Acompanho Alexandre Marinho desde 1983, quando editor da Revista Arte
Quintal recebi “Todas as tempestades”, livro de 1981. Li e como responsável
pela página “Panorama Literário” escrevi algo sobre sua poesia, que muito me
encantou. Em 1992 a revista fechou as portas por causa do Plano Collor, mas
isso é uma outra história.
Não sou e nunca me propus ser crítico literário, por não ser dono da
verdade literária, mas comentar livros com minha visão de leitor. Recebo agora
“70 poemas e algumas vidas” (Editora Ramalhete), uma reunião de 70 poemas
recolhidos pelo autor, de 7 dos 8 livros publicados ao longo da sua carreira
literária. Como proposta para celebrar seus 70 anos, o poeta reuniu uma seleção
pessoal para compor este livro. Os poemas não vem em ordem cronológica e nem
por separação de temas, mas livres talvez pela intuição do autor.
Aqui confesso que acho insuportável a leitura de livros de poesia com um
dicionário na mesa, tentando desvendar o que o autor quer que eu entenda.
Poesia, na minha concepção deve ser simples, como os versos de três dos maiores
mestres da nossa literatura: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e
Mário Quintana. A verdadeira poesia, na minha concepção de leitor, deve ser
entendida por todos os leitores que a leiam.
E foi aí que a poesia de Alexandre Marino encantou-me, por entendê-la
num só sopro e sentir toda a emoção que a mesma nos afeta. Seus poemas falam de
coisas simples, como em “O piano”, que encantou-me humanamente por ser eu,
filho de uma pianista e ter convivido com uma mãe que tocava piano para que
ouvíssemos com a alegria que a música nos proporciona: “Dorme um piano/entre as cinzas do porão,/onde os gatos/e suas
ninhadas,/indiferentes à escuridão/ou qualquer sinal de morte,/caminham sobre o
teclado/e descobrem o imponderável/(como se ordenassem/acorde!” Encontramos vários poemas para Nádia, musa infinita do
poeta, poemas esses que emocionam a alma mais insensível de quem lê. A
sensibilidade poética do autor é visível nas páginas que se seguem, são poemas
que mexem com a alma do leitor e neles me incluo. Leiamos “Disfarces”, em que
diz: “Disfarço, oculto atrás do
livro,/para ler um poema em seu olhar,/admiro as palavras aninhadas ao redor/de seu
silêncio, no sofá/Mas nem o vento/nem o livro
em seu colo/nem o perfume da
chuva sobre as árvores/fazem como seus olhos perdidos em poemas/sonhar um
homem/que só espera do mundo/esse encontro/num momento mágico/da poesia
que desperta.”
Alexandre Marino nasceu em Passos (MG). Jornalista, escritor e poeta.
Publicou seu primeiro livro de poemas, “Os operários da palavra” (1979), enquanto fazia o
curso de jornalismo. Em 1972 participou da criação da revista “Protótipo”. Trabalhou
nas redações do Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Jornal do Brasil e O
Estado de S. Paulo. Em seguida, passou a prestar serviços de reportagem, edição
de revistas e livros, assessoria de imprensa, etc. Em setembro de 2006, foi
chamado para trabalhar no Ministério da Educação, depois de passar num
concurso. Depois de viver 40 anos na capital federal, trocou a cidade grande
pela zona rural de Gonçalves, interior de Minas Gerais.
“70 poemas e algumas vidas” vem com apresentação de Marco Túlio Costa e
Antonio Barreto e reúne também 10 crônicas que falam de lembranças e vidas,
tais como “escrever é o que importa” sobre a importância da escrita em nossas
vidas, sobre aulas de datilografia (eu mesmo fiz um curso que ficou na
lembrança e também tenho uma velha Olivetti em casa), entre outros assuntos.
“Compõem essa possível coletânea, “70 poemas e algumas vidas”, os livros
“Todas as tempestades” (1981), “O delírio dos búzios” (2005), “Poemas por amor”
(2007), “Exília” (2013), “Hiatos” (2017) e “Terra sangria” (2022).
“70 poemas e algumas vidas” é um livro de poemas que emocionam e que com
certeza encantará até aquele possível leitor avesso a uma obra poética.
Contatos: sitiodomarino@gmail.com

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