sábado, 30 de março de 2013

TODOS OS DIAS DE ONTEM: DE NEWTON EMEDIATO FILHO


Quando em 2004 publicou seu livro de estreia Um carro de bois que transportava logos (Edição do Autor), apesar de ser uma grande obra, notava-se uma forte influência do escritor Guimarães Rosa em sua obra e isso é normal num primeiro livro. Agora nos chega às mãos Todos os dias de ontem (Usina de Livros), onde se percebe que seu autor desprendeu-se de influências e tomou seu próprio rumo, num livro muito bem escrito, aproximando-se da perfeição literária.
Neste seu segundo livro Todos os Dias de Ontem, Newton Emediato Filho reúne vinte contos inéditos da melhor qualidade. Sendo um projeto premiado pelo Programa + Cultura Bacia do Rio São Francisco/ FUNARTE e Ministério da Cultura, o trabalho coleta histórias de tradição oral contadas na região Centro-Sul de Minas: Alto do Paraopeba; levando em conta a alteridade.
Todos os Dias de Ontem fala de amor e é antes de tudo, um livro poético a começar pelo título, assim como em vários parágrafos do texto em si, como no encerramento do segundo conto, em que diz: “Lina nunca mais teve notícias de Luna. Estas são lembranças que evaporam-se no ar.” Nota-se as metáforas e imagens que só um grande escritor imaginarias para suas escritas. Aliás, é no fechamento dos contos que percebemos sempre uma surpresa e é quando o autor vai aos extremos de sua capacidade criadora, deixando-nos surpreendidos.  Neste livro, podemos sentir que seus personagens, mesmo matutos, tem muitas vezes poesia em seu linguajar, como no conto “Retumbação” onde o vaqueiro Sim fala para Salazarte: “- O amor é como uma primavera deve ser apreciada direito, senão o sujeito não vai aproveitar o mais bonito da vida.” Uma das características mais impressionantes do livro são justamente os diálogos bastante originais, assim como os nomes de seus personagens.
Segundo palavras do autor, ele sentiu-se motivado a escrever este livro quando esteve em contato com várias comunidades remanescentes, compostas por quilombos e fazendas tradicionais, onde interagiu com vários informantes que habitam estas regiões e ali realizou-se o que se chama na Antropologia de Observação Participante. Ao ouvir estas pessoas, registrou em forma de contos, histórias de tradição oral que são contadas por essa gente. Segundo ele, a relevância em divulgar estes relatos, é uma tentativa de conscientizar os leitores a refletir sobre a importância da preservação desta cultura regional que se fragiliza a medida que o avanço tecnológico se aproxima. Em contramão desta desvalorização que vem acontecendo, neste projeto há um resgate destas tradições, levando-as ao conhecimento do mundo. Juntamente à cultura local que se perde gradualmente, também a língua se acultura, assimilando palavras do universo exterior. O resgate deste linguajar sertanejo, não tem por intenção manter a língua estática, uma vez que compreende a dialética do mundo. Todavia, quer mostrar a resistência linguística que ainda sobrevive paralela a este conflito. Portanto, o maior dos motivos de um trabalho desta natureza é o respeito à alteridade, quando leva o leitor a perceber que a valorização da cultura do outro é imprescindível. Somente assim é possível amenizar o impacto cultural entre as diferentes regiões culturais do mundo.
O escritor e pesquisador Newton Emediato Filho, natural de Belo Vale, Minas Gerais. É autor de vários ensaios sobre a obra de João Guimarães Rosa e outros. Seu conto Um Papagaio Palimpséstico recebeu os prêmios: Projeto Manuelzão/UFMG e Menção Honrosa pela Editora Guemanisse, deTeresópolis/RJ. Também foi premiado no Concurso Guimarães Rosa com o conto O tempo de um livro na IV Jornada Guimarães Rosa/UFMG, organizada pela Associação Brasileira de Médicos Escritores. Participou ainda do livro Asgard: A Saga dos Nove Reinos, lançado em 2011 pela Editora Jambô, com o conto Em Transe. Atualmente representa a Seccional da Associação Internacional dos Poetas Del Mundo de Minas Gerais. Também é Embaixador Universal da Paz pelo Círculo de Embaixadores Universais da Paz Genebra/Suíça.
Todos os Dias de Ontem é antes de tudo, um grande livro, escrito por um autor que tomou seu próprio rumo, pelo qual podemos considerá-lo uma das melhores revelações do conto brasileiro neste novo século em que vivenciamos.


 

 




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

SAUDADES DE MARIA CLARA SEGÓBIA

Foto: Rogério Salgado, Maria Clara Segóbia e Virgilene Araújo em Ouro Preto, no 6º Belô Poético (julho de 2010). Foto Arquivo Belô Poético

Já se passou um mês sem a presença física de Maria Clara Segóbia entre nós. Haja saudade pra suportar. Maria Clara era alegria, doação, poesia em vida (e haja vida). Conheci Maria Clara Segóbia em 2005, quando fomos eu e Virgilene ao Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento Gonçalves\RS. De cara, ficamos amigos e em 2006 ela apareceu por essas bandas de cá, veio ao 2º Belô Poético – Encontro Nacional de Poesia de Belo Horizonte, realizado por nós. A partir daí, ela passou a ser figura constante todos os anos no Belô Poético. Tivemos tantas histórias juntos por aqui, que nem sei... Tenho muito orgulho de tê-la homenageado no 5º Belô Poético, em 2009, reconhecendo seus valores ainda em vida e olha que nem eu, nem ninguém e nem mesmo ela sabíamos de sua doença. Este ano ela não deu as caras por aqui e sentimos aquele vazio inexplicável. Aí Deus resolveu levá-la para versejar lá no céu, ao lado de Márcio Carvalho, Joanyr de Oliveira, Alécio Cunha e Júlio Emílio Tentaterra, poetas que se fizeram presentes no Belô Poético.
Quando recebi o convite para a missa de 7º dia de Maria Clara vi que seria impossível ir, devido à distância entre Belo Horizonte e Porto Alegre. Por coincidência era dia do meu aniversário. No mesmo horário em que acontecia a missa, pedi que fizéssemos uma oração para ela e li um poema que havia feito no dia anterior, o qual transcrevo abaixo.
O tempo pode seguir seu rumo, mas com certeza jamais esqueceremos dessa pessoa que muito nos ensinou a viver e a amar.

Um poema alegre

Para Maria Clara Segóbia

Hoje o dia amanheceu lindo
céu aberto e até a lua
- apesar da manhã –
mostra-se branca, confundindo-se
com as nuvens brancas

pessoas caminham nas calçadas
cada um com seu destino
talvez alegres, talvez tristes
cada um buscando ser feliz
e eu só quero que o mundo tenha paz

imagino que todos poderiam estar
dando-se nós num abraço carinhoso
com amor nos corações
e que também pudessem observar
que hoje o dia amanheceu lindo.

Eu poderia estar aqui
escrevendo um poema triste
e confesso, estou sim
triste pela sua ausência
mas sua alegria e amor por viver
fez-me ver tudo isso
na beleza da vida.

Belo Horizonte, 05\01\2013

Rogério Salgado


sábado, 8 de dezembro de 2012

40 anos sem Torquato Neto

Pra mim, chega



(Para Torquato Neto)



O sol amarelando todos os dias

nos chuvosos dias dentro de mim

mostram o que poderia ter sido

se versos não ocupassem essa vida

esse sol e essa lua constante

que se apagam diariamente

naquilo que de mais existe

nas palavras escondidas

daquilo que ninguém sabe

do que se sabe sobre meu verso



um sorriso que não seria

um caminhar sem ter rumo

um doce amargo sem sumo

e sonhos desmoronados

nos castelos de areia

de uma praia qualquer

que não exista



o tempo não renasce

e nem retorna nos sonhos

daquilo que fomos e não somos mais



o desejo do que poderia ter sido

transforma o peito num vazio

feito um rio sem mágoas

um coração sem águas

e o ensejo do fim.



Daí, essa vontade de não estar aqui!



BH, 11 de novembro de 2012



Nunca me esqueci de Torquato Neto, um dos maiores e mais importantes letristas da nossa MPB. Lembro dele constantemente, mas dia 11 de novembro último esqueci que essa era a data comemorativa de 40 anos de sua morte. Isso me faz repensar o quanto somos idiotas em pensarmos que somos estrelas a brilhar no firmamento da arte. Um dia eu, por exemplo, irei embora para sempre e com o tempo as pessoas se esquecerão de mim. Mas a minha obra não, essa com certeza corre o risco de ser eternizada. Isso porque há muito tempo deixei de buscar os palcos, aplausos e fotos nos jornais, por achar tudo isso efêmero. Mas nunca deixei de consolidar minha obra, para que essa sim, pudesse sobreviver.

E já que me lembrei de Torquato Neto, vamos então ao que interessa:

Torquato Pereira de Araújo Neto, nasceu em Teresina em 09 de novembro de 1948. Um dia após o seu aniversário, ao completar 28 anos, na madrugada, o poeta piauiense suicida-se no banheiro, vítima de envenenamento com gás de cozinha. Torquato, sem demonstrar nenhuma aflição ou algum problema de nervosismo, conversa tranquilamente com sua mulher, até que esta, dizendo-se cansada vai dormir. O cheiro forte de gás incomoda e ela acorda e corre e vai ao banheiro onde encontra Torquato sem vida e a seu lado um bilhete em que dizia: "Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar". Thiago era o filho de dois anos de idade. Foi um dos nossos maiores letristas escrevendo versos para Caetano Veloso, Gilberto Gil e Edu Lobo. Alias, uma de suas últimas letras musicadas por Edu Lobo dava sinais de premonição. Seria “Pra Dizer Adeus”, em que diz: “Adeus\Vou pra não voltar\E onde quer que eu vá\Sei que vou sozinho\Tão sozinho amor\Nem é bom pensar\Que eu não volto mais\Desse meu caminho\Ah, pena eu não saber\Como te contar\Que o amor foi tanto\E no entanto eu queria dizer\Vem\Eu só sei dizer\Vem\Nem que seja só\Pra dizer adeus”

Torquato Manteve íntimo interesse pelo cinema marginal, atuando como ator e produzindo filmes. Flertara antes com o cinema novo, roteirizando e trabalhando na produção de "Barravento" (1962), filme de Glauber Rocha. Formou com Caetano Veloso e Gilberto Gil a santíssima trindade do tropicalismo. Toninho Vaz, na biografia de Torquato "Pra Mim Chega" (Casa Amarela, 2005), diz: "De todos os tropicalistas, Torquato era o menos conhecido. Sua importância para o movimento está numa razão inversa à sua popularidade, pois ele foi um tropicalista de primeira hora, junto com Caetano e Gil. Muito desse anonimato, entretanto, se deve a ele mesmo, que, como bem disse Augusto de Campos, deu as costas ao sol". Agora, o jornalista Kenard Kruel, também piauiense, lança edição revista e ampliada (das 622 páginas originais, a nova edição vai para 704, com mais textos e fotos) do livro "Torquato Neto ou A Carne Seca É Servida", que sai pela sua Zodíaco Editora.

Logo após a sua morte, Caetano foi a Teresina visitar os pais de Torquato e esse lhe presenteou com uma rosa, a qual Torquato sempre que ia lhe visitar, gostava de cuidar dessa flor. Foi aí a inspiração para a canção “Cajuína”; “Existimos\a que será que se destina?\pois quando tu\me deste a rosa pequenina\vi que eras um homem lindo\e se acaso a sina\do menino infeliz\a que nos ilumina\tão pouco turva-se a lágrima nordestina\apenas a matéria viva era tão fina\e éramos olharmo-nos intactos na retina\da cajuína cristalina em Teresina.”

É dele a letra de “Geléia Geral” e “Louvação”, com Gilberto Gil, “Marginalia II” e “Ai de mim, Copacabana” com Caetano Veloso, “Let's play that” com Jards Macalé e “Go Back” poema musicado postumamente por Sérgio Britto e gravado pelos Titãs. É de sua autoria as frases: "Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (…). Quem não se arrisca não pode berrar."

Torquato deixou material que foi reunido pela sua esposa Ana Maria Silva Duarte e o amigo Waly Salomão, no livro póstumo: “Os Últimos Dias de Paupéria” (Editora Pedra Q Ronca).

Abaixo, um poema de Torquato Neto.





Cogito





eu sou como eu sou

pronome

pessoal intransferível

do homem que iniciei

na medida do impossível



eu sou como eu sou

agora

sem grandes segredos dantes

sem novos secretos dentes

nesta hora



eu sou como eu sou

presente

desferrolhado indecente

feito um pedaço de mim



eu sou como eu sou

vidente

e vivo tranquilamente

todas as horas do fim.





segunda-feira, 8 de outubro de 2012

AINDA MENINO


Estando na Semana da Criança, deixo aqui cinco poemas extraídos de meu livro “Ainda Menino”, (Belô Poético-2002-edição esgotada). Este é um dos livros que mais gostei de ter publicado, justamente porque ao me propor voltar a minha infância, a poesia me procurou com naturalidade, as imagens de minha infância surgiram como numa volta ao tempo e o resto, é apenas um livro publicado.

Também deixo aqui duas fotos: eu com sete anos de idade, próximo a fazer a primeira comunhão e eu aos dezoito anos, ao lado de minha mãe, a pianista Glória Salgado.

 


AINDA MENINO

 

Ainda menino

acreditada ser o céu

um toldo circense

e a lua à noite

o abajur que iluminava

este mundo que era lindo.

 

As estrelas eram enfeites

que cobriam meus sonhos infantis

pirilampos talvez, vaga-lumes.

A matemática não passava

de duas mais duas bolinhas de gude

e a bandeira não era nacional

nada mais era do que

galhos de plantas secas

numa brincadeira de pique.

 

Eu era feliz na inocência

porque era ainda menino.

 

A barba hoje marca esse rosto

os cabelos enevaram-se

e os olhos lacrimejaram

e o que era ainda menino

amadureceu na rudeza da vida.

 

Hoje não sou lá assim

tão feliz

deixei de sonhar feito criança

para ser homem adulto

que apesar dos açoites cotidianos

não deixará de ser jamais

ainda menino.

 

 

INFÂNCIA

 

Quando garoto

Em todos os natais, Irene

- babá da minha infância –

presenteava-me com um cartão

bem bonito.

 

E os meses se passavam

um, dois, três... doze

e este menino aguardava ansioso

pelo melhor presente

que nada mais era

que meras palavras escritas

pela minha babá, Irene.

 

Havia o ano novo

dia de aniversário

dia das crianças

mas nenhum dia era assim

tão esperado

como o dia de Natal.

 

Irene não escrevera

naquele ano.

Dias depois soube

Que Irene falecera

Por causa d`uma diabete.

Bem que eu dissera:

Como era doce a minha Irene!

 

 

NO TEMPO DO TEMPO DO TEMPO...

 

Houve um tempo

em que ouvia

Ave Maria.

Minha mãe ao piano

seus dedos leves

de fada

percorriam teclas

como quem percorre caminhos

- Naquele tempo eu era feliz

pois tinha dentro de casa

a melhor orquestra do mundo.

 

Hoje

ao som de um toca-discos

ouço a mesma canção

que me parece estranha

sem graça

sem ritmo...

Não ouço mais...

não mais permito que desentoem

meus sentimentos de criança!

 

 

 

FOTOGRAFIA NA PAREDE

 

Dolorido é saber

que as lembranças voltam:

o tempo não!

 

 

AINDA, MENINO

(TENTATIVA DE COMPOR UM HAI CAI)

 

Cresci, sim

mas a infância esqueceu
 
                                                          de crescer dentro de mim.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Caso Igor Xavier*



Dez
anos de impunidade e descaso das autoridades

Dez anos depois, os assassinos confessos do
bailarino Igor Xavier – o fazendeiro Ricardo Athayde e seu filho Diego
Rodrigues Athayde – continuam soltos. A impunidade revolta familiares e
população de Montes Claros. (...)
Igor, de 29 anos, foi assassinado de forma
covarde e cruel no dia 1º de março de 2002 com cinco tiros. Os primeiros
disparos foram feitos pelo filho, depois de chegar ao apartamento do pai e
surpreendê-lo na companhia do bailarino. Demonstrando frieza e premeditação,
eles executaram a vítima com mais dois tiros na cabeça. Em seguida abandonaram
o corpo em uma estrada entre Montes Claros e São João da Vereda. Os assassinos
são de família tradicional e de políticos influentes.
Ricardo Athayde é irmão do ex-secretário
adjunto estadual da Fazenda e subsecretário de Assuntos Internacionais da
Secretaria de Desenvolvimento do . Estado de Minas Gerais, Luiz Antônio
Athayde. Eles também tiveram proteção do prefeito de Montes Claros na época,
Jairo Athayde, de quem Ricardo é primo. Além disso, os assassinos têm para
defendê-los uma bancada dos mais famosos advogados do país, entre eles o
secretário de Estado de Defesa Social, Maurício Campos Júnior. O que mais
revolta a opinião pública, especialmente à mãe de Igor, Marlene Xavier, é o
fato de Igor Xavier ter sido morto devido à sua orientação sexual. O próprio
Ricardo Athayde declarou, em depoimento à policia, que odeia homossexual. (...)
O brutal assassinato mobilizou a cidade e teve
repercussão internacional. O poeta e agitador cultural Aroldo Pereira lembra
que no primeiro momento foi realizada uma grande manifestação saindo da Praça
da Matriz em direção ao Forum. O sociólogo João Batista de Almeida Costa, o
Joba, esteve com Igor uma hora antes de ele ser assassinado. “Igor Xavier era um excelente ator,
bailarino e um coreógrafo promissor.” Relata. Os assassinos puseram fim à
vida de alguém que sempre se preocupou com questões sociais e com a difusão dos
bens culturais. Igor Xavier era um artista tão comprometido com a população da
dança na cidade que se apresentava gratuitamente em qualquer lugar – ônibus,
paradas de coletivos, supermercados, praças de bairros, faculdades, escolas,
ruas, cadeia pública e muitos outros.
Após o bárbaro assassinato, várias ações
tomaram conta das ruas e do cenário cultural de Montes Claros. No sétimo dia,
por exemplo, quase 30 mil pessoas fizeram manifestação de repúdio, a maior da
história de Montes Claros. Como prova do envolvimento da sociedade em prol de
justiça, vários publicitários cederam e fizeram gratuitamente outdoors que
manifestavam opiniões sobre o acontecido. Em um deles, vinha a inscrição: “Que a justiça não se enlameie com o poder
da família dos assassinos de Igor Xavier. Não à impunidade.”

Decisão de Juiz protege os assassinos
O brutal
crime fez ecoar o grito de justiça por toda Montes Claros, Minas Gerais, Brasil
e pelo mundo afora. Só não foi ouvido pela justiça, que por causa do poderio
econômico e político dos assassinos, não se move. É cúmplice na tentativa de
defesa de fazer o tempo correr para que o crime prescreva. O julgamento foi
marcado várias vezes e adiado. No dia 20 de setembro de 2011, o desembargador
Reinaldo Porta Nova bateu o martelo, acatando pedido da defesa dos assassinos
de Igor Xavier, mediante representação do Tribunal do Júri e da Vara de Execuções Penais
de Montes Claros, Antonio de Souza Rosa. Num ato de extrema benevolência, o
magistrado pediu o desaforamento do processo para a capital mineira, alegando
que a mãe da vítima, Marlene Xavier, é uma ameaça à integridade física de
Ricardo e Diego Athayde. Ao interpretar que a mãe e o clamor popular poderiam
influenciar os jurados caso o julgamento fosse realizado em Montes Claros, o juiz
inverteu os fatos, transformando Ricardo e Diego em vítimas que precisam ser
protegidas. Para piorar, não há data estipulada para o júri.
“Que poder diabólico é esse que eu não sabia que
tinha? Até hoje
eu pensava que só sabia amar. É por amor que choro a morte do meu filho.” desabafa Marlene Xavier. “Não tenho como levar meus amigos a Belo
Horizonte, mas tenho certeza que aquele tribunal estará tão cheio de anjos que
mal haverá lugar para os que serão obrigados a comparecer.” disse. Para os amigos, desde o inicio a
justiça tem se omitido sobre o caso.
“A vizinha ouviu os tiros por volta das 2 horas e
ligou para a polícia, mas ninguém apareceu. Só depois das 6 horas da manhã
chegou uma viatura. Nesse momento nós já sentimos a influência política.”, desconfia Aroldo Pereira.
Para a
mãe, está ocorrendo uma infâmia. “Desde o
inicio o caso foi tratado com grande descaso pelos poderes públicos. Não sei se
chegarei a ver a solução desse caso, mas gostaria de viver até conhecer um juiz
que fosse idôneo e corajoso o bastante para enfrentar essa corja, fazendo valer
o óbvio e não dinheiro e poder.” diz,
indignada.

*(Extraido
do jornal “Daqui”, de Montes Claros – Ano IV – nº 20 - 20 de fevereiro a 05 de março)

Na noite
do dia 29 de fevereiro, um dia antes de se completar 10 anos do brutal
assassinato, artistas do Norte de Minas e de belo Horizonte se reuniram no
teatro da Assembléia Legislativa em um ato por justiça, por Igor Xavier.
Participaram do espetáculo “Arte Contra a Impunidade – Tributo ao Bailarino
Igor Xavier” os artistas Helena Soares, Jovino machado, Aroldo Pereira, Simone
Xavier, Patrícia Giseli, Carlos Farias, Geovanni Sassá, Makely Ka, Gilberto de
Abreu, Wilmar Silva, Márcio Levy, Wagner Torres, José Edward Lima, Pablo Leite,
Rogério Salgado, Brenda Marques, Wellington Kalil, Ênio Poeta, Bianca Luar, Yan
Guedes, Rosa Helena, Anelito de Oliveira e Diego Kartz.
Veja
fotos tiradas pela jornalista Brenda Marques Pena, presidente do Instituto Imersão
Latina, que também participou do espetáculo, em: HTTP://imersaolatina.ning.com

MEU
CARINHO E RESPEITO A ESTA MULHER, SÍMBOLO DE RESISTÊNCIA E LUTA POR
JUSTIÇA, MARLENE XAVIER, PELO DIA 08 de
MARÇO, DIA INTERNACIONAL DA MULHER.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Saudades de Zanoto

Zanoto no 1º Belô Poético, em 2005 – Foto: Ivan Domingues


Dia 21 de janeiro faz exatamente um ano que perdemos o maior divulgador de poetas que este país já teve. Neste dia em 2011 falecia o conhecido colunista literário José de Souza Pinto, mais conhecido como Zanoto. Ele foi uma pessoa que marcou sua passagem por este mundo. Nasceu em Varginha, filho do português Antônio de Souza Pinto, um dos três irmãos que fundaram o Armazém Souza & Pinto Ltda. e assumiram o Hotel Megda (Hotel Maduro), em frente a estação ferroviária, quando aquela região era o centro econômico-financeiro de Varginha.Zanoto era apaixonado pela literatura. Durante cerca de 42 anos escreveu a coluna “Diversos Caminhos”, no Jornal Correio do Sul. Presidente de honra vitalício da Academia Varginhense de Letras, Artes e Ciências (AVLAC). Colaborava com veículos literários de vários estados e países. Recebeu comendas e homenagens pelos textos que redigia e pela saudável teimosia em publicar, diariamente, uma coluna literária. Participou como jurado do Festival de Poesia Falada de Varginha em 2007 e 2009. No primeiro ano recebeu "homenagem" especial pelos 40 anos dedicados a literatura brasileira através do empreendedor do projeto Tadeu Terra e dos produtores e colunistas sociais/culturais Marcos Misael e Lindon Lopes.Tinha outro hábito saudável, de caminhar tranquilamente pelas ruas da cidade, onde buscava inspiração para seus textos. Me disse, uma vez, que levava os textos, datilografados, a pé até o jornal.Zanoto era fã de Fernando Pessoa. Um apaixonado pela palavra (“Ela é mulher”, dizia).Gostava de literatura, música, um bom vinho.
Em 2010, no meu livro “Poemas” (Belô Poético) publiquei um poema dedicado para este amigo que eu tinha a mais de 18 anos e no dia 20 de agosto de 2010 ele publicou em sua coluna “Diversos Caminhos” um poema dedicado a mim. Reproduzo abaixo os dois poemas e deixo aqui registrado minha saudade.

Jardim Amor

Para Zanoto

Uma cena cinematográfica
faz-se raiz
entre um cinemascope
e uma cena @

um filme de Neville d’Almeida
diz-me que plantar sementes
seria criar um jardim
no coração de quem amo.


(Rogério Salgado)


A lua

(Para o poeta Rogério Salgado, em Belo Horizonte)

Não... A lua não era
um tesouro.
Riscava no espaço azulado
o meu destino.

Eu tinha fome
de risos e
alegria.
Mas perdi-me no
fascínio do mundo.

(Zanoto)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

WOODSTOCK: UM TEMPO DE AMOR, PAZ E DITADURA



Agosto de 1969, dias 15, 16 e 17 de agosto, exatamente há 42 anos e 2 meses atrás acontecia o maior festival de rock que toda a história pôde registrar. O mundo vivia uma grande revolução cultural na época: jovens se uniam e lutavam por seus direitos. No Brasil exigiam o fim de uma ditadura militar já de cinco anos, nos Estados Unidos da América, o fim da Guerra do Vietnã. O movimento hippie ganhava forças com o lema “Faça amor, não faça a guerra”. As mulheres estavam mais liberadas do que nunca, felizes com a invenção da pílula anticoncepcional. Era tempo de questionar e experimentar. Vários artistas faziam apologia à viagem através de alucinógenos: Beatles, Rolling Stones, The Doors, Jimi Hendrix. O que queriam era apenas paz. Foram três dias de liberdade, amor e muita música. Mais de 30 grupos reunidos numa fazenda de Bethel, condado de Sullivan, New York. Jovens de todos os lugares rumaram para aquele local. A quantidade de carros foi assustadora, interrompendo a via expressa, causando um dos maiores congestionamentos da nação. Cerca de 450.000 pessoas rumaram a Woodstock. Nunca se poderia imaginar que tantos jovens pudessem estar ali. Queriam provar, antes de tudo, que os jovens não precisavam de polícia ou repressão, pois queriam apenas paz e amor. Do palco anunciavam: “Não tomem o ácido marrom (...) não é veneno, é só uma viagem ruim (...) se quiserem experimentar, tomem só a metade.” Os jovens conviviam pacificamente e aprendiam a tudo compartilhar.
A música ficou por conta dos astros Ario Guthrie, Bert Sommem, Bood-Sweet & Tears, Creedence Clearwater Revival, Crosby-Stills & Nash, David Clayton Thomas, Incredible String Band, Iron Buttefly, Jack Harrison, Jefferson Airplane, Jimi Hendrix, Joan Baez, Joe Cocker, Johnny Winter, Melaine Mountain, Ravi Shankar, Richie Havens, Santana, Sha na na, Ten Years Affter e The Who, entre outros. Era impossível chegar de carro ao local do show, por isso a produção teve que se desdobrar para conseguir helicóptero para trazer os artistas. Richie Havens foi escolhido para abrir o festival, pois era o músico mais sóbrio no momento. Richie tocou por quase três horas. Logo após, Chip Monck, mestre de cerimônias pegou Country Joe McDonald, amarrou um violão acústico nele e o empurrou para o palco. McDonald apenas agüentou tocar duas músicas. Depois Monck localizou John Sebastian. Ele nem mesmo tinha sido convidado para participar, mas acabou tocando. A performance de Sebastian era quase uma paródia de conversa hippie, por causa do seu estado psicodélico. Segundo testemunhas, Jimi Hendrix foi levado ao ambulatório médico montado na fazenda, por excesso de drogas. Hendrix foi então, o último a tocar, na manhã de segunda-feira, incendiando a platéia exausta com uma versão “muito louca” do hino nacional americano.
Woodstock acabou deixando para trás uma montanha de lixo, processos e prejuízos. Era na era de aquário. Jimi Hendrix morreu em conseqüência do uso de drogas no dia 18 de setembro de 1970, um ano e um mês exato do final de Woodstock. Janis Joplin também se foi. Jim Morrison, vocalista do The Doors foi logo em seguida, enquanto John Lennon anunciava que “o sonho acabou”.
E assim se conta essa história. Enquanto o governo americano levava jovens a morte prematura numa estúpida Guerra do Vietnã, jovens deixavam o cabelo crescer e protestavam tudo isso. No Brasil, a juventude fumava um baseado discutindo como acabar com a miséria e a hipocrisia brasileira. Homens de fardas tomavam chá com torradas e assassinavam idealistas nos porões do DOI_CODI. Hoje se olha para trás e se vê que a justiça estava naqueles jovens de cabelos longos e a responsabilidade por um mundo melhor nunca foi o objetivo daqueles homens que usavam estrelas no peito.