Hoje publico uma crônica do
meu amigo e escritor Adilson Júnior Pilotto, crônica esta que merece ser lida
por todos e que todos façam uma reflexão sobre a verdade contida nas suas
palavras.
Benito tinha uma
família exemplar. Ele provia a casa com seu trabalho como empresário.
Sustentava a mulher, Júlia, e os filhos, Adolfo e Caroline. Era uma linda
família que ia à igreja todos os sábados à noite; oravam juntos e tinham um
respaldo muito grande perante a sociedade. Todos os tinham como um exemplo para
toda a cidade. Era lindo ver aquele pai protetor que bancava todas as contas, a
mãe zelosa que esperava o marido com o jantar todas as noites quando ele
voltava do trabalho e aqueles dois filhos supereducados que sempre obedeciam às
ordens dos pais. Enfim, eram o modelo de família voltada ao cristianismo e ao
tradicionalismo.
Claro, algumas coisas
precisavam ser maquiadas e ignoradas. Tudo bem que Benito tinha uma amante e um
filho fora do casamento que ele não registrou para não ter problemas com a
empresa (e também vamos fingir que ele não ameaçou a moça para não colocá-lo na
justiça). Ainda vale esquecer que o pai bondoso e provedor, vira e mexe,
chegava estressado do serviço e descontava a raiva na esposa e nos filhos (com
palavras ou pancadas). Afinal, por que vamos ficar pensando em coisas ruins
quando podemos olhar aquele pai cristão e protetor?
Ainda vale
esquecer que Júlia era dependente, não podia sair do casamento nem denunciar
(afinal, o marido tinha boas relações com a polícia e ninguém ia acreditar
nela). Não tinha para onde correr e precisava aguentar os "chifres"
para não sair sem absolutamente nada e passar fome com os filhos — e ainda ser
julgada por toda uma sociedade, pois teria largado o maior "partidão"
da redondeza.
Ainda vale jogar
para baixo do tapete que Adolfo tinha TDAH e só obedecia na base da pancada
(terapia e remédios são desnecessários, e tudo se resolve no laço) e que
Caroline não se enquadrava nos padrões heteronormativos, fazendo com que toda a
repressão causada pela religião acarretasse em uma profunda depressão; por
isso, era quieta e obediente.
Mas, claro, não
vamos nos ater a detalhes tão fúteis. O importante é a família ir para a igreja
aos sábados à noite, momento em que muitos vão para festas profanas beber e
fazer coisas erradas. A família de Benito era linda e, se a gente ignorar uma
meia dúzia de coisas banais, não tem melhor. É o modelo a ser seguido por todos
e todas.
*Adilson
Júnior Pilotto, nascido em 1990, em Viadutos, Rio Grande do Sul, Adilson Junior
Pilotto é graduado em Filosofia pela Universidade Federal da Fronteira Sul
(UFFS). Atualmente, trabalha como auxiliar de disciplina na Escola Municipal
Luiz Badalotti, em Erechim (RS). Apaixonado por temas sociais, políticos e
musicais, Adilson também gosta de futebol, viagens e boa conversa. Em 2025,
participou das antologias poéticas “Poemas Letras Amigas” e “Viva Poesia 2025”.
Além disso, cultiva o hábito do colecionismo, reunindo, por exemplo, itens
relacionados à música, à cultura geek, ou ainda ligados à História, como moedas
e selos, refletindo sua curiosidade e busca por conhecimento.
adilsonpilotto@gmail

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