quinta-feira, 5 de julho de 2018

CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS CONDENA BRASIL POR MORTE DE VLADIMIR HERZOG





 Tribunal reconhece pela 1ª vez violações da ditadura como crimes contra humanidade no Brasil e afirma que Lei da Anistia não exclui dever de investigar.


Quarenta e três anos após o jornalista Vladimir Herzog ser preso, torturado e assassinado no DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna) de São Paulo, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Estado brasileiro pela primeira vez por um crime da ditadura militar como crime contra a humanidade. Em decisão histórica, o tribunal entendeu, por unanimidade, que mecanismos como a Lei da Anistia não excluem o dever de investigar e de punir responsáveis por violações.
De acordo com a decisão, o Estado brasileiro deve realizar uma investigação criminal dos fatos ocorridos em 25 de outubro de 1975 para "identificar, processar e, no caso, punir os responsáveis pela tortura e morte de Vladimir Herzog devido à característica de crime de lesa-humanidade dos acontecimentos e das correspondentes consequências jurídicas dos mesmos para o direito internacional".
sentença determina também que as instituições brasileiras reconheçam, sem exceção, a imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade e que seja realizado um ato público de reconhecimento de responsabilidade internacional pela violência praticada contra o jornalista e pela falta de investigação dos crimes.
No entendimento da Corte, o Estado brasileiro é responsável por violar direitos previstos na Convenção Americana de Direitos Humano e na Convenção Interamericana para Prevenir e Sancionar a Tortura, causando danos aos familiares Zora Herzog, Clarice Herzog, Ivo Herzog y André Herzog - respectivamente mãe, esposa e filhos do jornalista - pela falta de investigação, julgamento e punição dos responsáveis pelos crimes "cometidos em um contexto sistemático e generalizado de ataques a população civil".
A corte também condenou a aplicação da Lei da Anistia e de outros mecanismos de exclusão de responsabilidades proibidos pelo direito internacional em casos de crime contra a humanidade.
De acordo com a sentença, o Estado brasileiro deve pagar US$ 20 mil à Clarice Herzog, pelos gastos com processos judiciais "diante de tribunais nacionais e das 100 instâncias internacionais durante 20 anos". Também devem ser pagos US$ 40 mil a cada um dos 4 familiares por danos imateriais causados pelo sofrimento durante as últimas décadas. Como Zora faleceu em 2006, o valor deve ser repassado a seus descendentes.
Caberá ainda o pagamento de US$ 25 mil ao Centro de Justiça e Direito Internacional (Cejil), ONG responsável pela defesa dos direitos humanos na Corte, e de US$ 4.260,95 ao Fundo de Assistência Legal de Vítimas da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
O Estado brasileiro tem um ano após ser notificado da sentença para informar ao tribunal sobre as medidas adotadas. Em seguida, o processo será supervisionado pela Corte.
Uma semana após o assassinato, mais de 8 mil pessoas participaram de um culto ecumênico na Catedral da Sé, em São Paulo.
As violações contra Vladimir Herzog se tornaram símbolo da ditadura militar. Uma semana após o assassinato, mais de 8 mil pessoas participaram de um culto ecumênico na Catedral da Sé, em São Paulo.
Em 24 de outubro de 1975, agentes do Exército convocaram Vlado para prestar depoimento sobre ligações com o Partido Comunista Brasileiro, que atuava na ilegalidade durante o regime militar. No dia seguinte, ele foi espontaneamente ao prédio do DOI-CODI, onde prestou depoimento em que negou qualquer relação com o partido.
À época do crime, a morte do jornalista foi oficialmente explicada como um suicídio, supostamente praticado com um cinto amarrado ao pescoço dele e preso a uma janela da cela DOI-CODI. Chegou a ser divulgada uma foto de Vladimir morto. Posteriormente, o autor da imagem, Silvaldo Leung Vieira confessou a "farsa do suicídio".
Em 1978, a Justiça brasileira, em sentença proferida pelo juiz Márcio José de Moraes, condenou a União pela prisão ilegal, tortura e morte de Vladimir Herzog. Em 1996, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos reconheceu oficialmente que ele foi assassinado e concedeu uma indenização à sua família, que não a aceitou, por julgar que o Estado brasileiro não deveria encerrar o caso dessa forma.
O atestado de óbito só foi retificado mais de 15 anos depois. Em 2012, a Justiça de São Paulo determinou a alteração do motivo da morte de "asfixia mecânica" para "morte que decorreu de lesões e maus-tratos sofridos na dependência do II Exército de São Paulo (DOI-CODI)". A mudança foi feita após pedido da Comissão da Verdade, por solicitação da família do jornalista.
À época do crime, a morte do jornalista foi oficialmente explicada como um suicídio, supostamente praticado com um cinto amarrado ao pescoço dele e preso a uma janela da cela DOI-CODI.
Crime contra a humanidade
O caso chegou à Corte Interamericana de Direitos Humanos porque o Estado brasileiro não realizou não realizou as investigações pela morte do jornalista, mesmo após relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) determinar a investigação, o processamento e a punição dos envolvidos.
A Corte é um órgão judicial autônomo, criado pela OEA (Organização dos Estados Americanos), para interpretar e aplicar tratados de Direitos Humanos, entre eles a Convenção Americana de Direitos Humanos.
No Brasil, houve 3 tentativas de investigação do caso. A primeira, logo depois do crime, pela própria Justiça Militar, concluiu pelo suicídio do jornalista. Na segunda, em 1992, o Ministério Público do Estado de São Paulo pediu a abertura de um inquérito com base em novas informações, mas o Tribunal de Justiça decidiu pelo arquivamento, com base na Lei da Anistia. Em 2009, houve ainda uma tentativa do Ministério Público Federal, que também resultou em prescrição.
Promulgada em 1979, a Lei da Anistia reverte punições aos cidadãos brasileiros que, entre 1961 e 1979, foram considerados criminosos políticos pelo regime militar. No entendimento da Comissão Nacional da Verdade, contudo, a lei não poderia incluir agentes públicos que realizaram crimes como detenções ilegais e arbitrárias, tortura, execuções, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres, pois tais violações são incompatíveis com o direito brasileiro e considerados crimes contra a humanidade, não passíveis de anistia.
A norma ganhou força, contudo, em 2010, quando o STF (Supremo Tribunal Federal) confirmou a interpretação vigente de que, em função de um acordo político, a Anistia beneficiou tanto os perseguidos políticos quanto os agentes de Estado e particulares que os perseguiram.
Neste cenário, em dezembro de 2007, o procurador regional da República, Marlon Alberto Weichert, do estado de São Paulo, ofereceu uma representação à Corte Interamericana de Direitos Humanos em que pede a apuração dos crimes contra Vladimir Herzog.

(Publicado in NOTÍCIAS - 4/7/2018)











sexta-feira, 15 de junho de 2018

“POEMAS FORTUITOS & PROSAS SINGELAS”: POESIA E PROSA, ANTES DE TUDO, HUMANA*



Não gosto de poesia extremamente técnica e fria, gosto de emoção. Gosto de ouvir pessoas contarem suas vidas sem lapidarem seus sentimentos. Gosto daquilo que é sincero e puro. Gosto do que é humano.
Em “Poemas fortuitos & Prosas singelas”, (Editora São Gerônimo), a poesia de Nívea Reis é assim: pura e sincera, sem preocupações estéticas. Apenas nos diz o que vem da sua alma. Por isso, emociona. Se há rimas, elas são espontâneas e essa espontaneidade dá uma certa beleza aos seus versos. Confesso que gosto e muito dos versos de Nívea Reis.
Sua poesia antes de tudo tem sinceridade e fala com humanidade. É um desabafo em versos. Vi muito isso em Manoel Bandeira: “Por trás da indignação,\Desejo de melhorar.\Por trás da agressividade,\Desejo de me defender.\Por trás da insegurança,\Desejo de ser protegida.\Por trás do mau humor,\Desejo de ser feliz.\Por trás de tudo isto,\Desejo de amar e ser amada!”
O sabor e a leveza que vêm na sua poesia, nos lembra uma criança a nos dizer coisas, dessas que nos surpreende a cada instante. E a verdadeira poesia, assim como as crianças, são puras de coração. Os poemas deste “Poemas fortuitos & Prosas singelas” são pérolas sem lapidação, aquelas que não precisam porque já nascem cobertas de beleza natural. Daí a sua força a nos dizer verdades.
A vida do poeta é diferente. É uma vida de questionamentos, já que sua percepção vai além dos que não carregam em si, a sensibilidade. E esse fato que diferencia o poeta está justamente no que lemos em sua obra: “Senhor, permita me saber,\Porque há no mundo tanta dor,\Porque há no mundo tanto sofrer\Se o Senhor é todo amor?\Quantas tragédias aconteceram\Quantos crimes hediondos\O Cristo em abandono\Quantos mártires pereceram...\Ó! Senhor de todos os corações\Não permitas que todos os dias\Tantos inocentes em orações\Continuem perdendo suas vidas\Ó! Senhor Absoluto\Permita que doravante\Todos os teus filhos em luto\Vislumbrem um futuro brilhante!”
Na segunda parte do livro observamos sua poesia mais próxima daqueles que verdadeiramente ama: uma poesia mais íntima e que por assim ser, traz em suas palavras, a proximidade com o leitor. Taí a sua maior grandeza: dividir sua alma com quem está mais próximo.
Mais além, em “Pensando nele...” descobrimos em sua intimidade, o amor. Aqui, a poeta se desnuda sem pudor e sem receios e abre seu coração apaixonado. E qual ser humano nunca se apaixonou? Transformar esse sentimento em poesia, isso cabe aos poetas e Nívea Reis sabe como poucos, realizar esse feito:“Mais uma vez me inspiro\Na tua imagem duradoura\A qual me arranca suspiros\Numa paixão imorredoura\Quero de relance lhe propor\O que para mim é um prazer\Provar o doce mel do amor\Que dos teus lábios está a correr\Mas algo me faz ponderar\É preciso paciência\ É preciso esperar\Algum dia hás de descobrir\Quão puro é o meu amor.”
Em “Prosas singelas” que encerra o livro, descobrimos uma prosadora que faz reflexões vívidas e vividas em seu dia a dia. Nas duas únicas crônicas escritas em inglês, nas quais percebemos que a autora vai além da sua língua pátria,
escrevendo com naturalidade nesse idioma, ela nos diz de seus desejos de outrora, quando queria ser como artistas que tanto admira, mas que hoje se sente feliz em ter vivido essa ilusão de criança, assim como também nos faz refletir sobre a mocidade e a velhice, que as duas podem (e devem) caminhar juntas. Aqui, sua emoção vai além e diz o que tem de dizer, apenas pelo fato de ser, antes de tudo, um ser humano pensante.
“Poemas fortuitos & Prosas singelas” é isso, um livro para se ler sem pretensões, mas apenas num desabotoar de sentimentos, deixar-se invadir pela poesia humana, essa poesia de Nívea Reis.
Contato: niveaescola@hotmail.com(31) 996269880

*Prefácio do livro escrito por mim.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

ARTIGO DA MINHA AMIGA DALVA SILVEIRA. LEIAM COM CARINHO.



Compartilho com você o Suplemento do Jornal Literarte, de março de 2018, dedicado à publicação do artigo “Geraldo Vandré em João Pessoa: um concerto e um encontro de puro sentimento e arte!”, que escrevi com muita alegria! Ter participado de um momento muito esperado e que considero muito importante para a história da cultura brasileira, me trouxe muito conforto e esperança, num tempo de tantos rancores e dissabores! Espero que você tenha a mesma sensação ao ler o texto! Salve a poesia e a música brasileira!
Abraços,
Dalva Silveira

Preâmbulo       

Em 1968, no auge de sua carreira, com a consagração da música “Pra não dizer que não falei das flores”, o compositor Geraldo Vandré tornou-se um ícone daquele período histórico, mas, também, alvo de perseguições políticas. Em excursão pelo Brasil, apresentou-se em território brasileiro, pela última vez, no dia 12 de dezembro de 1968, em Goiás. Lá saberia do ato institucional, promulgado no dia seguinte, e, ao ter consciência dos riscos que corria, entrou em seguida na clandestinidade. Em fevereiro de 1969, o artista partiu para o exílio. Em 1973, ao retornar para o Brasil, encerrou prematuramente sua carreira musical. Agora, nos dias 22 e 23 de março de 2018, o artista voltou aos palcos no Brasil depois de 50 anos, em apresentação histórica em João Pessoa, sua cidade natal.  Dalva Silveira teve o prazer de estar presente nestes memoráveis eventos e descreve essa sua experiência em artigo emotivo e reflexivo, escrito no calor dos acontecimentos.
Em 1968, no auge de sua carreira, com a consagração da música “Pra não dizer que não falei das flores”, o compositor Geraldo Vandré torna-se um ícone daquele período histórico, mas também alvo de perseguições políticas e parte para o exílio. Em 1973, ao retornar para o Brasil, encerra prematuramente sua carreira musical. Com base na seleção e análise de 68 matérias sobre o cantor, publicadas em jornais e revistas brasileiras, de 1966 a 2009, este trabalho propõe abordar as contribuições da mídia impressa brasileira para que ocorresse uma espécie de mitificação do cantor Geraldo Vandré e a associação de sua imagem às ideias de protesto.
Vandré é, ao mesmo tempo, uma figura exemplar e singular: é um caso típico do artista envolvido com a contestação ao regime militar entre os anos de 1964 e 68, perseguido, censurado, exilado e repatriado. Mas, diferentemente de outros, como, por exemplo, Caetano Veloso e Gilberto Gil, que, como ele, passaram pelo mesmo processo sócio-histórico, o compositor não retornou à carreira artística e transformou-se em uma figura controversa.
Geraldo Vandré é, ao mesmo tempo, uma figura exemplar e singular: é um caso típico do artista envolvido com a contestação ao regime militar entre os anos de 1964 e 68, perseguido, censurado, exilado e repatriado. Mas, diferentemente de outros, como, por exemplo, Caetano Veloso e Gilberto Gil, que, como ele, passaram pelo mesmo processo sócio-histórico, o compositor não retornou à carreira artística.
Geraldo Vandré em João Pessoa: um concerto e um encontro de puro sentimento e arte!

Dalva Silveira*

Torno público agora um texto escrito no calor dos acontecimentos e preenchido por impressões e sentimentos pessoais acerca da cidade, do histórico concerto e do encontro com o memorável artista. Esses eventos, por serem extremamente sensíveis, estão longe de ser completamente dizíveis. Sendo assim, tentarei compartilhar um pouco de minhas lembranças sobre esses momentos valorosos de minha vida.
Chegamos a João Pessoa no entardecer do dia 21 de março de 2018 e presenciamos um apagão que assolou partes das regiões Norte e Nordeste do Brasil. Mas posso dizer que se a entrada na aconchegante cidade se deu no escuro, todo o transcorrer da visita foi preenchido por muita luz.
No dia 22 de março, durante o dia, senti-me energizada pelo compartilhamento de ideias entre um grupo de cinco admiradores do artista Geraldo Vandré que se dirigiram a João Pessoa para assistir ao concerto. Éramos duas mineiras, eu e minha adorável irmã, Márcia Maria, e três queridos paulistas, a saber: Sonia Chébel, guardiã de uma gravação histórica do compositor ainda dos anos de 1960, seu esposo, Alceu Sparti,e o escritor Vitor Nuzzi. Nós nos unimos através da obra do Vandré. Também me revigoraram a leveza dos pessoenses e um“céu fundo e um mar bem largo”, muito bem traduzidos por Geraldo Vandré,  que preenchem a hospitaleira cidade.
À noite, inicialmente, senti-me encantada pelo monumental e moderno Centro Cultural José Lins do Rego e acolhida pela confortável Sala Maestro José Siqueira, com capacidade para apenas 570 pessoas. O local, escolhido de modo coerente pelo artista,  além de ter dado um tom intimista ao evento, fugiu  aos padrões dos shows que refletem a arte de consumo e a cultura de massas, temas que vêm sendo criticados por Geraldo, que se apresentou em espetáculo gratuito.
Maior encanto foi se dando com o decorrer da apresentação do Recital intitulado  “Música e Poesia da Capitania de Wanmar”, que  transbordou muita poesia.No primeiro ato, Geraldo Vandré, sempre afável e carinhoso com a amiga, pianista e cantora Beatriz Malnic, agradeceu-lhe e atribuiu a ela a possibilidade de expressar a sua arte. Iniciou-se a noite com um dueto em que se percebeu muita entrega e sintonia entre os intérpretes. Ao ouvir a voz do compositor, fui tomada por um sentimento nostálgico que me remeteu às performances de suas apresentações durante os anos de 1960. Sua voz contundente e forte estava em sintonia com um tempo de idealismo, paixão pela arte e crença numa transformação e num futuro promissor para o país. A pianista, por sua vez, apresentou voz doce e contagiante, criando uma maviosidade única. Os dois cantaram algumas composições, com destaque para “À minha pátria”, canção que muito me emocionou e foi repetida ao final do recital, devido aos pedidos de “mais um”.  O cantor, numa entrega total, também declamou alguns poemas, acompanhado pelo compositor e instrumentista AlquimidesDaera, que dedilhou, com muito sentimento, ora um violão e ora uma viola caipira. Em seguida, Beatriz tocou ao piano quatro cantinelas, feitas em parceria com Vandré, momento que me levou ao encontro de aprimoração artística e serenidade.  
A plateia também foi agraciada por um segundo ato, com o majestoso conjunto de sons da Orquestra Sinfônica da Paraíba que, sob a regência do maestro Luiz Carlos Durier e arranjos de Jorge Ribbas, artista que tive o prazer de conhecer e compartilhar conhecimentos, apresentou, juntamente com o esplêndido Coro Sinfônico da Paraíba, regida por Daniel Berg, as composições “Fabiana”, “À minha pátria” e a simbólica “Pra não dizer que não falei das flores”. Essa, conhecida popularmente como “Caminhando”, foi cantada pelo próprio compositor, num dos momentos mais emblemáticos do espetáculo. Porém, para mim, o momento mais significativo da noite se deu no seu fechamento, quando Darlan Ferreira,amigo e produtor musical  do compositor, entrega-lhe uma bandeira do Brasil, em que na faixa central vê-se escrito,  no lugar de "Ordem e Progresso", a expressão  “Somos todos iguais”, convite à uma reflexão sobre um dos maiores males do país e que, no meu entendimento, gera o caos em que nos vemos afogados: o egoísmo nas relações cotidianas e a enorme desigualdade social que assola a nossa pátria. Convidada por Geraldo, tive o enorme prazer de assistir novamente ao espetáculo no dia seguinte, 23 de março, e desses dois momentos trago comigo impressões em torno de diversidade artística, comprometimento, seriedade, espontaneidade, entrega e partilha.
Darlan Ferreira, muito atencioso, comunicou sobre um encontro que aconteceria entre eu, juntamente com os outros quatro admiradores do compositor, e Geraldo Vandré, durante a manhã do dia 23. Esse, assim como o recital, me proporcionou profícuas lições que levarei comigo para sempre. O longo bate papo, que transbordou sinceridade, foi acompanhado pela brisa matutina e deu-se em frente ao mar de águas cristalinas, iluminado pelo sol radiante e singular de João Pessoa. O artista, de modo descontraído, trouxe à tona memórias de sua infância, da vida escolar, de sua relação afetiva com o pai e com os amigos,de seu amor à Paraíba e de seu exílio. De nossa conversa, além de várias reflexões, ficou uma bela imagem do artista, uma pessoa simples, de extrema inteligência e conhecimento, que preza valores que eu considero imprescindíveis, tais como coerência, honestidade, sinceridade, família, amizade e conhecimento.
 Algumas expressões do compositor ficaram gravadas na memória, como a máxima “o mundo não tem lógica”. Para mim, talvez essa consciência da irracionalidade das coisas pode ter sido determinante para que o cantor se apartasse do mundo e voltasse para dentro de si mesmo, lugar onde devemos procurar todas as respostas que procuramos.
O encontro me proporcionou uma felicidade ainda mais especial: a avaliação positiva que o artista fez de minha obra, considerada por ele muito rica em informações e, dos livros escritos sobre ele, “o mais honesto”. Prezo muito esse adjetivo! Nesse momento, senti-me leve e emocionada, por concluir que havia alcançado o meu maior objetivo, ao dedicar, com paixão e sinceridade, seis anos de minha vida em pesquisas sobre a trajetória do compositor: escrever uma obra respeitosa, na contramão de muitos julgamentos rasos e irresponsáveis com os quais me deparei.  Tentei apresentar uma análise cuidadosa, histórica e sociológica que tentasse explicar os fatores que levaram esse compositor ímpar a interromper prematuramente sua carreira artística. Então, lamento a consequente perda cultural para a sociedade brasileira ocasionada pelo seu afastamento do cenário musical brasileiro por quase 50 anos. Acho que o Geraldo tem razão quando diz que “o mundo não tem lógica”. Concluo este depoimento com uma breve análise subjetiva sobre a letra de uma canção, uma de minhas preferidas, cuja temática é o amor: “Pequeno concerto que ficou canção”. A composição, talvez, possa auxiliar na tentativa de encontrar um sentido para o fato de o compositor ficar tantos anos sem cantar em público:

“Não
Não há por que mentir ou esconder
A dor que foi maior do que é capaz meu coração
Não
Nem há por que seguir
Cantando só para explicar
Não vai nunca entender de amor
Quem nunca soube amar.
Ah...
Eu vou voltar pra mim
Seguir sozinho assim
Até me consumir
Ou consumir
Toda essa dor
Até sentir de novo
O coração
Capaz de amor.”

Para mim, o recital e o encontro foram a mais pura demonstração de um coração “capaz de amor”. 

* Doutora e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP; Graduada em História pela UFMG; Especialista em Ensino Técnico pelo CEFET-MG. Autora do livro Geraldo Vandré: a vida não se resume em festivais (Fino Traço). E-mail: dalvasilveira@yahoo.com.br.

           




                       

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

HOMENAGEM: ANGÉLICA VILLELA SANTOS

Recebi com tristeza a notícia do encantamento da escritora Angélica Villela Santos (nome literário de Angélica Maria Villela Rebello Santos). Natural de Guaratinguetá-SP, Angélica residia em Taubaté-SP.
Diretora aposentada de escola estadual. Co-fundadora da Academia Taubateana de Letras (ATL) em 1999, da qual foi membro titular, Cadeira 40. Membro titular da Academia Valeparaibana de Letras e Artes (AVLA) de Taubaté. Membro da UBT - Seção de Taubaté.  04 livros publicados. Vários prêmios em concursos de contos, crônicas, trovas, haicais e haicus. Título de Consulesa pela Real Academia de Letras de Porto Alegre-RS. Título de Mestre da Trova pela UBT-Seção de Tremembé-SP. Título de Cidadã Taubateana, pela Câmara Municipal de Taubaté. Foi consórcia da Sociedade de São Vicente de Paulo (Conselho Central de Taubaté da SSVP).
Angélica Villela Santos participou dos volumes 2 e 3 da coletânea “Cena Poética”, organizada por mim. Faleceu em 22 de junho de 2017 sem conhecer em vida, o volume 3 da coletânea da qual participou, mas tenho certeza que ela está agora, lendo-a sentada nas nuvens.
Abaixo poemas de Angélica Villela Santos publicados na coletânea “Cena Poética” volumes 2 e 3.


GLOSA
TROVA A SER GLOSADA
DE MARIA JOSÉ FRAQUEZA – PORTUGAL

No universo desta vida...
Natal - um astro de luz
Na mensagem renascida,
No caminho de Jesus!

GLOSA
DE ANGÉLICA VILLELA SANTOS - BRASIL

NO UNIVERSO DESTA VIDA...
Uma mensagem nasceu,
trazendo paz e acolhida
àquele que nela creu.

No presépio pequenino,
NATAL - UM ASTRO DE LUZ
é o símbolo divino
da presença de Jesus.

Sustentáculo da vida,
devemos ver com fervor
NA MENSAGEM RENASCIDA
que nos trouxe o Salvador.

A luz que vem do Natal
com firmeza nos conduz
na trajetória ideal
NO CAMINHO DE JESUS!

SENTENÇA

O final do nosso amor
por tão fútil desavença,
condenou-me à eterna dor,
foi pra mim cruel sentença.

A sentença que teus olhos
com eloquência proferiram,
lançou-me em cela de abrolhos,
onde os sonhos sucumbiram.

Se uma sentença condena
um amor como pecado,
mostra um juiz que não tem pena
das penas do apaixonado.

TROVAS HUMORÍSTICAS

Num velho espelho rachado,
o vaidoso moço olhou;
vendo-se todo enrugado,
assustou-se e. desmaiou !

Com desculpa de usar venda,
a Justiça agora é assim:
o crime, passa por lenda
e "em pizza" tudo tem fim...

Nos dedos de deputado
a coceira se alastrou;
pra se ver livre, o "coitado"
o mensalão embolsou!

HAICUS

Gatinho
De trás dos caixotes,
gatinho assustado espia.
Só olhos e orelhas.

Andorinha
No beiral da casa
uma andorinha fez ninho.
Abrem-se biquinhos.

Borboleta
Pousada na flor,
borboleta colorida
vai sugando o orvalho.

Sete de setembro
Desfilam na praça
bandas marciais e soldados
Sete de setembro.                                .

Sorvete
Enfeita o sorvete
belo morango maduro.
Tarde de verão.
Mandacaru
Sertão nordestino.
Mandacaru solitário
enfeita a paisagem.


Trio elétrico
Puxa a multidão
animado trio elétrico.
Já é Carnaval!

Pitangas
Pitangas maduras
enfeitam o chão de vermelho,
atraindo pássaros.

TROVAS
                                 
A lua cheia é artista
que em sombras pinta uma tela
de beleza nunca vista
e só mostrada por ela.

Um bom livro nos envolve,
dá prazer e distração;
é um amigo que dissolve
o amargor da solidão !

Dança a nuvem, descuidada,
ignorando a sua sina.
Porém, depois, já pesada,
morre, em chuva repentina...

A Serra da Mantiqueira
quando de azul revestida,
lembra o manto da Padroeira,
a Senhora Aparecida!









sexta-feira, 24 de novembro de 2017

ESQUECIDO, SÉRGIO SAMPAIO FARIA 70 ANOS

Caso ainda estivesse entre nós, o compositor Sérgio Sampaio estaria comemorando 70 anos 2017. Mas esse fato infelizmente passou despercebido do grande público e da mídia em geral. Talvez um dos cinco mais importantes compositores brasileiros de todos os tempos, Sérgio Sampaio foi pouco valorizado quando ainda estava entre nós.
Nascido na mesma cidade natal do Rei Roberto Carlos, em Cachoeiro do Itapemirim\ES, em 13 de abril de 1947, Sérgio Moraes Sampaio, filho do maestro da banda de música e fabricante de sapatos Raul Gonçalves Sampaio (1900-1992) e da professora primária Maria de Lourdes de Moraes (1916-1990), teve infância humilde, na casa nº 65, da Rua Moreira.
No final de 1967, foi com a cara e a coragem para o Rio de Janeiro, tentar a vida como artista. Na cidade maravilhosa conheceu Raul Seixas, então produtor musical da CBS, que sentiu seu talento e lhe abriu as portas. Além de vários compactos simples e duplos, em 1971 participou de um disco revolucionário, ao lado de Raul, Edy Star e Miriam Batucada, intitulado “Sociedade da Gran Ordem Karvenista apresenta sessão das dez”, gravado quando os diretores da gravadora estavam viajando e retirado do mercado após a volta dos mesmos.
Em 1972, Sérgio ganhou fama nacional com a participação no Festival Internacional da Canção, com a marcha-rancho “Eu quero é botar meu bloco na rua”. Neste mesmo ano lançou pela Phonogram, o LP homônimo, que fez bastante sucesso. Em 1976 saiu pela Continental, seu segundo LP “Tem que acontecer”. De temperamento forte e difícil, além de boêmio inveterado, teve a portas fechadas pelas gravadoras, tornando-se mais um dos chamados popularmente de “malditos”. Em 1981 compôs para o LP “Mulher” de Erasmo Carlos, uma das mais belas pérolas da nossa MPB, intitulada “Feminino coração de Deus”. Em 1982, financiado por amigos e pela família, lançou independente o LP “Sinceramente”, que teve pouca vendagem e boas críticas.  Com a falta de perspectivas, ganhou a vida fazendo esporádicos shows.
No começo de 1994, foi convidado pelo selo independente Baratos Afins para gravar um disco de inéditas, o que o deixou muito feliz. Mas às cinco horas da manhã do dia 15 de maio daquele ano, veio a falecer por causa de uma pancreatite, devido à vida desregrada a álcool em que vivia.
Em 1998 o compositor Sérgio Natureza produziu o CD “Balaio do Sampaio” com participações do próprio cantando “Eu quero é botar meu bloco na rua” e participações de Chico César, Erasmo Carlos, João Bosco, Zeca Baleiro, Zizi Possi, Lenine, João Nogueira, Eduardo Dusek, Renato Piau, Jards Macalé, Luiz Melodia e Elba Ramalho. Em 2005, Zeca Baleiro produziu o CD póstumo “Cruel”, com músicas inéditas.
Considerado um dos maiores gênios musicais da nossa MPB, Sérgio Sampaio está sendo redescoberto por quem aprecia o melhor da música brasileira. No livro “Eu quero é botar meu bloco na rua - biografia de Sérgio Sampaio” (Edições Muiraquitá-2000), escrito por Rodrigo Moreira, hoje raridade, mas que poderá ser encontrado nos melhores sebos do país. O escritor e jornalista Caio Fernando Abreu, numa crônica publicada em 24\07\1994 no jornal O Estado de São Paulo, definiu: “Sérgio era um pós-tropicalista, uma espécie de elo entre Mutantes, Tom Zé, e o que de melhor veio depois – Cazuza, Lobão, Ângela Rorô, Raul Seixas, que ele adorava, todos sofreram sua influência. Gravou três ou quatro LPs malditos, era rebelde demais para se sujeitar à caretice das gravadora. (...) Como Torquato Neto, é uma figura perfeita para ser ressuscitada, mitificada e, claro, vendida. No além, Sérgio vai rolar de rir...”
Hoje, Sérgio Sampaio é regravado por cantores que buscam suas canções.
E quem quiser conhecer a genialidade de Sérgio Sampaio, é só buscar no yourtube o que há de melhor desse cara.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

BIOGRAFIA DE UMA REVISTA (NAQUELES TEMPOS DA ARTE QUINTAL)

No momento estou escrevendo meu próximo livro para 2018. Trata-se da história de uma revista criada por mim e outros amigos em 1983 e que, mesmo sem internet naquela época, tornou-se conhecida como referência cultural nacionalmente. Revelamos vários artistas desconhecidos, alguém famoso na capa para vender e o leitor levando a revista, leria entrevistas com esse alguém de renome e o outro alguém desconhecido. Artistas de todo o país quando vinham à capital mineira, visitavam três lugares: o Palácio das Artes, o Suplemento Literário do Minas Gerais e a Revista Arte Quintal, cuja sede ficava na Rua Carijós, 150 – Sala 803. A revista fechou as portas em 1992, em pleno Plano Collor. Abaixo trechos deste livro, ainda sem revisão, para a leitura dos curiosos. (Rogério Salgado)

“Neste ano de 1982 conheci Ecivaldo John, que morava na Av. Gal. Olímpio Mourão Filho nº 122, apartamento 101 A, no Planalto, local que seria o primeiro endereço do futuro jornal que ele iria criar comigo. Conheci depois Virgínia Reis e começamos a namorar com certo entusiasmo de juventude, pois apesar de estar nos meus 28 anos, era de certa maneira, um adolescente. Eu entusiasmado por namorar uma estudante de medicina bem bonita e ela por namorar um poeta. Dizem que até hoje não envelheci, por causa do frescor da juventude que levo dentro de mim.
Juntamos meu sonho com a garra que ela tinha e a alegria e entusiasmo do Ecivaldo. Num dos nossos primeiros encontros, fomos eu, ela e Ecivaldo numa corrida de Motocross na Serra do Cipó, ver velocidade e poeira misturar-se aos nossos ideais. Decidimos então, fazer pedágios em semáforos e vendermos rifas nas imediações do bairro, para juntar dinheiro. A gente deixava de curtir nosso fim de semana, para nos dedicarmos e essa empreitada. Cada pessoa que nos ajudava nos pedágios ou comprando nossa rifa, recebiam um folheto com o texto escrito por nós três (...).
O número zero saiu dia 13 de março de 1983. Fizemos um lançamento no bar Nós Todos. Só que dessa vez, foi um sucesso, pois o local ficou lotado. Todos queriam conhecer aquele novo jornal-revista que trazia uma proposta nova, diferente.
A partir do dia seguinte, saímos vendendo de mão em mão nos bares, nas noites da capital mineira. Este nº zero vinha com uma arte na capa feita pelo Clifor Andrade, um garoto talentosíssimo de apenas 15 anos e que atualmente é um senhor dentista, com consultório no bairro Planalto. Lembro que sua mãe ficou decepcionada, pois achava que seu filho iria receber pela arte para a nossa capa. Nós não tínhamos nem para pagarmos direito a gráfica, quanto mais para pagarmos ao Clifor pela sua arte. Ou seja, ficou na colaboração.
Na capa tinha um desenho do Charles Chaplin, o homenageado desta edição.(...)
E assim seguimos com nossa vontade de não deixarmos a peteca cair. E para a edição de nº 2 Wagner sugeriu Marco Antonio Araújo, um músico instrumental mineiro, que estava sendo reconhecido nacionalmente. Virginia sugeriu Sara Amorim que era a editora do jornal Nossa Música, a qual muitos achavam que éramos concorrentes e para quebrar essa barreira, fizemos uma matéria com a Sara na nossa revista e ela fez uma matéria conosco para a sua revista, tipo uma troca de gentilezas. Meu amigo jornalista Adair José nos ofereceu uma entrevista que ele tinha feito com a artista plástica Yara Tupinambá, a qual aceitamos de bom grado e Wagner sugeriu Rubinho do Vale. Nesta edição, logo abaixo do editorial escrevemos um texto falando sobre as eleições diretas em 1985. Ali, quase sem perceber, começávamos a nos envolver politicamente. Dedicamos a edição a John Lennon e incluímos a letra de “Imagine” traduzida. Nesta época, vários artistas mineiros, incluindo nós da Arte Quintal, já nos reuníamos no Teatro Marília e na sede da Apated para discutirmos as eleições diretas. Queríamos um presidente que fosse eleito por nós, mesmo se errássemos ou acertássemos, queríamos ser os donos da história e naquele finalzinho de ditadura, ainda éramos impedidos de criarmos o futuro desse país. Queríamos o verdadeiro sentido da liberdade correndo em nossas veias.(...)
Dia 27 de agosto de 1991, apesar das estarmos passando sérias dificuldades, fizemos um show no extinto Cabaré Mineiro, para comemorar os oito anos da Arte Quintal, com a presença de músicos e poetas que doaram a bilheteria para ajudar a Editora. Foram eles Marku Ribas, Ladston do Nascimento, Cynthia Martins & Marcus Bolivar, Sheyla Araújo, João Bosco & Ilca e Zé Baliza & Bajaré. João Boamorte não compareceu por problemas de saúde, vindo a falecer logo depois. O jornal Minas Gerais publicou matéria sobre o evento.
E foi aí que o Wagner teve a idéia de dar uma última cartada: a produção de uma antologia de contos mineiros intitulada “Flor de vidro”, título de um conto inédito de Murilo Rubião, gentilmente cedido pela sua família para nos ajudar, assim como dos outros autores que abriram mão de seus direitos autorais. O livro considerado uma importante reunião de autores mineiros, desde veteranos a estreantes teve seu lançamento oficial no Projeto Minas Escreve, da Caixa Econômica Federal dia 16 de dezembro de 1991, mas poucos exemplares foram vendidos, apesar de sua enorme importância para a literatura brasileira, como um divisor de águas na editoração de livros de contos na história da literatura nacional. Foram 48 autores entre desconhecidos e consagrados, numa reunião de quatro gerações, juntando realismo fantástico, pop, erótico, impressionismo, pós-moderno, num livro que marcou uma época. Organizado pelo Wagner com uma pequena ajuda minha (...)”


quinta-feira, 22 de junho de 2017

GRUPO MAMBEMBE; GRANDES CANÇÕES E EVENTOS QUE VIRARAM HISTÓRIA


Em 1983 recebi das mãos de Cadinho Faria, o compacto “Sementes da Canção” para escrevermos algo numa revista que estávamos ainda lutando e sonhando em torná-la realidade. A canção “Rio Araguaia”, parceria de Cadinho Faria e Toninho Camargos, que com lirismo e metáforas, falava em plena época de censuras prévias, da Guerrilha do Araguaia, numa homenagem a Idalísio, jovem de apenas 18 anos e que desapareceu nessa guerrilha, mexeu comigo na época. Essa canção me fez chorar sem saber o porquê. E este pequeno compacto foi a primeira nota que escrevemos para a referida revista.
Uma das realizações mais importantes e oportunas que aconteceu em 2016 foi a publicação do livro “Grupo Mambembe: Pequena história que virou canção” (Mundo Produções-Recanto das Letras) de Toninho Camargos. Trata-se do resgate de um dos Grupos mais importantes que surgiram na cultura mineira (e por que não, nacional!), um relato sobre o Grupo Mambembe (cujo nome veio de uma canção do Chico Buarque), que se dedicou a um trabalho da maior importância cultural neste estado, entre 1974 e 1982.
O livro resgata em suas memórias, a época dos festivais, eventos que revelaram nomes hoje importantes para a música brasileira. Formado por, entre outros, Toninho Camargos, Cadinho Faria, Titane (que ainda se chamava Ana Íris), Ligia Jacques, Rogério Leonel, Murilo Albernaz, Luiz Henrique de Faria, Miguel Queiroz, Lincoln Cheib, Aldo Fer­nandes, Alysson Lima, Antônio Martins, Cláudia Sampaio Costa, Eduardo Amaral, Edson Aquino, Hermínio de Almeida Filho, Lina Amaral, Marcílio Diniz e Pau­linho Mattar. A produção era feita por José Maria Caiafa. Figura importante também neste contexto foi o hoje, reconhecido nacionalmente, compositor Celso Adolfo e a concertista de piano Berenice Menegale.
A importância do Grupo Mambembe no cenário teatral mineiro e fora deste estado é de uma importância inquestionável, levando aos palcos trabalhos  cênico-musicais tais como: “A Revolta da Chibata”, “Conversa de Botequim-Filosofia da cerveja”, “De Xica a Xico” e “Divisor de Águas”. E levando a arte sem estrelismos, chegou a ousar levar para os palcos, Casquinha, um talentoso flautista de rua, pouco observado quando nas calçadas, tocava em troca de alguns trocados; assim como a participação em 1978 da “Semana do proibido”.
O Grupo mereceu elogios sinceros de pessoas importantes no cenário artístico, como o saudoso letrista Fernando Brant e Afonso Borges, realizador do “Sempre um papo”, um dos projetos literários mais importantes no momento para o país. O fim do Grupo Mambembe em 1982, coincidentemente ocorreu da mesma maneira que o EPC-Encontro Popular de Cultura, que em 1985 trouxe mais de dois mil fazedores de cultura deste estado, para a capital mineira: com a entrada do PCdoB-Partido Comunista do Brasil, o grande evento foi minguando até encerrar suas atividades.
Toninho Camargos é compositor e foi um dos fundadores do Grupo Mambembe. Assina com Luiz Henrique de Faria e Regina Coelho, o blog: “Noel Rosa – 100 canções para o centenário, disponibilizado na internet.
Realizado com recursos do sistema de financiamento coletivo por meio do site Catarse, acompanha o livro, um CD que reproduz o repertório do grupo gravado em sua época áurea, além da inédita “Tempo Mambembe” de Toninho Camargos e Cadinho Faria.
 “Grupo Mambembe: Pequena história que virou canção” além de um importante resgate histórico de um dos mais importantes grupos deste país tem uma narrativa gostosa de ler, levando-nos a voltar no tempo, naquele tempo que arriscar tudo pela arte, era a melhor forma de sermos felizes. Muito ainda poderia aqui comentar, mas deixo ao leitor o prazer de ler esse importante lançamento para a história da música e do teatro brasileiro contemporâneo.
Em tempo: lembram-se da tal revista que cito no início deste comentário: é a Revista Arte Quintal, que surgiria em 1983 e que após ficar conhecida nacionalmente, fechou as portas em pleno Plano Collor. Pois é, após ler “Grupo Mambembe: Pequena história que virou canção” me senti motivado a  escrever a história dessa revista, que em 2018 faria 35 anos de sua criação.
Contatos: vendasgrupomambem@gmail.com

Foto ilustrativa: Vânia Aroeira