terça-feira, 11 de abril de 2017

JESUS CRISTO CEGO

Este ano comemoro 30 anos da publicação de um dos livros mais importantes que escrevi. Trata-se de “Jesus Cristo Cego” (Editora Arte Quintal). A primeira versão foi escrita em 1975, sendo reescrito durante doze anos, até alcançar a versão final.
Com capa de Rique Aleixo de Brito, diagramação do autor, ilustrações de Juçara Costa e revisão de Vander Rabelo, o livro é dedicado à Ione Maria Kuya, Wagner Torres, Kátia Peifer e de maneira especial à Márcia Regina Ribeiro que “fechou os olhos”. No prefácio do poeta Leandro Lima, ele diz: “(...) Jesus Cristo Cego, a simpleza de um trabalho de profundidade aguda, faz-nos voar no leve alimentar de versos tão verdadeiros e sutis quanto o grande Richard Bach em Fernão Capelo Gaivota. O poeta, como poucos, consegue alcançar um objetivo almejado, porém, apenas pelos mestres atingido: a afirmação da realidade humana, sem ser banal, repetitivo e comum.(...)” O livro tem como abertura, uma epígrafe do poeta e escritor libanês Gibran Khalil Gibran.
“Jesus Cristo Cego” é um livro místico, de apenas 30 páginas, mas com um texto bem profundo e que foi lançado dia 13 de agosto de 1987, junto com Papoulas Caboclas Sobre Águas Virgens, do Wagner Torres, na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, em Belo Horizonte.  Abaixo, o texto na íntegra:

JESUS CRISTO CEGO*

“Uma vez a cada cem anos, Jesus de Nazaré se encontra com Jesus dos Cristãos, num jardim entre as colinas do Líbano. E conversam longamente. E cada vez, Jesus de Nazaré vai-se embora, dizendo a Jesus dos Cristãos: - Meu amigo, receio que nunca, nunca cheguemos a concordar.”
(Gibran Khalil Gibran)

Nasci onde nasce o sol
no lugar claro de um poente
no alto da última montanha
e lá vivi
até o dia em que o Criador
fez-me um ser no escuro
longe da luz
sem ter claridade.

E a vida fez-me um ninho
de atos miraculosos
um orfanato de precauções.

Senti meu sangue jorrar em poças
como rios que jorram lágrimas no mar
construindo ondas que formam
maremotos em noite de lua linda.

Em cada par
eu fui um impar...
Em cada veia
eu fui artéria...
E cada amor
eu fui um sexo banal...

... e em meio a tantos latidos
mordi as carnes
e calcanhares de mim mesmo...
... e hoje tento explicar
os por quês infinitivos.

Não temo a morte
pois a morte é um escuro
e o escuro eu o conheço.

Aqui
onde estou
apesar do breu que me cerca
sinto tantas coisas à minha volta.

Sinto a brisa
sinto o sol mesmo sem vê-lo
sinto você cochichar ao vizinho
que fulano está de pijama
que beltrano se veste mal
sem fazer de si mesmo um espelho
e saber que talvez você
seja uma boa parte deles.

Você, eu
todos nós
vivemos numa total escuridão
que é não saber
encarar a realidade.

O homem foge da mesma
como o diabo da cruz
e por mais que tentemos
esconder nossas faces
enrugadas sob uma máscara
a realidade continuará existindo.

Por que não olhá-la de frente
sorrir ou chorar para ela?
Medo?
De que adianta ter medo
de uma coisa que não muda?
A realidade é uniforme
e continuará sendo
tenhamos medo ou não.

Morri numa cruz
a qual nem sei a cor
num calvário
feito pelos animais.

Vi o Centurião cuspir-me a cara
e profanar-me a carne.
Mas não liguei
ele era um ser que enxergava:
tive pena do seu gesto medíocre.

Nasci no escuro.
Vivi no escuro.
Morri no escuro...
... mas voltarei na luz
Para iluminar os homens
POBRES SERES CEGOS.

(*Copyright © 1987: Rogério Salgado da Silva)


















Um comentário:

Araken Vaz Galvão disse...

Antes de falar alguma coisa sobre o livro de Rogério, que completa 30 anos da primeira edição (fato sobre o qual felicito o auto e dou meus parabéns), devo dizer não não sou místico e, tampouco, tenho alguma intimidade com poesia, motivo pelo qual nunca faço resenha sobre este tema.
Desta forma, peço licença para dizer que seus belos versos conseguiram emocionar este velho coração empedernido.