sexta-feira, 13 de março de 2026

UMA FAMÍLIA EXEMPLAR (PERO, NO MUCHO)*

Hoje publico uma crônica do meu amigo e escritor Adilson Júnior Pilotto, crônica esta que merece ser lida por todos e que todos façam uma reflexão sobre a verdade contida nas suas palavras.

 

 

Benito tinha uma família exemplar. Ele provia a casa com seu trabalho como empresário. Sustentava a mulher, Júlia, e os filhos, Adolfo e Caroline. Era uma linda família que ia à igreja todos os sábados à noite; oravam juntos e tinham um respaldo muito grande perante a sociedade. Todos os tinham como um exemplo para toda a cidade. Era lindo ver aquele pai protetor que bancava todas as contas, a mãe zelosa que esperava o marido com o jantar todas as noites quando ele voltava do trabalho e aqueles dois filhos supereducados que sempre obedeciam às ordens dos pais. Enfim, eram o modelo de família voltada ao cristianismo e ao tradicionalismo.

Claro, algumas coisas precisavam ser maquiadas e ignoradas. Tudo bem que Benito tinha uma amante e um filho fora do casamento que ele não registrou para não ter problemas com a empresa (e também vamos fingir que ele não ameaçou a moça para não colocá-lo na justiça). Ainda vale esquecer que o pai bondoso e provedor, vira e mexe, chegava estressado do serviço e descontava a raiva na esposa e nos filhos (com palavras ou pancadas). Afinal, por que vamos ficar pensando em coisas ruins quando podemos olhar aquele pai cristão e protetor?

Ainda vale esquecer que Júlia era dependente, não podia sair do casamento nem denunciar (afinal, o marido tinha boas relações com a polícia e ninguém ia acreditar nela). Não tinha para onde correr e precisava aguentar os "chifres" para não sair sem absolutamente nada e passar fome com os filhos — e ainda ser julgada por toda uma sociedade, pois teria largado o maior "partidão" da redondeza.

Ainda vale jogar para baixo do tapete que Adolfo tinha TDAH e só obedecia na base da pancada (terapia e remédios são desnecessários, e tudo se resolve no laço) e que Caroline não se enquadrava nos padrões heteronormativos, fazendo com que toda a repressão causada pela religião acarretasse em uma profunda depressão; por isso, era quieta e obediente.

Mas, claro, não vamos nos ater a detalhes tão fúteis. O importante é a família ir para a igreja aos sábados à noite, momento em que muitos vão para festas profanas beber e fazer coisas erradas. A família de Benito era linda e, se a gente ignorar uma meia dúzia de coisas banais, não tem melhor. É o modelo a ser seguido por todos e todas.

 

*Adilson Júnior Pilotto, nascido em 1990, em Viadutos, Rio Grande do Sul, Adilson Junior Pilotto é graduado em Filosofia pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Atualmente, trabalha como auxiliar de disciplina na Escola Municipal Luiz Badalotti, em Erechim (RS). Apaixonado por temas sociais, políticos e musicais, Adilson também gosta de futebol, viagens e boa conversa. Em 2025, participou das antologias poéticas “Poemas Letras Amigas” e “Viva Poesia 2025”. Além disso, cultiva o hábito do colecionismo, reunindo, por exemplo, itens relacionados à música, à cultura geek, ou ainda ligados à História, como moedas e selos, refletindo sua curiosidade e busca por conhecimento.

adilsonpilotto@gmail

 

 

 

 

 

 


 

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