sexta-feira, 15 de novembro de 2013
sábado, 1 de junho de 2013
HÁ 30 ANOS SURGIA A REVISTA ARTE-QUINTAL
Há 30 anos, em março de 1983 surgia o
primeiro exemplar da Revista Arte Quintal na capital mineira, revista esta que
ficaria na história da cultura nacional.
Quando minha mãe, a pianista Glória
Salgado veio a falecer em 1980, eu vim parar em Belo Horizonte. Aqui comecei a
me inturmar com a rapaziada da poesia que ficava na Praça Sete. Lá, sempre nos
encontrávamos eu, Wilson Coelho, Isaias do Maranhão, Juleba, Evaldo Martins e
outros. Alí falávamos de poesia quase uma tarde inteira.
Foi quando através de um amigo do meu irmão Paulo, que trabalhava com ele e
escrevia poemas, conheci os poetas Anselmo Guimarães e Ruy Barreto que editavam
a revista Recanto. Era o ano de 1982 e isso me motivou para que lançasse minha própria revista.
Em 1982 lancei meu primeiro livro Tontinho em edição independente. Na
época, eu morava no bairro Planalto e havia conhecido Ecivaldo John, que hoje
reside nos Estados Unidos da América e ele havia topado essa aventura. Depois
conhecemos Virginia Reis, que atualmente exerce a medicina e fomos para as
esquinas fazer pedágios pedindo ajuda, dando em troca um poema. Fizemos também
rifas e por fim, conseguimos alguns poucos anúncios. A revista saiu dia 13 de
março de 1983 e tomou seu próprio rumo. Neste mesmo ano conheci o poeta Wagner
Torres na Praça Sete, que seria uma pessoa importante para o processo da
revista, tornando-se até hoje, meu melhor e o único fiel amigo amigo. Nessa época estávamos
desistindo de continuar e foi ele quem nos incentivou para que seguíssemos em
frente, incorporando-se assim, ao time de editores da revista. Aos poucos a
revista foi ficando conhecida em todo o país e até no exterior, numa época em
ainda não havia internet. Tínhamos uma estratégia na revista: colocávamos uma
entrevista com alguém de renome com chamada na capa e por dentro, tipo Paulinho
Pedra Azul, Fernando Brant, Oswaldo França Júnior e acrescentávamos também vários artistas
iniciantes e desconhecidos, dando uma força para aquela rapaziada.
Em 1983, no ano de sua criação,
Ecivaldo John resolveu pular fora do barco e buscar seu sonho de morar na
América do Norte. A revista continuou comigo, Virginia e Wagner Torres.
Em 1984 a Arte Quintal tornou-se
editora e passamos a publicar livros. Um fato era certo: na década de 80, todo
escritor que vinha de outro estado e passava pela capital mineira, fazia uma
visitinha a três lugares sagrados para eles: o jornal Estado de Minas, o
Suplemento Literário de Minas Gerais e a Revista Arte-Quintal.
Em 1985 aconteceu o 1º EPC – Encontro
Popular de Cultura, Encontro esse que surgiu de um papo na Praça Sete entre
Virginia Reis, Isaias do Maranhão e o jornalista Jorge Fernando dos Santos e
que foi parar dentro da Arte Quintal, no qual convocamos vários seguimentos
artísticos para incorporar ao movimento e que veio a acontecer sua primeira
edição em 1985. Em 1986, já na organização do 2º EPC, Virginia Reis numa ida ao
banheiro, voltou desesperada, pois tinha visto uma turma – a qual não citarei
nomes por motivos éticos – articulando uma maracutaia para que fossem votados
para a diretoria do referido evento. Daí que ela decidiu pular fora do meio
artístico e seguir a medicina, que segundo ela, era um meio mais honesto de se
viver.
E a revista\Editora continuou comigo e
Wagner Torres por um longo caminho, até que
em 1992, quando veio o Plano Collor
começamos a passar dificuldades. Vários artistas mineiros fizeram shows
e lançamentos de livros pra tentar reerguer a editora, mas foi muito difícil e
fechamos as portas, restando apenas o que deixamos para a história da cultura
mineira e nacional. Mas dessa história ficou um lema criado pela cabeça
criativa do poeta Wagner Torres: “Ler é o
caminho.”
Foto ilustrativa: Da
esquerda pra direita: Ecivaldo John, escritora Eliane Maciel, Wagner Torres e
Rogério Salgado, na Feira do Livro da Praça Sete\1983. Ao fundo, Marcelo Rubens
Paiva.
sábado, 30 de março de 2013
TODOS OS DIAS DE ONTEM: DE NEWTON EMEDIATO FILHO
Quando em 2004 publicou seu livro de
estreia Um carro de bois que transportava
logos (Edição do Autor), apesar de ser uma grande obra, notava-se uma forte
influência do escritor Guimarães Rosa em sua obra e isso é normal num primeiro
livro. Agora nos chega às mãos Todos os
dias de ontem (Usina de Livros), onde se percebe que seu autor
desprendeu-se de influências e tomou seu próprio rumo, num livro muito bem
escrito, aproximando-se da perfeição literária.
Neste seu segundo
livro Todos os Dias de Ontem, Newton
Emediato Filho reúne vinte contos inéditos da melhor qualidade. Sendo
um projeto premiado pelo Programa + Cultura Bacia do Rio São Francisco/
FUNARTE e Ministério da Cultura, o trabalho coleta histórias de
tradição oral contadas na região Centro-Sul de Minas: Alto do Paraopeba;
levando em conta a alteridade.
Todos
os Dias de Ontem fala de amor e é
antes de tudo, um livro poético a começar pelo título, assim como em vários
parágrafos do texto em si, como no encerramento do segundo conto, em que diz: “Lina nunca mais teve notícias de Luna.
Estas são lembranças que evaporam-se no ar.” Nota-se as metáforas e imagens
que só um grande escritor imaginarias para suas escritas. Aliás, é no
fechamento dos contos que percebemos sempre uma surpresa e é quando o autor vai
aos extremos de sua capacidade criadora, deixando-nos surpreendidos. Neste livro, podemos sentir que seus
personagens, mesmo matutos, tem muitas vezes poesia em seu linguajar, como no
conto “Retumbação” onde o vaqueiro Sim fala para Salazarte: “- O amor é como uma primavera deve ser
apreciada direito, senão o sujeito não vai aproveitar o mais bonito da vida.”
Uma das características mais impressionantes do livro são justamente os
diálogos bastante originais, assim como os nomes de seus personagens.
Segundo
palavras do autor, ele sentiu-se motivado a escrever este livro quando esteve
em contato com várias comunidades remanescentes, compostas por quilombos e
fazendas tradicionais, onde interagiu com vários informantes que habitam estas
regiões e ali realizou-se o que se chama na Antropologia de Observação
Participante. Ao ouvir estas pessoas, registrou em forma de contos, histórias
de tradição oral que são contadas por essa gente. Segundo ele, a relevância em
divulgar estes relatos, é uma tentativa de conscientizar os leitores a refletir
sobre a importância da preservação desta cultura regional que se fragiliza a
medida que o avanço tecnológico se aproxima. Em contramão desta desvalorização
que vem acontecendo, neste projeto há um resgate destas tradições, levando-as
ao conhecimento do mundo. Juntamente à cultura local que se perde gradualmente,
também a língua se acultura, assimilando palavras do universo exterior. O
resgate deste linguajar sertanejo, não tem por intenção manter a língua
estática, uma vez que compreende a dialética do mundo. Todavia, quer mostrar a
resistência linguística que ainda sobrevive paralela a este conflito. Portanto,
o maior dos motivos de um trabalho desta natureza é o respeito à alteridade,
quando leva o leitor a perceber que a valorização da cultura do outro é
imprescindível. Somente assim é possível amenizar o impacto cultural entre as
diferentes regiões culturais do mundo.
O escritor e pesquisador Newton Emediato Filho, natural
de Belo Vale, Minas Gerais. É autor de vários ensaios sobre a obra de João
Guimarães Rosa e outros. Seu conto Um
Papagaio Palimpséstico recebeu os prêmios: Projeto Manuelzão/UFMG e Menção Honrosa
pela Editora Guemanisse, deTeresópolis/RJ. Também foi premiado no Concurso
Guimarães Rosa com o conto O tempo de um
livro na IV Jornada Guimarães Rosa/UFMG, organizada pela Associação
Brasileira de Médicos Escritores. Participou ainda do livro Asgard: A Saga dos Nove Reinos, lançado
em 2011 pela Editora Jambô, com o conto Em
Transe. Atualmente representa a Seccional da Associação Internacional dos
Poetas Del Mundo de Minas Gerais. Também é Embaixador Universal da Paz pelo
Círculo de Embaixadores Universais da Paz Genebra/Suíça.
Todos os Dias de Ontem é antes de tudo, um grande livro, escrito por um autor
que tomou seu próprio rumo, pelo qual podemos considerá-lo uma das melhores
revelações do conto brasileiro neste novo século em que vivenciamos.
Contato: newdiato@hotmail.com
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
SAUDADES DE MARIA CLARA SEGÓBIA
Foto:
Rogério Salgado, Maria Clara Segóbia e Virgilene Araújo em Ouro
Preto, no 6º Belô Poético (julho de 2010). Foto Arquivo Belô
Poético
Já
se passou um mês sem a presença física de Maria Clara Segóbia
entre nós. Haja saudade pra suportar. Maria Clara era alegria,
doação, poesia em vida (e haja vida). Conheci Maria Clara Segóbia
em 2005, quando fomos eu e Virgilene ao Congresso Brasileiro de
Poesia, em Bento Gonçalves\RS. De cara, ficamos amigos e em 2006 ela
apareceu por essas bandas de cá, veio ao 2º Belô Poético –
Encontro Nacional de Poesia de Belo Horizonte, realizado por nós. A
partir daí, ela passou a ser figura constante todos os anos no Belô
Poético. Tivemos tantas histórias juntos por aqui, que nem sei...
Tenho muito orgulho de tê-la homenageado no 5º Belô Poético, em
2009, reconhecendo seus valores ainda em vida e olha que nem eu, nem
ninguém e nem mesmo ela sabíamos de sua doença. Este ano ela não
deu as caras por aqui e sentimos aquele vazio inexplicável. Aí Deus
resolveu levá-la para versejar lá no céu, ao lado de Márcio
Carvalho, Joanyr de Oliveira, Alécio Cunha e Júlio Emílio
Tentaterra, poetas que se fizeram presentes no Belô Poético.
Quando
recebi o convite para a missa de 7º dia de Maria Clara vi que seria
impossível ir, devido à distância entre Belo Horizonte e Porto
Alegre. Por coincidência era dia do meu aniversário. No mesmo
horário em que acontecia a missa, pedi que fizéssemos uma oração
para ela e li um poema que havia feito no dia anterior, o qual
transcrevo abaixo.
O
tempo pode seguir seu rumo, mas com certeza jamais esqueceremos dessa
pessoa que muito nos ensinou a viver e a amar.
Um
poema alegre
Para
Maria Clara Segóbia
Hoje
o dia amanheceu lindo
céu
aberto e até a lua
-
apesar da manhã –
mostra-se
branca, confundindo-se
com
as nuvens brancas
pessoas
caminham nas calçadas
cada
um com seu destino
talvez
alegres, talvez tristes
cada
um buscando ser feliz
e
eu só quero que o mundo tenha paz
imagino
que todos poderiam estar
dando-se
nós num abraço carinhoso
com
amor nos corações
e
que também pudessem observar
que
hoje o dia amanheceu lindo.
Eu
poderia estar aqui
escrevendo
um poema triste
e
confesso, estou sim
triste
pela sua ausência
mas
sua alegria e amor por viver
fez-me
ver tudo isso
na
beleza da vida.
Belo
Horizonte, 05\01\2013
Rogério
Salgado
sábado, 8 de dezembro de 2012
40 anos sem Torquato Neto
Pra mim, chega
(Para Torquato Neto)
O sol amarelando todos os dias
nos chuvosos dias dentro de mim
mostram o que poderia ter sido
se versos não ocupassem essa vida
esse sol e essa lua constante
que se apagam diariamente
naquilo que de mais existe
nas palavras escondidas
daquilo que ninguém sabe
do que se sabe sobre meu verso
um sorriso que não seria
um caminhar sem ter rumo
um doce amargo sem sumo
e sonhos desmoronados
nos castelos de areia
de uma praia qualquer
que não exista
o tempo não renasce
e nem retorna nos sonhos
daquilo que fomos e não somos mais
o desejo do que poderia ter sido
transforma o peito num vazio
feito um rio sem mágoas
um coração sem águas
e o ensejo do fim.
Daí, essa vontade de não estar aqui!
BH, 11 de novembro de 2012
Nunca me esqueci de Torquato Neto, um dos maiores e mais importantes letristas da nossa MPB. Lembro dele constantemente, mas dia 11 de novembro último esqueci que essa era a data comemorativa de 40 anos de sua morte. Isso me faz repensar o quanto somos idiotas em pensarmos que somos estrelas a brilhar no firmamento da arte. Um dia eu, por exemplo, irei embora para sempre e com o tempo as pessoas se esquecerão de mim. Mas a minha obra não, essa com certeza corre o risco de ser eternizada. Isso porque há muito tempo deixei de buscar os palcos, aplausos e fotos nos jornais, por achar tudo isso efêmero. Mas nunca deixei de consolidar minha obra, para que essa sim, pudesse sobreviver.
E já que me lembrei de Torquato Neto, vamos então ao que interessa:
Torquato Pereira de Araújo Neto, nasceu em Teresina em 09 de novembro de 1948. Um dia após o seu aniversário, ao completar 28 anos, na madrugada, o poeta piauiense suicida-se no banheiro, vítima de envenenamento com gás de cozinha. Torquato, sem demonstrar nenhuma aflição ou algum problema de nervosismo, conversa tranquilamente com sua mulher, até que esta, dizendo-se cansada vai dormir. O cheiro forte de gás incomoda e ela acorda e corre e vai ao banheiro onde encontra Torquato sem vida e a seu lado um bilhete em que dizia: "Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar". Thiago era o filho de dois anos de idade. Foi um dos nossos maiores letristas escrevendo versos para Caetano Veloso, Gilberto Gil e Edu Lobo. Alias, uma de suas últimas letras musicadas por Edu Lobo dava sinais de premonição. Seria “Pra Dizer Adeus”, em que diz: “Adeus\Vou pra não voltar\E onde quer que eu vá\Sei que vou sozinho\Tão sozinho amor\Nem é bom pensar\Que eu não volto mais\Desse meu caminho\Ah, pena eu não saber\Como te contar\Que o amor foi tanto\E no entanto eu queria dizer\Vem\Eu só sei dizer\Vem\Nem que seja só\Pra dizer adeus”
Torquato Manteve íntimo interesse pelo cinema marginal, atuando como ator e produzindo filmes. Flertara antes com o cinema novo, roteirizando e trabalhando na produção de "Barravento" (1962), filme de Glauber Rocha. Formou com Caetano Veloso e Gilberto Gil a santíssima trindade do tropicalismo. Toninho Vaz, na biografia de Torquato "Pra Mim Chega" (Casa Amarela, 2005), diz: "De todos os tropicalistas, Torquato era o menos conhecido. Sua importância para o movimento está numa razão inversa à sua popularidade, pois ele foi um tropicalista de primeira hora, junto com Caetano e Gil. Muito desse anonimato, entretanto, se deve a ele mesmo, que, como bem disse Augusto de Campos, deu as costas ao sol". Agora, o jornalista Kenard Kruel, também piauiense, lança edição revista e ampliada (das 622 páginas originais, a nova edição vai para 704, com mais textos e fotos) do livro "Torquato Neto ou A Carne Seca É Servida", que sai pela sua Zodíaco Editora.
Logo após a sua morte, Caetano foi a Teresina visitar os pais de Torquato e esse lhe presenteou com uma rosa, a qual Torquato sempre que ia lhe visitar, gostava de cuidar dessa flor. Foi aí a inspiração para a canção “Cajuína”; “Existimos\a que será que se destina?\pois quando tu\me deste a rosa pequenina\vi que eras um homem lindo\e se acaso a sina\do menino infeliz\a que nos ilumina\tão pouco turva-se a lágrima nordestina\apenas a matéria viva era tão fina\e éramos olharmo-nos intactos na retina\da cajuína cristalina em Teresina.”
É dele a letra de “Geléia Geral” e “Louvação”, com Gilberto Gil, “Marginalia II” e “Ai de mim, Copacabana” com Caetano Veloso, “Let's play that” com Jards Macalé e “Go Back” poema musicado postumamente por Sérgio Britto e gravado pelos Titãs. É de sua autoria as frases: "Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (…). Quem não se arrisca não pode berrar."
Torquato deixou material que foi reunido pela sua esposa Ana Maria Silva Duarte e o amigo Waly Salomão, no livro póstumo: “Os Últimos Dias de Paupéria” (Editora Pedra Q Ronca).
Abaixo, um poema de Torquato Neto.
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
(Para Torquato Neto)
O sol amarelando todos os dias
nos chuvosos dias dentro de mim
mostram o que poderia ter sido
se versos não ocupassem essa vida
esse sol e essa lua constante
que se apagam diariamente
naquilo que de mais existe
nas palavras escondidas
daquilo que ninguém sabe
do que se sabe sobre meu verso
um sorriso que não seria
um caminhar sem ter rumo
um doce amargo sem sumo
e sonhos desmoronados
nos castelos de areia
de uma praia qualquer
que não exista
o tempo não renasce
e nem retorna nos sonhos
daquilo que fomos e não somos mais
o desejo do que poderia ter sido
transforma o peito num vazio
feito um rio sem mágoas
um coração sem águas
e o ensejo do fim.
Daí, essa vontade de não estar aqui!
BH, 11 de novembro de 2012
Nunca me esqueci de Torquato Neto, um dos maiores e mais importantes letristas da nossa MPB. Lembro dele constantemente, mas dia 11 de novembro último esqueci que essa era a data comemorativa de 40 anos de sua morte. Isso me faz repensar o quanto somos idiotas em pensarmos que somos estrelas a brilhar no firmamento da arte. Um dia eu, por exemplo, irei embora para sempre e com o tempo as pessoas se esquecerão de mim. Mas a minha obra não, essa com certeza corre o risco de ser eternizada. Isso porque há muito tempo deixei de buscar os palcos, aplausos e fotos nos jornais, por achar tudo isso efêmero. Mas nunca deixei de consolidar minha obra, para que essa sim, pudesse sobreviver.
E já que me lembrei de Torquato Neto, vamos então ao que interessa:
Torquato Pereira de Araújo Neto, nasceu em Teresina em 09 de novembro de 1948. Um dia após o seu aniversário, ao completar 28 anos, na madrugada, o poeta piauiense suicida-se no banheiro, vítima de envenenamento com gás de cozinha. Torquato, sem demonstrar nenhuma aflição ou algum problema de nervosismo, conversa tranquilamente com sua mulher, até que esta, dizendo-se cansada vai dormir. O cheiro forte de gás incomoda e ela acorda e corre e vai ao banheiro onde encontra Torquato sem vida e a seu lado um bilhete em que dizia: "Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar". Thiago era o filho de dois anos de idade. Foi um dos nossos maiores letristas escrevendo versos para Caetano Veloso, Gilberto Gil e Edu Lobo. Alias, uma de suas últimas letras musicadas por Edu Lobo dava sinais de premonição. Seria “Pra Dizer Adeus”, em que diz: “Adeus\Vou pra não voltar\E onde quer que eu vá\Sei que vou sozinho\Tão sozinho amor\Nem é bom pensar\Que eu não volto mais\Desse meu caminho\Ah, pena eu não saber\Como te contar\Que o amor foi tanto\E no entanto eu queria dizer\Vem\Eu só sei dizer\Vem\Nem que seja só\Pra dizer adeus”
Torquato Manteve íntimo interesse pelo cinema marginal, atuando como ator e produzindo filmes. Flertara antes com o cinema novo, roteirizando e trabalhando na produção de "Barravento" (1962), filme de Glauber Rocha. Formou com Caetano Veloso e Gilberto Gil a santíssima trindade do tropicalismo. Toninho Vaz, na biografia de Torquato "Pra Mim Chega" (Casa Amarela, 2005), diz: "De todos os tropicalistas, Torquato era o menos conhecido. Sua importância para o movimento está numa razão inversa à sua popularidade, pois ele foi um tropicalista de primeira hora, junto com Caetano e Gil. Muito desse anonimato, entretanto, se deve a ele mesmo, que, como bem disse Augusto de Campos, deu as costas ao sol". Agora, o jornalista Kenard Kruel, também piauiense, lança edição revista e ampliada (das 622 páginas originais, a nova edição vai para 704, com mais textos e fotos) do livro "Torquato Neto ou A Carne Seca É Servida", que sai pela sua Zodíaco Editora.
Logo após a sua morte, Caetano foi a Teresina visitar os pais de Torquato e esse lhe presenteou com uma rosa, a qual Torquato sempre que ia lhe visitar, gostava de cuidar dessa flor. Foi aí a inspiração para a canção “Cajuína”; “Existimos\a que será que se destina?\pois quando tu\me deste a rosa pequenina\vi que eras um homem lindo\e se acaso a sina\do menino infeliz\a que nos ilumina\tão pouco turva-se a lágrima nordestina\apenas a matéria viva era tão fina\e éramos olharmo-nos intactos na retina\da cajuína cristalina em Teresina.”
É dele a letra de “Geléia Geral” e “Louvação”, com Gilberto Gil, “Marginalia II” e “Ai de mim, Copacabana” com Caetano Veloso, “Let's play that” com Jards Macalé e “Go Back” poema musicado postumamente por Sérgio Britto e gravado pelos Titãs. É de sua autoria as frases: "Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (…). Quem não se arrisca não pode berrar."
Torquato deixou material que foi reunido pela sua esposa Ana Maria Silva Duarte e o amigo Waly Salomão, no livro póstumo: “Os Últimos Dias de Paupéria” (Editora Pedra Q Ronca).
Abaixo, um poema de Torquato Neto.
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
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