terça-feira, 4 de novembro de 2008

Lodo

Lodo

Original de Rogério Salgado e Adriani Vargas*

Peça teatral em 01 ato.

Músicas:
Lodo: Instrumental (Jorge Dissonância)
Ninfas da noite: Maxixe (Jorge Dissonância-Rogério Salgado)
Mundo de giz: Bolero (Jorge Dissonância-Rogério Salgado)
Carência: Balada (Jorge Dissonância-Rogério Salgado)
Precisamos de nós duas: Balada (Jorge Dissonância-Rogério Salgado)
Tema pra Joana: Bolero (Jorge Dissonância-Rogério Salgado)




*Registrada na Biblioteca Nacional/Escritório de Direitos Autorais, Lei no 5.988 de direitos autorais. Escrita originalmente em 1987..
Copyright © : Rogério Salgado da Silva e Adriane da Silva Martins.





Dedicamos esta obra a memória de Oswald de Andrade, que com o final de sua peça A Morta,
deu-nos inspiração para iniciarmos a nossa Lodo.




Músicas

Ninfas da noite

Nós somos as ninfas da noite
vendemos carinhos pra vocês
nossos corpos são fogueiras
mas fazemos com um de cada vez.

De pernas pro ar
de lá ou de cá
sabemos lhe atender
sabemos lhe agradar.

E se você tá tão sozinho
e também precisa de carinho
somos caridosas, bondosas
satisfazemos sempre o freguês.

Mundo de giz

Vida, não fui feliz
um minuto sequer
não sei se fui eu
num dia qualquer.

Quem sabe
a vida assim me quis
pra viver por aí
no meu mundo de giz.

Vida, queria sorrir
ser feliz com quem me quer
mas de ti, eu sou
apenas mais uma mulher.

Quem sabe
a vida assim me quis
pra viver por aí
no meu mundo de giz.

Carência

Como uma estrela vagando
na noite de um dia qualquer
eu vago às escuras na noite
eu sou apenas uma mulher.

Como o sol que se apaga
na noite, por um instante sequer
preciso da luz que me afaga
eu sou apenas uma mulher.

E como mundana, fulana, sicrana
que precisa de um gesto que se quer
preciso de amor, calor no meu corpo
pois eu sou apenas uma mulher.





Precisamos de nós duas

Somos nós, agora nessa noite
tanto açoite nos atraiçoou
e o tempo foi passando assim
e agora diga: O que restou?

Tantos homens nos tocaram
nos beijaram com ardor
acariciaram nossos corpos
e agora diga: Onde está o amor?

Foram tantos os pedidos
tanta mordida que marcou
mas o tempo tudo apaga
e agora diga: O que ficou?

Toquemos nesta hora
nossos seios, nossos rostos
já não diga nada, fique nua
precisamos de nós duas.


Tema pra Joana

Me fiz mulher muito cedo
a menina que eu tinha, guardei
pelas noites caí a vencer
na flor que era botão, transformei.

Mulher da noite virei
desejos em muitos, causei
com muitos homens, deitei
mas com poucos, gozei.

Mulher bailarina, virei
flores nunca ganhei
amor, sempre sonhei
carinho, nunca alcancei.

Cada noite que vivi
com cada homem que dormi,
muito nojo eu sentia
mas o não, nunca dizia.

O tempo foi passando
a menina, mulher virando
no espelho é difícil olhar
tenho medo da velhice chegar.

Texto

Cenário: Um cabaré cujo nome é “Flordivina”, na cidade do Rio de Janeiro, próximo ao cais. Dividido em sets.
1o Set: O centro do Cabaré, com palco, mesas, etc. no centro do palco.
2o set: Quarto de Joana, com cama, penteadeira, etc., no lado direito do palco.
3o Set: Quarto de Gabriela. Mais ou menos igual ao de Joana, no lado esquerdo do palco.

Época: Atual.

Personagens (por ordem de entrada em cena):
Deboche; Consciência de todos (público e personagens). Está em cena, mas ninguém repara sua presença, ou seja, ninguém o vê.
Adolfo: Político. Só se interessa pelo poder e por si. Egoísta.
Joana: Mulher carente. Vítima do poder e do sistema em que viveu. Presa ao passado em que sua mãe era uma prostituta do bairro em que morava.
Rita: Realista diante da vida. amiga sincera de Joana.
Gabriela: Dona do cabaré. Tem o apelido de “Bela”. Pessoa materialista, mas que no fundo tem sentimentos pelas pessoas.
Max: Garçon, homossexual, cantora frustrada do cabaré, pessoa extremamente sensível.
Lolita: Mulher carente, frustrada e realista. Prostituta e alcoólatra.
Ricardão: Macho de Gabriela. Cafetão e outras mumunhas mais.
Baba de Moça: Trambiqueiro das docas. Vive de maracutaias.
Daniel: Rapaz bom, que está apaixonado por Joana, por ser também uma pessoa carente.
Obs: As dançarinas do início e final da peça, marinheiros, etc, poderão ser usados figurantes.
(Música Lodo-Instrumental. Quase no final da música, as cortinas vão se abrindo.)
(Luz no set do cabaré. Ao centro, o Deboche. Música instrumental Lodo)
Deboche: Respeitável público. Senhoras e senhores. Não vos pedimos palmas e sim bombeiros, pois se quiserdes salvar vossa moral apagando esse fogo, ide chamar os bombeiros, ou se preferirdes, a polícia, pois somos como vós: um imenso cadáver ambulante, cheirando a putrefação. (Dá uma gargalhada, como se estivesse menosprezando o público).
(Depois desta fala, todas as luzes do Cabaré “Flordivina” se acendem. O show se inicia. As dançarinas dançam e cantam a música Ninfas da noite. Com o término do show, as dançarinas vão cada uma para uma mesa, inclusive Joana, que se encontra com Adolfo.)
Adolfo: Oi! Você esteve muito bem!
Joana: Obrigado. Dançar sempre me fez bem. Assim consigo espantar todos os meus fantasmas. A propósito, como vai indo a sua campanha?
Adolfo: Tenho certeza que ganharei essa eleição. Tudo vai dar certo, tenho certeza. Certamente serei o mais votado e a vitória é certa.
Joana: Você sabe que meu voto é seu e se depender de mim, todos aqui do “Flordivina” terão você como candidato. O Max mesmo disse que um dia viu um retrato seu bem grande lá no centro da cidade.
Adolfo: E na televisão, você não viu ainda?
Joana: Ah, você sabe que aqui não temos televisão. Fica muito difícil pra gente ver televisão aqui. Mas agora eu tou me lembrando. Dia desses eu fui ao centro da cidade e vi muito rapidamente numa loja, uma propaganda sua na TV. Você tava tão atraente. Sabe, você tem um jeito todo especial de me seduzir.
Adolfo: Para com isso. Não me interessa saber se sei ou não seduzir.
Joana: Por que isso agora? Você chegou tão bem, falando sobre a sua candidatura e eu tava curtindo muito tudo o que você falava.
Adolfo: Curtir, curtir. É só nisso que você pensa? Curtir. Essa palavra é fútil que nem você.
Joana: Adolfo, não tou entendendo. Você chegou tão bem e agora fica me dando patada.
Adolfo: Não precisa entender nada, basta você olhar pra mim.
Joana: Mas eu não te fiz nada. Já sei, o problema é aquela sua mulher. É ou não é?
Adolfo: Até que enfim você acertou.
Joana: Eu sabia, eu tinha certeza de que ela era culpada do seu modo de agir. Mas tudo bem. Eu não quero que você fale mais nada. Venha comigo, vamos dançar um pouco.
(Joana insiste para que Adolfo vá dançar com ela na pista. Chegando lá, os dois dançam Mundo de Giz-instrumental. Apaga-se a luz. Acende-se luz no set do quarto de Joana. Lá se encontram Adolfo, Joana e o Deboche)
Deboche: Adolfo vinha há certo tempo mantendo relações com Joana. Mas temendo que essa relação prejudicasse sua campanha política e o seu casamento, resolveu dispensar a dita cuja. Meu avô certa vez definiu o amor a três da seguinte forma: quando um é pouco e dois é bom, o terceiro sempre toma no cu)
(Deboche sai de cena)
Joana: (Sedutora) Meu corpo não lhe deixa com desejos selvagens? Eu não lhe inspiro tesão?
Adolfo: Hum... hum... gostosa...
(Adolfo acaricia Joana bem devagar. Param e iniciam o diálogo)
Joana: Você gostou? Eu sei fazer melhor do que sua mulher, né. Aliás, (Vira-se de costas para Adolfo) eu faço coisas que provavelmente ela não faz, né.
(Joana deixa Adolfo acariciar sua bunda. Vira-se devagar e vai abaixando os lábios em direção ao meio das pernas de Adolfo. De repente ele pára e olha para ela com ar de seriedade)
Adolfo: Sabe Joana, essa será a última vez que nos veremos.
Joana: (Assustada) O que...?
Adolfo: É isso mesmo. Você não ouviu o que eu tinha pra dizer. O meu problema não é só a minha mulher, são vocês duas. Eu gostaria muito que você entendesse, mas eu não posso prejudicar a minha campanha por sua causa.
Joana: Entender o que? Você me enganou, me usou e lambuzou todo esse tempo.
Adolfo: Não é bem isso. É...
Joana: Você não vale porra nenhuma. Você é um verme. Essa campanha te subiu a cabeça. Na realidade você não vale absolutamente nada. Você é um podre, um bosta.
Adolfo: Joana, não nos entenderemos com essas palavras agressivas.
Joana: E pensar que você iria me tirar dessa vida miserável. E agora eu ter que subir naquele palco sujo e abrir a minha cara pr’aqueles homens fedorentos e sentar na mesa com eles e beber com eles, trepar com eles, tudo por sua culpa, seu canalha.
Adolfo: Chega, Joana. Pra mim basta. Não quero mais ouvir as suas lamúrias. Se você caiu nessa vida, não foi por minha culpa, foi por culpa daquela sua mãe.
Joana: Não fala da minha mãe. Agora, fora daqui. Suma da minha frente. Mas fique sabendo que isso não vai ficar assim não. vou botar a boca no mundo. Todo mundo vai ficar sabendo quem é Adolfo Serqueira, o conquistador de piranhas.
Adolfo: Você está ficando louca. (indo até Joana)
Joana: Isso é o que você pensa. Vou fazer o maior reboliço da paróquia, seu filho da puta. Vou contar pra todo mundo que você é o maior e o melhor candidato a política mundana.
Adolfo: (Dando um tapa na cara de Joana) Sua piranha.
Joana: Sou piranha sim. Aquela a qual você passou várias noites recebendo carinho.
Adolfo: (abrindo a porta) Te juro uma coisa, Joana, se você se atrever a contar algo a alguém, uma palavra sequer de tudo que se passou entre nós, eu acabo com a sua raça. (Sai batendo a porta)
Joana: (Aos berros e choros) Saia daqui, saia, saia... (cai na cama, chorando)
(O Deboche entra em cena)
Deboche: Direitos Humanos? Ah, num sei não, mas será que existe algum humano direito? Bem, vamos continuar. Joana era muito chegada a Rita, que era muito chegada a Joana, etecetera e tal. Então...
(Sai o Deboche. Joana encontra-se no quarto, deitada na cama, chorando. Nisso entra em cena, Rita)
Rita: Que que foi, Nêga? A noite não tá sendo boa? Não tá dando grana? Por que cê tá chorando?
Joana: Você quer saber mesmo? Choro porque quando nasci, eu chorava pra ficar grande. Depois chorava porque tive uma desgraçada d’uma mãe. Depois chorava pra casar. Depois pra ficar rica. Tou chorando porque tive uma égua d’uma mãe que vivia tagarelando no meu ouvido, jogando na minha cara que havia me carregado nove meses naquela barriga. E só hoje eu me olhei no espelho e vi que tou ficando velha e acabada e agora eu vejo que desperdicei a minha vida inteira só fazendo cagada. (Continua a chorar)
Rita: Que qué isso, Nega? Num liga pra essas coisas não. aposto que o culpado disso tudo é aquele cara da política, da alta, né? Num fica assim não. eu já tava sacando qual era a dele há muito tempo. Só num bati pra ti porque pensei que cê fosse mais coelha.
Joana: Poxa, Rita. Eu tava começando a acreditar nele...
Rita: Você caiu de otária. A pessoa tem que ser coelha, esperta, senão já viu né, dança numa boa. Você acha que um cara como ele, transando uma de política, ia largar tudo pra entrar numa boa com uma de nós? Qual foi, ô Joana? Mas fique sabendo que isso passa. Num fica assim não. com o tempo cê vai aprender a conhecer o animal chamado homem. Principalmente os machões. É ele quem bota as cartas na mesa, queiras ou não queiras. Fica sabendo que minha vida não é lá melhor do que a sua. Ao menos cê pode se considerar feliz por ter tido uma mãe. E eu que nem sei quem foi a minha. Nasci feito bicho. Pra ser mais realista, eu num nasci, me cagaram. Eu vivia num orfanato e eu odiava aquele lugar, até que um dia resolvi ir a luta. Arregacei as mangas e meti bronca. Fugi de lá.
Joana: Com quantos mais ou menos você já trepou, Rita? (Joana começa a se animar, pelo menos é o que parece)
Rita: Ah, num sei. Eu só me lembro do primeiro. Foi tão gostoso. Eu tinha uns quinze anos e acabei dando pro cara. Ele era carinhoso e eu gostei. Hoje em dia eu acho tudo isso uma rotina, num sinto mais nada, sorrio pra num chorar, dou uma de artista e represento como se estivesse no palco. Mas o pior, Nega, foi no dia que me jogaram naquele fim de mundo e eu passei a ver o sol nascer quadrado.
Joana: O que foi que você andou aprontando?
Rita: Caí como otária, que nem cê caiu agora. Me apaixonei por um gatuno que me levou à besteira de roubar. Mas o pior não foi roubar. Pior foi ter que passar uma temporada em cana por causa daquele filho da puta. Passei noites e mais noites naquelas celas imundas, podres e sujas e eu me sentia suja dentro daquilo tudo. E ainda por cima, tinha que foder com aqueles tiras fedorentos.
Joana: Rita, nem sempre o que ficou sujo se transformou em sujeira. A vida é que nos levou a isso tudo.
Rita: Às vezes eu sinto um lodo percorrendo todo meu corpo. Mas deixa pra lá. Vamos a luta, a festa, a alegria. A Flordivida espera por nós. Vamos a luta, nêga.
Joana: Pena que a vida não seja uma festa sem fim.
(Gabriela, a Bela, entra em cena)
Gabriela: Vamos meninas, chega de tanto papo furado. A casa tá cheia e eu quero que encha mais. Mas tomem cuidado, tem muito marinheiro pé rapado por aí e eu não quero levar cano. Tem outra, nada de trepar sem camisinha. Não quero saber de doença aqui no Flordivina. (Dando um tapinha na bunda de Joana). Vai Joaninha e pára de pensar no bosta do Adolfo.
Rita: Tudo bem, Bela. Nós tamos sabendo direitinho o que temos que fazer. Não é, Joana?
Joana: Hum, hum.
Gabriela: Espero que sim.
(Gabriela sai de cena)
Rita: É, menina, vamos a luta. Tudo é festa. Vamos representar, porque a vida é um palco e nós somos os artistas.
(Luz no set do Cabaré)
Deboche: Lolita era uma das prostitutas do Flordivina e como todas, tinha lá seus probleminhas. É, porque puta sem problema já é muito descaramento.
(Deboche sai de cena)
(Max está no palco cantando “Mundo de Giz”. Ele canta a música e quando começa a repeti-la, Lolita entra em cena completamente bêbeda e começa a estragar o show)
Lolita: (Empurrando Max) Ei, pessoal, eu sou artista, atriz, cantora. Vocês sabiam? Eu sei dançar, cantar. Querem ver como eu sei dançar? (Lolita começa a dançar, Max tenta impedí-la)
Lolita: (Falando pro Max) Sai daqui, perua. Eu agora sou a atração do Flordivina.
Max; olha aqui, Lolita. Eu já estou cansada de todas as noites ter de parar o meu show por sua causa.
Lolita: Seu viado. Saiba que eu sou a mulher daqui e sou mais gostosa que você. E você não passa de um travesti mal pago e mal alimentado.
Max: Você está me ofendendo, Lolita. Eu não tenho culpa se você bebe assim e nem estou aqui para você jogar suas frustrações em cima de mim.
Lolita: Que frustrações porra nenhuma. Eu lá sou mulher pra essas coisas. Ei pessoal, vocês me acham uma mulher frustrada? Olha aqui ô bicha louca, vou contar pra todo mundo aquela doença que você pegou no rabo.
Max: Não se atreva, sua puta desclassificada.
(tomando conhecimento do público que o assiste, Max sai envergonhado)
Lolita: Seu fresco. Vai mesmo, xô, xô... (falando pro fundo do palco) Esse palhaço não quer deixar que eu cante. Eu quero cantar, ora porra. Agora, com vocês, a mais gostosa do Brasil. (Lolita bate palmas, mas vendo que a reação do público é de total displicência, reage)
Lolita: Como é, gente, vocês não batem palmas? (nisso, o público reage e ela começa a cantar “Carência”. Durante os espaços vagos da música, ela vai falando) Foi minha mãe quem me deu esse nome, Lo li ta. Vocês acham ele bonito e sexi? Eu amo todos vocês, um por um... Os meus olhos para uns, as pernas para outros, os peitos para para alguns e o resto a gente vê depois... Eu nunca amei a um só homem, amei vários e me dei a todos eles por prazer, sem um preconceito sequer... Sexo é como escovar os dentes, é uma necessidade... (gritando) Viva o sexo, viva a sacanagem... Eu quero beber, beber muito até que minhas bexigas se encham e eu tenha que ir ao banheiro mijar e fazer a minha lavagem espiritual.
(Gabriela entra em cena)
Gabriela: Você bebeu novamente. Não tem vergonha nessa cara? Não vê que tá dando o maior vexame, porra?
Lolita: Qual foi, Bela? Eles estão gostando pra caralho, porra. (mostrando a tatuagem na coxa)
Gabriela: (Vendo a tatuagem) O que significa isso?
Lolita: O que foi, Bela?
Gabriela: O que significa essa tatuagem na sua coxa?
Lolita: Ah, você não gostou? Eu acho bonitinha. Veja, Bela, é uma florzinha. Quem fez foi aquele cara que vem sempre aqui. O Baba de Moça.
Gabriela: Sabe o que você está parecendo? Uma piranha do mangue, dessas bem fudidas.
Lolita: E daí? O que você tem com isso? E você que não passa de uma cafetina mais fudida ainda.
(Gabriela dá uma bofetada em Lolita)
Gabriela; Escuta aqui, sua puta. Há anos atrás você era titica de botequim. É que você não sabe que eu fui...
Lolita: (interrompendo Gabriela) Nem me interessa, Dona Gabriela. A senhora por acaso sabe quem é que traz todos esses homens pra cá? Sou eu, sabia? Sou eu quem faz eles beberem esse vinho de merda, em troca eles deixam uma rendosa quantia pra senhora. Você, Dona Gabriela, tem cheiro de morte. Você não traria ninguém pra esta espelunca.
Gabriela: E você, menina? Não sabe o que quer. Eu tenho cheiro de morte sim, mas você está morrendo aos poucos. Eu também já tive uma carinha linda assim, como a sua. Eu também já soube dar muito de mim a muitos homens e eu tenho certeza de que os fiz realizados. Você um dia vai saber o que é decadência. Eu posso ser tudo na vida, mas nunca deixei que ninguém ouvisse ou sentisse rastros de minhas frustrações.
(Gabriela vai para o quarto. Luz no set do quarto. Gabriela retira o batom da bolsa, olha no espelho suas rugas e risca o seu rosto. Lolita entra no quarto, está com os cabelos molhados e parece menos embriagada e mais consciente e aos poucos vai chegando perto de Gabriela, com ar de quem se arrependeu do que fez)
Gabriela: Eu só queria poder pintar a minha vida.
(Lolita, numa espécie de ritual, retira as manchas sujas de batom do rosto de Gabriela)
Lolita: Bela, você nunca teve ninguém?
Gabriela: Sim. Vocês todas do Flordivina.
Lolita: Não me refiro a isso. Me refiro a um homem, a um amor.
Gabriela: Sim, eu já amei um homem. O meu marido. Ele se chamava Josafá. Era comerciante. Era Josafá, sem mais nada. Simplesmente Josafá. Eu nunca acreditei em príncipes encantados e sempre pretendi o que acho que eu mereço, mesmo sendo um homem simplesmente. Ele foi embora. Sumiu no mundo. Mas eu conheço o peso de um homem sobre meu corpo. Não consegui retê-lo pelo tempo que queria, mas tentei. Dei tudo de mim para ele. Dei além do que eu tinha, além do que podia. Mas como a gente vai saber o que se passa na cabeça de um homem para impedir que ele vá embora?
Lolita: Bela, me perdoa. Eu te admiro e invejo a tua coragem.
Gabriela: Lolita, por que é que você bebe? Eu não entendo porque você faz esses escândalos todos. Sabe, a gente discute, eu faço essas coisas todas, mas você sabe que eu gosto de você. Você tem que entender, porque essa é a verdade mais pura que existe dentro de mim. Com essa aparência rabugenta, eu escondo quem eu sou. Mas você deve entender que eu sou um ser humano e, é claro, tenho sentimentos. Gosto de você, de vocês todas, sem exceção. Desde você até o Max tem um lugar dentro de mim. Você me acha uma megera, eu sei. Só porque sou feia. Bem, o que estou querendo dizer é que gosto muito de você.
Lolita: Eu entendo, Bela. O que estou querendo lhe dizer é que eu também tenho problemas. Minha vida não foi fácil. Tudo começou quando eu tinha doze anos, conheci um rapaz. Ele era lindo, tinha olhos verdes e vinte e cinco anos. Eu pensava que ele me amava. Perdi minha virgindade com ele e acabei fugindo com ele. Deixei minha casa, meus pais, meus irmãos, meus amigos e ganhei estrada. Esperava que aqui fora fosse um mar de rosas e ele o meu príncipe encantado. Mas ele não era nada disso. Ele não passava de um aproveitador. Aos poucos fui descobrindo que eu não era a primeira menina que havia sido iludida e forçada a vender seu corpo pra tirar vantagens. E foram muitas as que passaram pela mão dele. Tentei fugir, telefonei pra casa, mas meus pais não quiseram me receber. Meu pai falou que eu não passava de uma vagabunda. Saí pelas ruas feito louca, quase fui pega pelos tiras. Houve momentos em que eu queria ter caído morta nas ruas ou ter trocado de lugar com aqueles condenados de quem passei tão perto deles naquelas noites. Eu o odiava e odiava a mim mesma. Houve uma vez em que eu desabafei, disse que não aguentava mais aquele inferno. Ele dizia que essa era a minha profissão. Eu sabia que aquele era o meu modo de vida, as ruas sujas, molhadas e frias era o meu lar e aquele miserável foi quem me atirou nela e nela passou a me conservar dia e noite e é por isso que eu bebo. Bebo pra esquecer aquele filho da puta, esquecer aquela época.
Gabriela: Lolita, abra-se comigo. Deixe que eu entre em você e que a faça esquecer tudo isso. Venha, está tudo acabado. Ele se foi. Aqui você é livre e faz o que quer, dorme com quem quiser e não é obrigada a dormir com assassinos e viciados. Está tudo acabado. Esta noite viveremos só nós duas.
(As duas se abraçam, se beijam e se acariciam sexualmente, por estarem muito carentes. Enquanto vão se despindo, entra a música “Precisamos de nós duas”. A cena continua e a luz vai se apagando bem lentamente, até o término da música.
(Luz no set do Cabaré)
Deboche: Senhoras e senhores. Sentimos muito pelo atentado ao pudor. Mas não desespereis, pois isso faz parte da carência de cada uma e pior do que a realidade de um cabaré, é a vossa própria realidade. Ah, ia me esquecendo de dar um recadinho: as prostitutas da beira do cais, essas sim, são as verdadeiras multinacionais.
(Sai o Deboche. Entra Ricardão e Gabriela vai falar com ele)
Gabriela: Pelo que vejo, você já chegou, não é Ricardão. Será que você não se cansa de vir todas as noites pra cá e ficar bebendo às minhas custas? Por que você não arranja um emprego? Será que você não vai tomar nunca vergonha nessa cara?
Ricardão: (Cínico) Olha aqui, doçura. Tu vai ter que sacar uma coisinha. Quem manda nesta merda aqui sou eu, tá sabendo. Sou eu quem anda fazendo comerciais dessa espelunca aqui, por isso é que a casa tá sempre cheia e é lógico que eu mereço uma comissãozinha. É ou não é?
Gabriela: Comissãozinha? Eu tenho pena de você, Ricardão.
Ricardão: Pena? Quem tem pena é galinha e depende da galinha. E a próxima vez que tu repetir essa frase, eu te juro que te dou uma porrada na cara. Talvez até dê pra fazer uma tremenda de uma galinha ao molho pardo.
Gabriela: Ricardão, eu sei que você não vale nada, mas apesar de tudo, eu preciso de você, porra. Você é o único cara que sabe dar carinho a uma coroa como eu.
Ricardão: Tá bem, doçura. Agora tu, como uma bela e boa mocinha, vai trabalhar que eu tou precisando de grana. Sacou?
Gabriela: Tá legal, tá legal. Eu vou, mas depois eu vou cobrar de você todos os carinho. Tudinho com juros e correção monetária, hem.
(Entra em cena, Baba de Moça)
Baba de Moça: Olha aí, gente, o negócio é agitar.
Ricardão: Pérai camaradinha, vai com calma, falou. Tu tá na minha zona.
Baba de Moça: Tudo bem, Ricardão. Tá tudo em cima?
Ricardão: Quase tudo maneiro, cara.
Baba de Moça: Quase tudo? Vai soltando as falas. Diz aí, cara.
Ricardão: Tu sabe como é, né. Ando trabalhando muito.
Baba de Moça: (Dando uma gargalhada) Tu trabalhando? Tá me gozando, cara? A não ser que tu tenha aceitado o servicinho que o Gandola te propôs.
Ricardão: Que qué isso, meu irmão. Eu só pego serviço limpo. Tô trabalhando e na maior. Tu não acredita?
Baba de Moça: Não muito, cara. Não muito.
Ricardão: Max, vem cá e diz pro Baba de Moça se tô ou não trabalhando.
(Max, que servia outra mesa, se aproxima e concorda apenas para evitar confusão)
Max: Claro, Seu Ricardão. Eu vejo o senhor trabalhando todos os dias.
Baba de Moça: Ricardão trabalhando. Tu nunca foi disso, cara.
Ricardão: Olha aqui, ô pederasta, pode ir (falando pro Max). Mais tarde a gente se entende numa boa. Agora faz um favorzinho pro seu papaizinho. Traga um vinhozinho pra gente, tá.
(Max sai pra buscar o vinho)
Baba de Moça: Ricardão. Tu é o manda chuva daqui, hem?
Ricardão: Isso é pra quem pode e não pra quem quer.
Baba de Moça: É isso aí, cara. Tu tá com a bola toda.
(Luz em Gabriela e Joana em outra mesa. As duas bebem)
Gabriela: É aquele o cara. Toda noite ele vem aqui e fica te olhando. Faça um trabalho caprichado, hem.
Joana: (Um pouco alta, por causa da bebida) Tudo bem. Eu também já saquei esse cara há muito tempo. Ele tem alguma coisa que me chama a atenção, mas ao mesmo tempo me deixa meio sem graça de me aproximar dele.
Gabriela: Deixa disso, Joana. Vá lá, vá.
Joana: Tá legal, tá legal. Eu vou lá. Deixa comigo.
(Joana levanta-se e vai até a mesa onde se encontra Daniel)
Joana: Tudo ok? (Pega um cigarro e oferece a ele). Você quer?
(Ele balança a cabeça negativamente)
Joana: Ah, você não fuma. Você é que tá certo. Fumar faz mal e é um vício horrível, além do mais, ele prejudica os pulmões e faz também com que os dentes fiquem cheios de cáries. Eu tenho duas só deste lado (mostra pra ele, abrindo a boca). Já vi que você não gosta muito de falar. Você é desses que gostam de pegar o ambiente primeiro. Você é tímido. Mas eu já sei do que você precisa. (Grita pro Max) Max, traz o melhor vinho da casa pra esse cavalheiro aqui. Um pouco de vinho vai fazer você acabar com essa timidez. Isso acontece muito, sabe. Você não é o primeiro. (Max chega com o vinho) Ah, chegou o nosso vinho. Tomr um pouco que faz bem. (Joana serve um pouco de vinho pra ele) você vai ficar no ponto agorinha mesmo, tipo peru no forno. (Ele bebe, mas continua calado, porém com um sorriso calmo nos lábios) sabia que você é muito bonito? De vez em quando aparece por aqui uns pés rapados, desses que não tem onde cair morto, pensando que isso aqui é um lugar qualquer, uma funerária. O caís é logo ali e os homens chegam do mar malucões, taradões. Eles passam uns três meses sem ver mulher. Mas você é diferente, não parece ser como os outros caras que andam por aqui, com fome de trepar. Você não parece um marinheiro. Afinal de contas, o que você quer aqui? Quem é você? Ah, já sei, não quer dizer, hem. Segredinho. Cara, eu num tô numa boa não. durante todo esse tempo que estive aqui, eu representei. Eu num sou nada disso que você tá vendo. Nem mesmo sei porque tou dizendo isso tudo pra você. Ah, deixa pra lá.
(Joana pega no braço de Daniel e sobe as escadas simulando ir pro seu quarto. Apaga-se as luzes e ao acendê-las novamente, eles estão no quarto de Joana)
Joana: Venha. Não é isso que você veio procurar aqui? Aqui estamos nós, eu e você.Vamos, me ajude a abaixar o fecho. (virando-se de costas para ele, que permanece calado) Afinal de contas, qual é a sua, cara? Você quer ou não quer trepar? O que você veio fazer aqui? Você num tá a procura de ação? Pois bem, aqui estou. Mas que merda. Num fica aí parado sem dizer nada. Parece mais um idiota. Ah, já sei. Você quer saber o meu nome, né? Eu me chamo fácil. Você deve tá pensando que num é lá grande coisa como nome. Pra você se lembrar de mim, me chame de trepada fácil. Num adianta, você num tá satisfeito. Tá legal. Eu sou Joana. Mas não a tal que morreu no fogo, mas a que morre a cada passar de noite. Eu tou cansada disso tudo. Voltar pra minha casa eu num volto mais. Lá não existe nada pra mim, apenas desgraças. (Rápido silêncio) Eu odeio minha mãe. Um mês depois da morte de meu pai, lá tava ela dormindo com o meu tio na maior trepação e eu vi tudo. Cada gesto, cada suspiro de gozo e eu ali vendo tudo. Depois do meu tio, veio o quitandeiro, o padeiro e tantos outros. minha mãe nunca prestou. Ela era a mulher mais falada da nossa rua. As pessoas diziam: lá vai Marieta Dadá, a mulher que dá pra todo mundo. Eu num aguentei mais e fugi de casa. Fugi de lá e acabei fazendo o que ela fazia, a mesma coisa que ela fazia. Eu sou uma vagabunda. Ela também era. Filha de puta, putinha é. De repente, tudo parecia mudar na minha vida. apareceu Adolfo e eu o amei. Pude me entregar a ele com vontade. Era gostoso ser meretriz dele. Ele foi a segurança que eu precisava. A esperança de um dia poder sair dessa sujeita toda, desse cheiro de vinho podre, igual ao cheiro dos marinheiros que muitas vezes grudavam no meu corpo. (Silêncio total) Adolfo acabou comigo, mas eu ainda hei de fuder com a raça dele. ah, se vou. Sabe, no fundo ele não me amava e o que eu queria realmente era amor. Porra, mas como querer que alguém ame uma puta? Parece até piada, sabe. Cara, nem sei porque tou te dizendo tudo isso. Desculpa, você num tem nada com isso. Por favor, num fale pra Bela, a dona desta zona. Meu Deus. O que houve comigo? Você num precisa pagar nada. Desculpe, isso acontece. Venha outra vez aqui. Talvez da próxima vez eu esteja melhor. Eu não sei quem é você, mas te agradeço. Eu te acho estranho, um cara muito estranho e legal.(momentaneamente, Joana sente-se atraída pelo Daniel e ela percebe isso, mas não deixa transparecer) Eu fui tão egoísta, falei o tempo todo. Obrigada por me ouvir. Vou descer, não quero mais encher o seu saco com meus problemas. Afinal, você num tem nada com isso. Eu já vou. Deixa que eu pago a parte do aluguel do quarto. É mixaria. Depois você desce, que é pra não pegar mal.
(Ela vira-se de costas para Daniel)
Daniel: Por favor, fique um pouco mais. Não vá agora.
Joana: Por que eu iria ficar aqui? Afinal, você é um homem como todos os outros.
(A expressão dela era a de quem mente para si mesma. Devido as conseqüências, naquele momento ele não era um homem qualquer.)
Daniel: Eu me chamo Daniel. Sou jornalista. Escrevo para pequenos jornais.
Joana: (Voltando-se para ele) Tá certo. Tudo bem.
Daniel: você está aqui há muito tempo?
Joana: Mais ou menos. Mas, pra que você quer saber?
Daniel: Pra nada. É só pra puxar assunto. (Pausa rápida) Escute Joana, eu não estou lhe conhecendo agora. Há muito tempo que eu lhe observo. Eu sempre venho aqui olhar você, mas você nunca me olhou. Eu era como se fosse uma flor no meio do mato. Ninguém me via. Só enxergavam aquele matagal fedido e no entanto lá estava eu todas as noites, olhando você. Mas o seu sorriso era só para aquele cara que não merecia você. Eu me sinto completamente atraído por você de maneira diferente, como eu não havia sentido até hoje por outra mulher. Talvez a minha sensibilidade tenha captado aquilo que você verdadeiramente é, uma outra mulher e não uma prostituta. Eu acho que meu sentimento é também uma forma de amor. E eu sinto isso por você há algum tempo. Sempre observava você, mas de longe, sempre as escondidas e tenho certeza que dentro de você se encontra uma grande pessoa. É por isso que eu sinto isso. Por favor, deixe-me ajudá-la. Venha comigo. As minhas mãos... segure nelas, elas são suas. Segure nelas e venha comigo.
Joana: Eu não posso. Eu tou presa aqui, como todas as outras. A minha carne tá aqui, meu corpo todo, meu sangue. Eu não posso. Eu não posso. Tou presa.
Daniel: Pois então se solte. Só não é livre quem não quer. Só não é livre quem não aceita a liberdade e tem medo de se libertar.
Joana: Não... não... Eu vou lutar sozinha. Obrigado, cara, mas eu sou uma suja. Você não. você é limpo. Essa é a grande diferença. Eu morrerei entre todos os porcos, entre todos os homens que aqui me relacionei. Eu já fui de muitos, nem tenho conta...
Daniel: Eu faço você esquecer tudo isso, prometo.
Joana: Mas eu não posso. Por favor, vá embora.
Daniel: Joana, se dê uma chance. No amor não existe lama.
Joana: Mas...
(Daniel a beija. Ela a princípio o repele, mas aos poucos vai cedendo a acabe abraçando-o. Daniel a despe com carinho. Os dois ficam nus e deitam-se na cama e se amam carinhosamente. Neste momento ele beija delicadamente cada centímetro do corpo de Joana, que se entrega docemente. Ouve-se ao fundo a música “Tema pra Joana”, enquanto as luzes vão se apagando. A música é interpretada integralmente.)
(Luz set/quarto de Gabriela. Esta encontra-se deitada. Tudo se passa como se já tivesse amanhecido o dia.)
Joana: Bela. Bela. Bela.
Gabriela: Pô, Joana. Não é nem meio-dia. Que falta de cooperação. O que que há?
Joana: Ontem me aconteceu uma coisa incrível, que nunca havia me acontecido antes. Sabe aquele cara que você me falou que vinha sempre aqui, ficava quietinho num canto...ele... ele falou que tava me observando há tempo. que gosta de mim e eu senti tanta sinceridade nele, Bela.
Gabriela: (Dando uma gargalhada) O que?
Joana: É, Bela. Ele falou que gosta de mim há muito tempo e que quer me levar embora daqui. Que somos todos prostitutos, todos nós seres humanos somos prostitutos. E que quer viver à meu lado longe daqui.
Gabriela: (Com ar sério) Ah, e tu acreditou?
Joana: Ele me pareceu tão sincero.
Gabriela: Joana, minha Joaninha. Não se iluda. Você acha que aquele cara boa pinta, que pode ter as melhores mulheres do mundo, ia querer que tu entrasse na vida dele? Você vai acabar é quebrando a cara de novo. Num basta o que aquele filho da puta do Adolfo já te fez? Tu vai cair outra vez? Pé no chão, minha filha. Seja realista.
Joana: Pô, Bela. Você num dá nem uma força, né.
Gabriela: Eu não posso te ajudar a sonhar... não posso...
Joana: (Com expressão romântica) Sabe, Bela, esses caras que entram no meu quarto, com bafo de bebida misturada a suor, me dão nojo. Com ele foi diferente. Com ele eu senti que não fizemos sexo, mas fizemos amor. Sei lá, parecia que a noite não acabava nunca. E olha que por mim, aquela noite duraria a vida inteira.
Gabriela: Ah, larga de frescura. Já era tempo de tu conhecer os homens. É tudo uma droga só. Tudo uma merda. Tudo fedendo. O que esse cara tá afim é de te engrupir. Depois que tu se amarrar, aí sim, ele vai mostrar as unhas. Isso é, se tu já num tá amarradona nele.
Joana: Bela, ele me propôs ir embora com ele...
Gabriela: (Interrompendo) Pra que? Pra te levar pra outra zona? Pra te usar, comer, lambuzar e terminar pilotando fogão pra ele?
Joana: Mas Bela...
Gabriela: (Interrompendo outra vez) Bela porra nenhuma. Então eu te tiro do cu sujo, te dou a maior força e tu me troca pela primeira promessa que aparece. Tu num passa de uma ingrata. Sai, sai daqui sua tonta desmiolada. Vai te fuder com esse merda, vai. Sai do meu quarto, sai porra... (Gritando)
(Joana sai do quarto)
Deboche: Bela é o verdadeiro retrato da humanidade. Quer dizer, não se contenta em ver alguém numa boa, ou melhor, numa mordomia. Legal pra ela é a pessoa ser fudida a vida toda.
(Cena: Joana, Rita e Lolita no set do cabaré vazio, como se estivessem na metade de uma conversa)
Rita: Mas então, quer dizer que o cara tá mesmo afim, né?
Joana: Sabe gente, ao mesmo tempo que eu não quero acreditar, eu sinto que devo pôr fé nele. Ele veio aqui num foi por causa do meu corpo não. Não veio aqui pra me usar e me lambuzar não. Ele veio aqui por minha causa. Ele é diferente dos outros, eu sei que é.
Rita: Bom, talvez essa seja a sorte maior que todas nós esperamos.
Lolita: Todas uma pinóia, queridinha. Eu sou muito feliz na vida que levo. Tou muito satisfeita em trabalhar naquilo que todos mais gostam de fazer na vida, trepar. Cê tá sacando a coisa? Sou eu que satisfaço os caprichos dos meus clientes e faço tudo com carinho, com muito carinho. Sou a melhor piranha aqui desta zona. Todos os que me procuram, minha cara, tem aquelas mulheres que mais parecem bibêlos dentro de casa. Só fazem o “papai e mamãe”. E eu consigo fazer com que um homem se sinta um verdadeiro homem.
Joana: Às vezes me pergunto: será que terei sorte na vida? Acho que a própria vida já me respondeu. Poxa, ontem foi legal. Ele me acariciava e eu sentia meu corpo arrepiar com suas mãos de veludo. Quando ele me olhava nos olhos, parecia que estava fotografando minha alma. e Ele fez questão de pagar no caixa, as horas que ficamos juntos, só pra não me prejudicar. Foi lindo.
Rita: Poxa, que romântico.
Lolita: Ih, vamos parar com essa frescuragem. Esse negócio de amor eu já desacreditei há muito tempo. Agora, pra mim é homem na cama. Papai e mamãe paga xis, de ladinnho paga dobrado e se quiser bundinha, paga o dobro do dobrado, porque é assim que eles querem mais É, aqui comigo serviço completo tem que pagar bem. Se quiser uma chupadinha então, o precinho é caro pra caralho. O negócio é ser profissional. Ser mulher total na cama e faturar, porque a vida num tá mole não.
Rita: É, Lolita, com você é difícil de conversar mesmo.
Deboche: Senhoras e senhores. O amor pede pousada em Joana. A mulher apaixonada arde em chamas. O desejo de se entregar e viver, se torna a cova que a sociedade aos poucos vai abrindo com seus valores, conceitos e pré-conceitos, que vão subterrando e transformando Joana em trevas. O que Daniel propõe seria uma vida de luz. Não, Joana que dá tanto prazer, não poderia se dar a esse prazer. Vocês já viram a rapidez com a qual aquelas metralhadoras remarcam os preços nos supermercados? Eles vão remarcando e a gente...
(A voz do Deboche vai sumindo, enquanto a luz nele vai se apagando) (Luz em Rita)
Rita: (Chamando Joana em particular) Psiu, nêga. Vem cá. Senta aqui e vamos bater um lero.
(Joana senta-se à mesa onde se encontra Rita. Luz nas duas)
Rita: Nêga, cê acha que vai ser uma boa, você e esse cara juntos? Ele é moço fino, burguês. Deve ter família rica, sei lá que mais. Sempre vai pintar cobrança por parte de todo mundo em cima de você. Acho que cês podem até vir a se curtir juntos, mas antes, cê precisa amadurecer, sair daqui, fazer outra coisa, conhecer outro mundo. Tentar passar uma borracha nesse lodo que te cobre o corpo.
Joana: Esse é meu medo. Sei que tenho que lavar-me. Sei que tenho que mudar de vida primeiro, procurar emprego, sei lá. Tou meio confusa e nem sei por onde começar. Não sei fazer nada.
Rita: Nêga, sei não, mas acho que o fantasma do passado te rodeia e você acabou usando o retrato da sua mãe. Nêga, cê num tem que ser sua mãe não, pô. Seja você mesma, porra.
Joana: (Levantando-se) Rita, eu não quero falar daquela...
Rita: Calma, Nêga. Só que, como que cê vai sair dessa, se não tirar sua mãe desse baú. Nêga, cê nunca vai aceitar sua mãe. Ela é ela e você é você, porra. São duas pessoas distintas. Tá louco, parece até aquele filme “Psicose”.
Joana: Ela tá morta dentro de mim.
Rita: Mentira, Nêga. Ela tá é bem viva dentro de você.
Joana: Chega, Rita. Eu não vou ficar mais aqui...
(Chega Lolita bebendo)
Lolita: Mas o que é isso? As garotas tão brigando por causa de homem?
Rita: É, Lolita. Acho que o “Flordivina” acaba de perder uma das suas flores.
Lolita: Joana, não vá me dizer que você está pensando em sair daqui, cair na daquele carinha?
Rita: Já caiu, né Nêga.
Joana: Também não é assim não. Ainda não tá nada definido. Eu tou tão confusa.
Rita: Essa confusão tá me cheirando a amor.
Lolita: Joana, cê nem conhece esse cara direito. Agora, só porque ele chegou, te levou pra cama e trepou diferente dos outros e depois encheu sua cabeça de caraminholas, cê vai me dizer que tá amando. Essa história de amor não é pra gente não, minha cara. Amor é só pra gente limpa e nós somos sujas.
Rita: Sabe, Nêga, o amor é livre e não pede licença pra chegar, e aí a gente fica que nem mocinha nova. Vê tudo colorido, não vê defeito, fica cega mesmo. É muito bonito amar, só que nós fazemos parte do lodo, da lama. A gente fede a pecado e amor pra gente, vira fogo e nós acabamos morrendo queimadas.
Joana: Droga de vida, onde a gente passa todo o tempo se entregando pra qualquer um que chega, velho, moço, branco, feio, lindo, pobre, rico, preto. Todos fedendo a enxofre, com o inferno nos olhos. A gente deita, chupa, morde, beija e tem aqueles que preferem apanhar, outros que são viados enrustidos e pedem pra gente enfiar consolo neles. Um mais nojento que o outro. Mas todos gozam. Todos saem daqui com o ego satisfeito. Eu tenho nojo de todos eles.
(Entra Gabriela, que interrompe Joana)
Gabriela: Mas essa é sua vida, minha cara. Trepar, chupar, dar o rabo e dar o gozo e nem sempre gozar.
Rita: Não, Bela. Nossa vida não é isso não. isso é apenas o nosso trabalho.
Lolita: Somos objetos de prazer sexual. A sociedade nos condena, nos queima com sua moral, mas precisam de nós para se lambuzarem de prazer. As dondocas dizem: por que não vão fazer faxina? Mas na hora agá, cadê a faxina? Ninguém nos dá e ainda nos apedrejam.
Gabriela: É isso mesmo, Lolita. A sociedade precisa de nós e essa é nossa profissão. Puta vinte e quatro horas por dia, dando aos maridos das dondocas, o prazer que eles não encontram em casa. Se...
(Joana interrompe Gabriela)
Joana: Merda. Todo mundo trabalha e tem direito a uma vida fora. A uma vida familiar. Uma vida social. Andam nas ruas livremente. Por que a gente tem sempre que estar se escondendo amedrontadas? Por que?
(Joana sai e vai para o seu quarto. Luz no set do quarto de Joana. Ela senta em frente ao espelho e entra em desespero)
Joana: Meu Deus, onde estás que não alivia meu tormento? Qual porta m elevará a uma vida livre? Me diga, em qual rua andarei de cabeça erguida, sem ser apontada, sem ser apedrejada? Onde encontrarei a fonte de águas cristalinas e puras, pela qual passarei e me tornarei limpa? Como mergulhar dentro desse lodo podre e retirar lá do fundo, a mulher que chora pra viver? A mulher que sonha, pensa, almeja ser feliz, mas que nunca se apresenta, pois é sempre vista como objeto? Até quando serei queimada nesta fogueira do submundo?
(Joana entra em desespero maior. Entra Rita, Gabriela, Lolita e Max, cada um com uma tocha de fogo – que poderá ser substituída por uma vela acesa na mão. E vão fazendo um círculo em volta de Joana, cantando “Mundo de giz”. Gabriela pega Joana, põe ela em pé na cadeira e vão rodando em volta, cantando, sorrindo, amedrontando Joana, simbolizando a sociedade martirizando-a. Quando termina a música, eles recomeçam e vão saindo em fila. Joana fica estática olhando. Acende luz em Joana. Ela deverá estar na mesma posição que estava antes da entrada dos outros personagens, como se o ocorrido fosse apenas um sonho)
Joana: Não, não permitirei mais isso. Quero lutar pelos meus direitos. Quero ser gente. Quero viver sem medo. Mãe, eu te perdôo. Fui você o tempo todo sem saber. A cada homem que eu deitei, era igual a quando eu te vi deitar naquelas noites negras. Te culpei dia a dia, quando na maioria das vezes a culpa era minha e eu as jogava pra você, num ato de covardia. Me escondi atrás de você. Eu fui teu retrato. Mãe, me perdoa por ter sido tão fraca, porque na minha embriaguês, eu te odiei um ódio que era meu. Agora me quero como nunca quis. Quero me buscar, pra saber quem sou. Partirei daqui com a cara e a coragem. Construirei meu mundo longe deste lodo.
(Joana começa a arrumar suas coisas. Tem no rosto um brilho diferente. Entra em cena, o Deboche)
Deboche: É, parece que Joana acordou e resolveu brigar. Corajosa a moça. Talvez brigue o resto de sua vida com a sociedade. Ela mudou. E lá fora, será que mudou alguma coisa? Creio que não. lá fora ela será sempre uma puta arrependida porque você (apontando para o público) sempre se lembrará que ela já foi uma vez, uma puta. Joana se sente preparada para enfrentar a vida. mas será que a vida está preparada para recebê-la?
(Sai o Deboche e entra Gabriela)
Gabriela: Que qué isso?
Joana: Vou-me embora, Bela. Meu tempo por aqui acabou.
Gabriela: Vai deixar um lugar seguro que é seu, pelos braços desconhecidos de um homem?
Joana: Não, Bela. Não vou sair daqui por causa de um homem não. vou sair por minha causa mesmo.
Gabriela: Ora, Joana, vai pra onde e viver de que?
Joana: Não sei, Bela. Só sei que descobri tanta coisa. Me sinto outra, outra mulher. Entende? Tô sentindo uma vontade louca de lutar por mim mesma.
Gabriela: Vai deixar a gente?
Joana: Bela, chega um dia que as pessoas se vão e a gente fica só e aí a gente tem que se virar. Você já pensou nisso?
Gabriela: Eu não tenho tempo de pensar besteiras, mas eu tô te entendendo. Quer ir, então vai logo que ele tá te esperando lá no bar.
Joana: Ele quem?
Gabriela: Quem pode ser? Aquele cara, ora bolas. Vocês vão viver juntos?
Joana: Talvez algum dia, agora não. Eu quero viver comigo mesma. Ainda não tou pronta pra viver com ninguém.
Gabriela: Você vai falar com ele?
Joana: Agora.
(Joana sai. Luz no set do bar, na mesa em que se encontra Daniel. Ela chega e se senta)
Joana: Oi. Tudo bem?
Daniel: Tudo. E você? Me parece ótima. Pensou na minha proposta?
Joana: Pensei. Pensei e resolvi.
(Daniel pega na mão de Joana e vai beijá-la carinhosamente. Joana o repele)
Joana: Não, Daniel. Me escuta. Eu descobri que não posso amar ninguém realmente, se eu não me amar primeiro. E pra isso, eu tenho que me descobrir. Eu quero construir uma vida nova. Mas a princípio eu preciso estar só. Eu vou embora daqui. Talvez algum dia a gente se encontre, mas agora não.
Daniel: (Um pouco triste) Poxa, pensei que com minha sinceridade, meu sentimento, eu lhe conquistaria.
Joana: O seu amor me despertou. Você é muito importante pra mim. Foi a partir do momento em que nos falamos, que eu comecei a mudar. Só que não tou pronta ainda pra te receber. Você é muito puro.
Daniel: (Triste, mas compreensivo) Fico feliz por você. Você parece outra. Foi lindo conhecer você. Se precisar de alguém um dia, um amigo (dando-lhe seu cartão), me procure. Você está se tornando uma grande mulher. Isso porque está se descobrindo enquanto pessoa humana.
(Daniel da um beijo carinhoso no rosto de Joana e sai de cena.Joana está com os olhos cheios de lágrimas. Entra Rita)
Rita: Nêga, Bela me contou que cê vai embora. É verdade?
Joana: Vou sim, Rita. Vou hoje mesmo. Mas eu apareço pra ver vocês de vez em quando.
Rita: E o carinha?
Joana: Ele é um cara maravilhoso. Mas agora não dá. Tenho que cuidar da minha vida primeiro.
Rita: Vou sentir sua falta. Mas acho que cê tá certa.
(As duas se abraçam e Joana sai para o quarto. Luz no set do quarto de Joana: Ela está terminando de arrumar as suas coisas. Quando estiver pronta, começa a andar pelo quarto olhando tudo)
Joana: Aqui passei aos mais longos anos de minha vida. aqui morri a cada noite com cada homem com quem eu me deitava. Aqui vivi a chama do amor. Aqui me descobri. Adeus velharia, agora tenho nova vida.
(Joana sai com uma mala na mão. Luz no set do bar. Chega Joana)
Joana: Adeus covil. Adeus sujeira. Não sentirei mais teu cheiro podre de vinho e doenças. Não mais me sentarei em suas mesas para colorir o teu lado negro. Não molharei mais o teu piso com o meu suor, após uma dança para atrair fregueses. Adeus “Flordivina”. Não mais te alimentarei com minha mocidade, com minha beleza. Não mais te darei meu corpo pra enriqueceres. Teu palco perderá uma estrela, teu jardim perderá uma flor, tua festa perderá uma dançarina. Foi bom enquanto durou. Agora adeus e para sempre.
(Entra em cena silenciosamente, Max, Rita, Gabriela e Lolita. Joana vira-se para elas)
Max: Já vai mesmo, Joana?
(Joana faz que sim com a cabeça)
Lolita: Boa sorte, mulher.
Rita: Nêga (corre a abraçar Joana), eu tou triste, mas feliz ao mesmo tempo. Você tava aqui com a gente, mas eu sempre achei que era de passagem. Eu sentia que isso aqui não era pra você. Teu mundo é outro.
Gabriela: É, quando você chegou aqui, parecia uma garotinha assustada e eu te acolhi como uma mãe abraça a filha. E agora eu tou aqui te olhando e vejo que você cresceu e agora é uma mulher. Que sofreu muito e tá muito marcada. Mas sei que você vai sobreviver e vencer. Quando eu tinha mais ou menos a tua idade, eu quis mudar, mas não tentei. Eu tive medo. Você tem coragem, Joana. Mas não deixa ela morrer não, tá. Nunca perca essa coragem.
(Joana abraça Gabriela)
Joana: Obrigada, Bela. Você me ajudou muito. Eu nem sei o que dizer.
(Gabriela tira um dinheiro do bolso e dá pra Joana)
Gabriela: Toma, filha. Você vai precisar.
Joana: Não, Bela. Eu não posso aceitar.
Gabriela: Pode sim. Pega logo, garota. Tudo que eu tenho, eu devo ao trabalho de vocês.
Rita: Joana, cê trabalhou aqui anos e anos, sem direito a quase nada. Agora que cê vai embora, é justo que Bela te dê um pouco do que cê deu pra ela.
(Joana pega o dinheiro e vai abraçando uma por uma. Música “Tema pra Joana” cantado baixinho, ao fundo. Joana sai sem olhar para trás. Enquanto ela vai caminhando para a saída, a música vai tocando até o fim. Black-out)

Deboche: Respeitável público. Senhoras e senhores... (repete o texto inicial da peça. Todas as luzes do Cabaré “Flordivina” se acendem. O show se inicia. As dançarinas cantam e dançam a música “Ninfas da noite”, como no começo da peça. As cortinas vão se fechando aos poucos. Depois voltam a se abrir e todo o elenco volta a cena para agradecer os aplausos do público)

8 comentários:

Izabel Cristina disse...

Que bom e que belo!Isto!!! Vamos postar coisas belas! Vamos ocupar o nosso espaço no mundo virtual e provar que palavras ditas em todos os temos podem ser publicadas no séc XXI e nos próximos também!!!

Izabel Cristina disse...

Que bom e que belo!Isto!!! Vamos postar coisas belas! Vamos ocupar o nosso espaço no mundo virtual e provar que palavras ditas em todos os temos podem ser publicadas no séc XXI e nos próximos também!!!

Izabel Cristina disse...

blogs poéticos serão sempre bem-vindos...

Fanzine Episódio Cultural disse...

Que desenhos, filmes,séries de TV que você gostaria que fossem publicados nas edições do Fanzine Episódio Cultural?

Você pode (se quiser) enviar um pequeno texto dando sua opinião a respeito.
Envie sua sugestão para: machadocultural@gmail.com

orion disse...

adorei sua forma de escrever... uma sensualidade gostosa de se ler. gostaria de convida lo a visitar meu blog. orionplebeu.blogspot.com... nele tenho postado meus trabalhos de poesia ilustrada. apenas os com direitos autorais protegidos, logo postarei meu segundo livro ( ainda não editados), e espero que goste... não tenho participade de eventos por estar meus horarios ainda muito tumultuados... parabens pelo seu trabalho. um abraço

estrela disse...

caro poeta Rogerio.
Amei seus poemas. sua sensilidade
universal. és poeta que escreve
a realidade. Lindo.. um abraço-Amelina chaves.

ANTONIO CABRAL FILHO disse...

ROGERIO, QUANDO A GENTE GOSTA DA POESIA DE UMA PESSOA, A GENTE FICA BOBÃO E FICA PROCURANDO POESIA DELA POR AÍ. É O MEU CASO COM VOCÊ, QUE NÃO ME MANDA UM POEMA INÉDITO PARA O MEU BLOG: http://letrastaquarenses.blogspot.com
ANTONIO CABRAL FILHO
http;//blogdopoetacabral.blogspot.com

estrela disse...

Querido rogerio

maravilhas de poesias. Seu trabalho é lindo, fruto de grand dedicação. te admiro.

Um grande abraço cheio de ternura de
Amelina chaves.