segunda-feira, 15 de junho de 2026

“...E QUANDO TUDO DESAPARECER...”: EMOÇÃO À FLOR DA PELE NOS PALCOS BELORIZONTINOS

 



Por Rogério Salgado


O jornalista, letrista e poeta Raphael Vidigal Aroeira estréia na dramaturgia com o pé direito. Autor de “... quando tudo desaparecer...” nos mostra um trabalho cênico altamente poético, desses que seguram a platéia cada segundo do espetáculo, com a densidade emocional de cada personagem a nos envolver segundo a segundo do espetáculo. O texto em si fala do tempo que se esvai e a dor da perda em cada um de nós, humanos. Aqui, uma mãe precisa conviver com a ausência da filha e um amor que ficou pedaços perdidos na vida e a angústia do que poderia ter sido e não foi. Cada personagem convive com suas dúvidas e incertezas e a busca por respostas que talvez nunca sejam adquiridas.

Segundo o autor, a idéia inicial veio quando ao perder uma amiga ainda muito jovem. “Ela tinha 20 anos e eu 22. Tempos depois, perdi outro amigo também jovem, com apenas 27 anos”, relembra. Lidar com a morte tão de perto provocou-lhe um processo de angústia, reflexão e elaboração profundas, que desembocaram na dramaturgia do espetáculo. “Tenho uma forma de escrever naturalmente poética, fragmentária, opaca, e foi ao juntar fragmentos de ideias, anotações de sonhos e epifanias que construí o enredo que veremos em cena, com a ajuda fundamental dos atores nesse processo”.

Inicialmente, Vidigal tinha criado um roteiro para cinema, mas a paixão que o jornalista nutre pelo teatro desde a infância fez com que direcionasse o texto para os palcos. “Na adolescência, eu dirigia peças de teatro na escola. Também tive uma tia artista, que era pintora, poeta, compositora, e foi muito importante na minha formação afetiva e intelectual, a Maria Inês Aroeira, que me presenteou com uma coleção de todos os clássicos do teatro da editora Abril. A leitura desses textos me motivou a adaptar o roteiro de cinema e experimentar essa arte que precisa do instante vivo e instável para acontecer, o que me soava ainda mais sedutor em tempos dispersivos como os de agora”.

“... quando tudo desaparecer...” tem direção de Gabriela Luque, trilha sonora assinada por Ed Nasque, figurinos e cenografia por conta de Alê Tavera e iluminação de Gabriel Corrêa. As projeções são de Felipe Canêdo. E vem com um elenco de primeira linha: Gláucia Vandeveld é atriz, diretora e professora de teatro, integra a Zula Cia de Teatro e tem entre seus trabalhos os espetáculos “Banho de Sol” e “CASA”. É a diretora do renomado “Às que aqui ficaram” da Tríade Cia. De Teatro. No cinema participa, entre outros trabalhos, do elenco de filmes premiados como “Levante” de Lillah Halla; “No Coração do Mundo“ de Gabriel Martins e Maurílio Martins; e “Arábia” de Affonso Uchôa e João Dumans. Também esteve em peças do Espanca!. Cláudio Dias é ator, diretor e membro-fundador da Cia. de Teatro Luna Lunera, formado em História pela UFMG, com formação em Artes Cênicas pelo Palácio das Artes/Cefart, e construiu uma sólida carreira no teatro, marcada por atuações em peças como “Fazer festa com o perigo: Cintura Fina” (2024), “Auto da Compadecida: A Ópera” (2022), “E ainda assim se levantar” (2019), “Perdoa-me por me traíres” (2000) e “Antígona” (1995). Além disso, co-dirigiu e atuou nos aclamados espetáculos “Aqueles Dois” (2007) e “Prazer” (2013). Adyr Assumpção é ator, diretor, dramaturgo e produtor, adaptou e dirigiu recentemente o “Sortilégio”, de Abdias Nascimento, e esteve em turnê nacional com o espetáculo “Leão Rosário”, uma adaptação sua do “Rei Lear”, de Shakespeare. No cinema, pode ser visto nos recentes filmes “O Silêncio das Ostras”, de Marcos Pimentel, e em “O Coro do Te-ato”, de Stella Penido, que remonta aos primeiros anos da trupe do Teatro Oficina de Zé Celso Martinez Corrêa. Graduado em Teatro pela UFMG e Mestre em Artes pela Unicamp, também é idealizador do festival de cinema “Imagem dos Povos”, voltado a produções indígenas e da diáspora negra. Camila Felix é atriz, bailarina e coreógrafa, formada em Teatro pela UFMG, foi dançarina do Grupo Primeiro Ato e integrou, em 2023, o elenco da premiada versão do Grupo Oficcina Multimédia para “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues. Também atuou nos espetáculos “Colóquio Sentimental”, “EuLírico: Mulher”, “A Contribuição Milionário de Todos os Erros”, “Estrela ou Escombros da Babilônia”, dentre outros. No cinema, protagonizou “Anita Garibaldi: Visões e fragmentos de Vida”, de Gianluca Barbadori.

“... quando tudo desaparecer...” foi, sem sombra de dúvidas o melhor espetáculo que pude assistir neste primeiro semestre de 2026. Direção impecável, elenco envolvido até a alma de cada personagem que desfila pelo palco, trilha sonora perfeita com a proposta de cada movimento. Resumindo, um trabalho impecável em seu todo.

A peça teve estréia dia 4 de junho na capital mineira no Teatro João Ceschiatti, no Palácio das Artes, dentro da programação do projeto “Palácio Todo Dia”. Seguiu na segunda semana de junho, entre os dias 11, 12 e 14 de junho no Teatro da Cidade, integrando a programação do “No Palco Cidade”, encerrando essa primeira temporada no Galpão 1 da Funarte, por dois finais de semana, de quinta a domingo, entre os dias 18 e 21 de junho; e de 25 a 28 de junho, completando um mês em cartaz. Esperamos que a produção consiga outros espaços cênicos para que um espetáculo como esse possa nos proporcionar emoções à flor da pele, como esse excelente “... quando tudo desaparecer...”

Créditos das fotos: Luiza Villarroel/divulgação

 

*Rogério Salgado é poeta com 51 anos de carreira literária. Também é autor teatral.

 


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