desalinho; calça e camisa despreocupadas por inteiro da moda; um cigarro transitando nervoso entre a mão e a boca; as pernas recolhidas, talvez pouco à vontade porque suspensa a errância que lhes era própria; o olhar ora alheio, ora oblíquo, ora lâmina –, a essa imagem colou-se de forma indelével as figurações e as lendas em torno de Rimbaud. Em segredo, sem que nem mesmo ele soubesse, tornou-se um meu Rimbaud pessoal, doméstico, contemporâneo, tangível. (...)”

A mãe de Mauro Morais se encontrava no quinto mês de gestação quando Mauro Fonseca fez da sua morte, seu maior poema de protesto. Era o ano de 1988 e o poeta estava com 25 anos de idade. Em vida, integrou uma geração de escritores literários muito ativos em Juiz de Fora, como Luiz Ruffato, Iacyr Anderson Freitas e Fernando Fiorese.

Nascido quatro meses após o falecimento do pai, o meio pelo qual Mauro Morais travou conhecimento e intimidade com Mauro Fonseca foi através de sua obra. Se a morte física separou pai e filho, a literatura os reuniu.

A publicação de “Entre o aborto e o parto” veio resgatar historicamente a poesia daquele que considero um dos mais importantes poetas da geração dos anos 80. Pena que o livro encontra-se praticamente esgotado, mas após pesquisa descobri que alguns poucos exemplares estão sendo vendidos no site: www.estantevirtual.com.br

Informações sobre a obra do poeta Mauro Fonseca poderão ser encontradas com facilidade no Google.

 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

RUI MONTESE LANÇA “VOO DOS GANSOS”.

 

Por Rogério Salgado

Recebo das mãos do poeta e compositor Rui Montese, seu cd “Voo dos Gansos”, no qual contém uma parceria nossa intitulada “Fundo de quintal”. Depois do CD “Caminhando com as Próprias Pernas” e em seguida o EP “Criando Asas”, Rui se arvora a completar sua trilogia com este “Voo dos Gansos”. Conheci Rui Montese em 1985 durante a realização do 1º EPC\Encontro Popular de Cultura, evento este no qual fazíamos parte da equipe realizadora. Mas só a partir do ano 2000 é que nos tornamos parceiros. Chegamos a fazer um show, juntos, intitulado “No cantinho, um violão”; no Castelo Caiçaras, do nosso amigo ator, diretor e produtor, saudoso Adilson Magha, com casa lotada, dia 09 de agosto de 2003, tendo de repetir a dose no sábado seguinte.

Passei uma manhã de domingo agradável ouvindo este cd, um trabalho primoroso, feito com profissionalismo e gravado nos estúdios LP, do competente músico e produtor musical Luiz Peixoto, que também assina os arranjos e produção musical. São sete canções, sendo duas em parcerias: uma comigo (Fundo de quintal), outra com Orlando Arcanjo (Abnegação), apesar de Rui não precisar tanto assim de parcerias, já que apesar de excelente músico, é também um grande poeta. Quatro canções são interpretadas pelo próprio Rui Montese, sendo três por interpretes amigos. Aqui, o autor passeia por vários ritmos, como por exemplo, o aboio, narrativa musical, rock e até mesmo uma influência do erudito, com o profissionalismo que lhe é peculiar.

Na faixa 01 ouvimos “Casco de Bota”; na faixa 02, “Menino Travesso”; faixa 03, “Garotinha de 20 Anos”, essas na interpretação do próprio autor; na faixa 04, “Abnegação” temos a interpretação afinada de Patrícia de Assis; faixa 05, “Canção de Fazer Dó” na qual Cliver Honorato da voz a essa canção, aqui extraída do show no CCUFMG em 2007, com Cliver Honorato no violão e voz, Eugênio Mitre no baixo e Caio Batera na bateria e percussão; a faixa 06, “Fundo de Quintal” numa excelente Interpretação da cantora Rita Silva, também extraído do show no CCUFMG em 2007, com Cliver Honorato no violão, Eugênio Mitre no baixo e Caio Batera na bateria e percussão; e por último, a faixa 07, “O Fim do Inferno” na interpretação do autor, um rock estilo “Helter Skelter” do álbum branco dos Beatles.

Rui Montese, músico brasileiro, poeta e compositor, vêm cada vez mais conquistando o público nas suas apresentações. Traz na sua bagagem todo um contexto cultural com shows e apresentações em muitos espaços de Belo Horizonte e outras cidades de Minas Gerais. O seu estilo MPB tem variações para o erudito e para a música de raiz, com visão aguçada para o que é real e sensível. Na arte é o resgate de muitos anos de trabalho e de criação. O hábito de estudar lhe dá uma grande perspectiva. Está encontrando o seu caminho montando seu próprio estúdio com o objetivo de fazer suas próprias produções de áudio e de vídeo e assim buscar formas de divulgar seu trabalho. Apesar do Governo Federal mutilar a cultura no Brasil, transformando o Ministério da Cultura numa salinha com banheiro nos fundos, obstinado, Rui Montese lança “Voo dos Gansos”, acreditando no futuro da cultura no Brasil, esperança essa que eu e minha poesia, já desacreditamos desde janeiro de 2019.

O Álbum “O Voo dos Gansos" é um trabalho que merece ser conhecido pelo grande público, pela qualidade de suas canções e está sendo lançado pela CD Baby em várias plataformas de streaming como Spotify, Apple, Amazon e outras tantas no mundo inteiro. O artista fez, no dia 27 de novembro de 2020, o Pré-Lançamento em Live do Encontro Ex-Probam 2020 tendo obtido grande sucesso. Apesar de um grande engajamento social e político do qual o autor busca o sonho de um mundo melhor para todos, ´Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”, por isso o amor e o romantismo ainda fazem parte da vida desse compositor. Vale conferir.

Contatos: (31) 997772734 - ruimontesemascarenhas@gmail.com -  www.ruimontese.com.br

 

 

 


sábado, 24 de outubro de 2020

EXPOSIÇÃO E LANÇAMENTO DE LIVRO: VANDER LÚCIO MACCIEL E ROGÉRIO SALGADO

Dia 6 de janeiro próximo\2021 estará acontecendo o primeiro evento oficial de 2021 na Livraria Páginas, a Rua Padre Eustáquio nº 2475 – Loja 6, bairro Padre Eustáquio, em Belo Horizonte\MG. É que a partir das 18h30, acontecerá à abertura da exposição “As cores e os versos” do artista plástico Vander Lúcio Macciel, inspirado em poemas do poeta Rogério Salgado. No mesmo dia e horário também acontecerá o lançamento do livro “Volúvel Fado” de Rogério Salgado, comemorando 45 anos de carreira poética em 2020 e 67 anos de idade em 2021.

A exposição “As cores e os versos” é composta de 13 pinturas inspiradas em poemas de Rogério Salgado, além de uma escultura intitulada “Linhas da memória", também autoria Vander Lúcio Macciel, feita a partir da coleção de canetas que lhe foi doada pelo poeta Rogério Salgado e que será sorteada entre os que adquirirem o livro.

“Volúvel Fado” tem projeto gráfico da capa (com ilustração de Vander Lúcio Macciel), contracapa e miolo do artdesigner Irineu Baroni e prefácio da escritora paulista Anita Costa Prado. Com tiragem de 500 exemplares, o livro vem com 48 páginas, num formato simples, com 31 poemas escritos nos últimos dois anos. “Em 2018 eu havia escrito poucos poemas, mas ao longo desses 2019 e 2020 realmente estive sem inspiração por causa dos rumos que o país seguiu em relação a tudo e principalmente a cultura. Daí ter escrito tão pouco nesses últimos dois anos.”, desabafa o poeta.

Vander Lúcio Macciel é natural de Belo Horizonte. Artista plástico autodidata, desde criança já colocava algumas idéias no papel, mais como brincadeira, e gostava de ver os desenhos e entalhes em lápis que havia feito em sala de aula. A pintura iniciou-se na década de 90, quando comprou de um colega de trabalho, uma coleção de livros sobre técnicas de desenho e pintura. Expôs seus trabalhos em vários locais da capital mineira, tais como Espaço da Assembléia Legislativa de MG, Centro Cultural Padre Eustáquio, etc. Ilustrou as capas dos livros “Envolver na criação” (Costelas Felinas) e “Volúvel Fado” (RS Edições) do poeta Rogério Salgado. Tem parceria com a Galeria Art` Imperial do artista plástico Wallace Alves, localizada em Itatiaia, Ouro Branco/MG, aonde lá vem produzindo e comercializando suas obras aos turistas que percorrem o circuito da Estrada Real.

Rogério Salgado é natural de Campos dos Goytacazes\RJ. Veio para Belo Horizonte em 1980. Em 1982 publicou seu livro de estréia “Tontinho” (Conto – Edição do Autor). Na década de 80, foi editor da Revista Arte Quintal. Realizou entre 2005 e 2014 com Virgilene Araújo, o “Belô Poético Encontro Nacional de Poesia” de Belo Horizonte. Também com Virgilene Araújo, idealizou e concebeu o projeto “Poesia na Praça Sete”, projeto esse realizado com os benefícios da Lei Municipal de Incentivo a Cultura de Belo Horizonte. Publicou mais de 30 livros. Tem trabalhos publicados em jornais do Brasil e do exterior.

O evento é uma realização da Livraria Páginas e conta com o apoio de Baroni Edições, Restaurante Dona Preta, Cachaçaria Ouro 1 e Qualigraf Copiadora.

A exposição ficará aberta ao público até o final de janeiro.

Abaixo, dois poemas do livro:

 

VOLÚVEL FADO

Meu coração tão instável

fadado a ser infeliz

honesto em suas certezas

mas sempre se contradiz.

 

É um favo doce inquietante

pulsante fino gentil

só chora um fado amargo

por não conseguir ser ardil.

 

Deságua num mar de soluços

carente de colo e calor

é um coração tão volúvel

mas vive em busca de amor.

 

(Parceria com Virgilene Araújo)

 

HUMANO

Cada partícula de mim é poesia

por isso sou humano

e mano a mano

 

por cada ser humano

que merece respeito.

 

Preciso amar e ser amado

por isso estar próximo da cor de rosa

do arco-íris e da negritude.

 

Choro pelos poros

por aqueles que sentem fome

pelo desrespeito humano

e não me dou por vencido

se minha palavra for navalha

 

pois a palavra fere

se for dita com verdade.

Ilusões são sonhos perdidos

que não realizaremos.

 

Cada lágrima que me choro pra dentro

sai de mim salgada nos versos

que escrevo no branco do papel

pois os versos são eu

poesia verdadeira a quem queira ler

poesia verdadeira a quem a recusar

minha palavra é o que digo, sempre

na hora de versejar.

 

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

OS HERÓIS DO PRESIDENTE (APENAS UM DESABAFO)


Quem são os heróis do presidente eleito em 2018?  

Carlos Alberto Brilhante Ustra foi um coronel do Exército Brasileiro, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército (de 1970 a 1974), um dos órgãos atuantes na repressão política, durante o período da ditadura militar no Brasil (1964-1985) e único torturador oficialmente condenado pelos seus crimes.  Também era conhecido pelo codinome Dr. Tibiriçá. Foi através deste assassino que alguém que conheci um dia e que cometeu o erro de paquerar um comunista, sem saber que o mesmo era disso, e por isso perdeu a virgindade num pau de arara aos 17 anos, quando ainda era menor de idade. Em 2008, Ustra tornou-se o primeiro militar condenado pela Justiça Brasileira pela prática de tortura durante a ditadura. Embora reformado, continuou politicamente ativo nos clubes militares, na defesa da ditadura militar e nas críticas anticomunistas. Ele escreveu dois livros de memórias: “Rompendo o Silêncio” (1987) e A Verdade Sufocada (2006), sendo este último, livro de cabeceira do presidente eleito em 2018. Mas o que me choca são religiosos de várias tendências cristãs, que pregam amor ao próximo e a caridade acima de tudo e falam em nome de Jesus, terem votado e até hoje defenderem esse cidadão, que num gesto de sadismo, dedicou seu voto no dia do impeachment de Dilma Rousseff, a este coronel, que a torturou no tempo da ditadura. Pergunto: isso é um gesto cristão? Voto por voto, por que não elegeram outro candidato de algum partido cristão ou que fosse evangélico, pelo menos? (e olha que tinha). O torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra faleceu dia 15 de outubro de 2015.

Do mesmo modo, o presidente eleito em 2018 recebeu em Brasília  dia 4 de maio último, com honras e pompas de herói nacional,  Sebastião Rodrigues de Moura, o Major Curió, de 84 anos. O oficial do exército comandou a repressão à Guerrilha do Araguaia, no Pará, no final da década de 1960 e início da década de 1970. O militar passou para a reserva como coronel e foi denunciado pelo Ministério Público Federal por tortura, homicídio e ocultação de cadáver, chegando a confessar participação em diversos assassinatos. Apesar das graves acusações de tortura, Curió conseguiu construir uma imagem controversa como "líder carismático" no Pará. O militar foi um dos fundadores de Curionópolis, cidade que recebeu o nome em sua homenagem. O município, onde se localiza o distrito de Serra Pelada, teve Curió como prefeito por dois mandatos (2001-2008). As torturas utilizadas pelo Major Curió seguiam um sádico manual elaborado pelo Centro de Informações do Exército (CIE), intitulado “Contraguerrilha na Selva”. Segundo o documento, no ato da prisão, o guerrilheiro era obrigatoriamente interrogado e, nesse momento, era também espancado, furado com baionetas e até arrastado pela mata. Depois, era conduzido a uma base distrital para outro interrogatório, em que era novamente torturado e até morto. Depois, seu corpo era enterrado clandestinamente. Localizada em Marabá, no sudeste do Pará, no quilômetro um da rodovia Transamazônica, a Casa Azul era um centro de prisão clandestino utilizado pelo Centro de Informações do Exército (CIE) como um Centro de Informações e Triagem (CIT). Segundo a CNV, acredita-se que morreram mais de 30 guerrilheiros no local em decorrência de tortura ou por execução fria e crua.  Moradores locais acusados de apoiar a guerrilha também sofriam torturas. Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em audiência pública em Marabá, em 2014, Abel Honorato conta que foi detido e encaminhado para a Casa Azul em 1972, sob a acusação de ser amigo de Oswaldão, um militante temido e procurado pelo Exército na região. No local, ele foi torturado e, quando foi solto, seu estado físico era grave. “Lá me bateram com vontade. Me retiraram daqui (de Marabá) semimorto. Saí vestido numa saia, pois não podia botar uma calça”. Depois que foi liberado, o homem conta que foi obrigado a servir de mateiro para as Forças Armadas. "Disseram pra mim: 'Você vai agora voltar e vai ter que dar conta dos seus companheiros'. Fui obrigado a trabalhar de guia até depois da guerra, sob os olhos de Curió. Até em Serra Pelada [garimpo dirigido por Curió na década de 1980], fiz missões para ele. Tem 40 anos dessa guerra, mas pra mim é um desgosto. Fui muito judiado, fui muito acabado. Até hoje eu não sou ninguém. [...] Eu tive de contar até o que não sabia para escapar. Eu tive que dizer, forçado, que não fui um amigo do Oswaldão, mas hoje eu posso dizer, de verdade, que fui amigo dele, pois ele foi amigo da região, ajudou muita gente", conta.

Para quem pensa que os militares foram ao Araguaia salvar o Brasil, desconhecem que a grande maioria ao chegar neste lugar, assassinou pobres proprietários de terras e tomou essas terras para seu espólio pessoal. E para quem diz que na ditadura não houve corrupção, pesquisem Coroa Brastel, Transamazônica e a Ponte Rio Niterói entre outros tantos assuntos, que rolavam por debaixo dos panos, mas que a censura abafava e proibia os brasileiros de ficarem sabendo que a corrupção corria solta.

Posso até ter cometido algum erro em ter votado no PT para a presidência e faço hoje uma auto-critica, mas posso dormir com a consciência leve e morrer sem culpas de um dia na vida, ter votado e elegido um presidente que tem como ídolos, ex torturadores e assassinos. Sou um ser humano cheio de defeitos e busco no dia a dia aproximar-me cada vez mais do que é ser cristão, por isso digo com toda convicção: na dúvida, anularia meu voto para não votar em simpatizante de carrascos.

Apenas a título de informação: nosso governante em seu discurso no último 7 de setembro, voltou a elogiar o golpe militar de 1964, que instaurou uma ditadura de 21 anos no País. Como se pode constatar: a democracia vê-se de novo ameaçada. Fiquemos de olhos bem abertos.

Termino aqui com um poema do meu novo livro “Volúvel Fado”, ainda a ser lançado, no qual comemoro 45 anos de carreira. Nele expresso o que sinto nas entrelinhas desse governo. E para quem elogiar ou criticar o que expresso aqui, deixo claro que não tenho intenção de responder, pois amante da democracia acima de tudo, respeitarei as opiniões diversas a respeito.

CINEMA TRANSCENDENDAL

(ROTA BRASIL  2019/2022)


Apertem o cinto:

a democracia sumiu!

 

(Rogério Salgado)


OBS: foto ilustrativa do Cel. Brilhante Ustra, internet; foto do encontro do presidente com o Major Curió, reprodução Facebook.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

“PROVÉRBIOS DA LAMA”: UM LIVRO URGENTE NOS DIAS ATUAIS.



Após o sucesso da coletânea “Cem Poemas, Cem Mil Sonhos”, um despertar para o não esquecimento da Passeata dos Cem Mil, a maior manifestação popular contra a ditadura militar brasileira, organizada pelo movimento estudantil e que ocorreu em 26 de junho de 1968, na cidade do Rio de Janeiro e contou com a participação de artistas, intelectuais e outros setores da sociedade brasileira, o Selo Editorial Starling lança mais uma coletânea de peso: trata-se de “Provérbios da Lama”, na qual poetas se manifestam indignados com o rompimento das barragens de Bento Rodrigues e Mariana, em 2015; Brumadinho, Queimadas na Amazônia e Derramamento de óleo no litoral, em 2019, bem como desastres e crimes evitáveis, de todos os tempos, como Hiroshima e Nagasaki em 1945; Chernobyl em 1986; Fukushima em 2011, apenas para citar alguns. Segundo o editor Rodrigo Starling: “Seremos nós as testemunhas de um segundo Dilúvio? Eis o que, há mais de 500 anos, sugeriu o polímata, gênio e visionário italiano, Leonardo da Vinci: “Repele furiosamente o que se opõe a sua destruição; Toda coisa constrangida, constrange por sua vez; Nada se move sem a força... A lama será tão profunda, que os homens caminharão sobre as árvores...”
Com prefácio de Tilden Santiago, que dispensa comentários, o livro tem como poetas participantes: Adriana Santiago, Aldo Nora, Alessandro Diniz, Almir Zarfeg, Alexandra Magalhães Zeiner, Anamaria Alves, Ana Sampaio, André Galvão, Angélica Gouveia, Antônio Carlos Silva, Antônio Francisco Pereira, Carlos Bronzato, Carmo Braz de Oliveira, Cláudio de Almeida, Cláudio Hermínio, Clevane Pessoa, Cristhiane Ferreguett, Dalva Silveira, Danielli Cavalcanti, Diego Lara, Edilene Torino, Edson Fuhrmann, Elisa de Jesus, Erivan Santana, Evandro Lobo, Expedito Gonçalves Dias, Fabiano Mendonça, Fátima Sampaio, Fernando Benício, Francisco Ferreira, Gabriel Fabrício de Souza, Gisele Starling, Ijail Francisco Amaral, Isaac Pinheiro, Israel Faria, Jailson Júnior, João Evangelista Rodrigues, José Hilton Rosa, Juliana Karol de Oliveira Falcão, jullie Veiga, Leandro Almeida, Leandro Campos Alves, Luciane Madrid Cesar, Luiz Otávio Oliani, Luiza Silva Oliveira, Manoel Barbosa, Marcos Oliveira Júnior, Maria do Carmo A. Braga, Mesequias Maadson, Nadezhda Bezerra, Nanda Soffiette, Paulo César Barros, Paulo Ismar Mota Florindo, Rafael Mendes Siqueira, Rodrigo Starling, Rogério Salgado, Ronilson de Souza, Rosa Acassia Luizari, Rose Gazolla, Salomão Sousa, Talita Yara, Tauã Lima, Tilden Santiago, Victor Lage e Zoraide Elisabeth.

Pelo tema que desperta consciências, “Provérbios da Lama” é mais um livro organizado pelo Selo Editorial Starling, que procura colocar no mercado apenas livros que levem a reflexões. Pena que com essa estúpida decisão do governo federal de taxar 12% para livros, mais do que recebe o próprio autor (10%) possa incomodar projetos sérios como este. Lutemos então para que isso não aconteça.

Quem quiser adquirir “Provérbios da Lama”, os contatos são: starlingconsultores@gmail.com, selostarling@gmail.com

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

VAMOS CONVERSAR SOBRE O AI-5!!!

 


Nesses tempos de incertezas e inseguranças, tendo presidente elogiando um dos maiores assassinos e torturadores da história deste país, o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, único militar condenado, na época pelo governo Sarney, pelos crimes hediondos cometidos a seres humanos e filho de presidente pedindo um novo AI-5, alguns irresponsáveis desejando intervenção militar e para piorar, neste último mês de maio, o Major Curió, acusado de ter praticado torturas e ocultação de cadáver no período pós-64, ter sido recebido em Brasília com honras militares,  vamos ensinar aos desensinados o que foi o AI-5.

O Ato Institucional Nº 5, ou AI-5, foi o quinto de uma série de Atos Institucionais emitidos pela ditadura militar brasileira nos anos seguintes ao Golpe Militar de 1964  no Brasil.  O AI-5 dava poderes ao Presidente da República  e suspendia várias garantias constitucionais. Caso alguém resolvesse denunciar você, caro leitor, como comunista as autoridades brasileiras, sendo você ou não, os militares tinham plenos poderes de invadir sua casa, levar você e família para serem torturadas, depois matá-los e jogar os corpos no mar, isso tudo dentro da lei.

Redigido em 13 de dezembro de 1968 pelo Ministro da Justiça Luis Antônio da Gama e Silva, o AI-5 entrou em vigor durante o governo do presidente Arthur da Costa e Silva como represália ao discurso do deputado Márcio Moreira Alves na Câmara dos Deputados, em 2 de setembro de 1968. No discurso, o deputado propôs um boicote ao militarismo e solicitou ao povo brasileiro que ninguém participasse das comemorações do 7 de setembro. Evidente que o decreto também vinha na esteira de ações e declarações pelas quais a classe política fortaleceu a chamada linha dura da ditadura militar. Ou seja: foi mais um pretexto para implementar medidas defendidas pelos militares desde julho de 1968. Era o instrumento que faltava para que a ditadura cassasse direitos políticos e interviesse nos municípios e estados. Sua primeira medida foi o fechamento do Congresso Nacional, até 21 de outubro de 1969. O AI-5 durou até dezembro de 1978.

Coronel José Geraldo de Oliveira, Comandante da Polícia Militar de Minas Gerais e um dos cabeças do Golpe Militar de 64, desabafou em 1989: “Foi um engano, um lamentável equívoco. Se eu soubesse que o movimento de 1964 iria dar no que deu, não teria tomado parte dele. Durante dois anos preparei a Polícia Militar de Minas Gerais para uma revolução que vencesse a corrupção e a subversão. Hoje, 25 anos depois, sei que o que aconteceu foi um golpe. Fomos meros serviçais de magnatas. A cada dia os ricos se tornam cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres.”

Dia 13 de dezembro de 2016, 48 anos após esse “golpe dentro do golpe”, eu, Biláh Bernardes, Helenice Maria Reis Rocha (falecida em julho de 2019), Irineu Baroni e Petrônio Souza Gonçalves lançamos na Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais, o livro “AI-5” (Baroni Edições), organizado por mim, com capa e projeto gráfico de Irineu Baroni, tendo como convidados a poeta e artista plástica Neuza Ladeira, uma das vítimas da ditadura e do AI-5; Christina Rodrigues, historiadora, que traça um perfil histórico da época e Dalva Silveira, escritora e pesquisadora, que faz uma análise sobre a influência do AI-5 nas artes no Brasil e prefácio de Nilmário Miranda. Esse histórico livro  ainda resta alguns poucos exemplares, que poderão ser adquiridos comigo antes que se esgote, ao preço de R$ 20,00 (incluindo despesas com correio). Para adquirir, peça pelo celular\whatsAp: (31) 98421.6827 meus dados bancários para depósito e\ou transferência.

Na foto ilustrativa, os autores e a capa do livro. Ao lado, imagem de um ser humano sendo torturado no pau de arara.