segunda-feira, 13 de abril de 2026

“FLORES DO DESERTO”: DE MÁRCIO CATUNDA. UM LIVRO PARA SE LER COM GOSTO, MUITO GOSTO.

Por Rogério Salgado

Não me arvoro a ser crítico literário, sou apenas um leitor que gosta de livros e comenta suas impressões sobre o que lê. E nesse contexto, não suporto livro de poemas os quais necessito de um dicionário ao lado ou horas de releituras para entender o autor. Poesia para mim é simplicidade, aquela que atinge quem a lê com facilidade e sensibiliza com seus versos. Vejo isso em Drummond, Bandeira e Quintana e agora nesse “Flores do deserto” (Ventura Editora) do poeta Márcio Catunda. Na minha leitura, senti como se estivéssemos numa sala a conversar e nessa conversa, eu entendesse cada frase, cada verso de seus versos.

O primeiro poema a chamar minha atenção foi “Um desagravo para Julian Assange”, editor-chefe da WikiLeaks, em 2010 eleito Personalidade do Ano pelos leitores da revista Time. Personagem real que foi condenado por conspiração e espionagem em tribunal federal nas Ilhas Marianas (território dos EUA no Pacífico) em 26 de junho de 2024, sendo libertado em seguida e retornando para sua casa na Austrália. “Martirizaram o revolucionário que revelou os/segredos das cloacas./O profeta pós-moderno é perseguido,/porque gritou “Abaixo a prepotência!”/Em nenhum lugar do mundo existe o direito de/exercer a oposição./Toda oportunidade de viver em paz é reprimida./Ninguém ousa dissuadir a intimidação./Ninguém protesta contra o castigo imposto/ao fugitivo da injusta miséria./As ovelhas obedientes aplaudem/os fabricantes da mercadoria mortífera,/elevam aos pedestais/os deuses da falsa numismática./ é da humanidade/que não reconhece a própria estupidez.” Poesia que passeia por variados temas, com a liberdade de se expressar, Márcio Catunda nos emociona a cada página virada deste excelente livro. No poema “Dia dos santos poetas” canoniza versejadores que deixaram sua marca e lembra um poeta português quase esquecido, poeta esse o qual considero o mais importante do século 20 em Portugal. Falo de Mário de Sá-Carneiro. Mais a frente, o poema “Mãos” nos diz: “A esquerda e a direita me tem sido úteis./Com a direita, escrevo e faço outras proezas./Com a esquerda, abro a porta com chave./Sei que as mãos, que tanto me ajudam a viver,/devem distribuir o bem/e procuro usar as duas mãos com essa finalidade./Uso as duas mãos, não desprezo nenhuma,/já que a

Natureza mas disponibilizou/para o trabalho da sobrevivência./Os cinco dedos em cada mão/são cinco ferramentas flexíveis/que trazem néctares à minha boca/e afugentam os ratos do meu deserto./Só tenho um certo cuidado em evitar a contramão.” Sem pudor e livre pra dizer, nos mostra uma “Elegia sobre a punheta” na qual nos diz que: “Tocar punheta é o cara literalmente se fuder./É um pugilato covarde: cinco contra um./Uma punheta vale por duas partidas de futebol./(...)” Encontramos sonetos perfeitos num poeta moderno, mostrando-nos que poesia não existe preconceitos e toda forma de poetar vale a pena. Parodia soneto de Camões, de Vinicius de Moraes, um poema de Ferreira Gullar, São Francisco de Assis, Manuel Bandeira, Olavo Bilac, Fernando Pessoa e seu heterônimo Álvaro de Campos, Gregório de Matos, Raimundo Correia, Cassimiro de Abreu, Augusto dos Anjos, Florbela Espanca, Bocage e Cecília Meireles. Se dá o direito de poetar em parceria com Agamenon Honório e Antônio Gutman.

No texto biográfico feito pelo jornalista e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, nos diz que: “Márcio Catunda é poeta, romancista, cronista, ensaísta, compositor, letrista e escritor, nascido em Fortaleza-CE. Formou-se em 1979 em Direito pela Universidade Federal do Ceará e em 1989, em Letras pelo Centro Universitário de Brasília (CEUB). Em 1985, ingressou na carreira diplomática no Instituto Rio Branco, em Brasília. Em função disso, morou em países como Peru, Suíça, Bulgária, República Dominicana, Portugal, Gana, Espanha e Argélia, tendo lançado livros em várias cidades do mundo. Publicou mais de 50 livros, alguns dos quais no idioma espanhol. Produziu também dez CDs de poemas musicados e cantados por diversos parceiros e DVDs – documentários com suas apresentações em teatros e outros centros de cultura. seus livros receberam galardões de algumas instituições culturais. O livro “Paris e seus poetas visionários”, pesquisa biográfica sobre 25 grandes poetas franceses, recebeu o Prêmio Cecília Meireles de 2021, da União Brasileira de Escritores (UBE), seção rio de Janeiro.”

“Flores do deserto” nos mostra poemas de uma belíssima simplicidade, desses que mexem com a sensibilidade do leitor, entre os quais me incluo e têm uma belíssima capa da competente Val Mello, orelha do poeta e ensaísta Anderson Braga Horta e contracapa do poeta e editor Jorge ventura, o qual nos revela que: “O leitor que acompanha a trajetória bem sucedida do escritor Márcio Catunda haverá de concordar comigo. Esta é, certamente, a sua obra mais despojada, irreverente e descontraída, e, nem por isso, não menos reflexiva e comprometida com o lirismo e a literariedade. Aqui, o seu deserto poético não é árido nem ermo, ao contrário, é florido e fértil, terreno apropriado para o cultivo do bom humor, da ludicidade da palavra, dos versos engajados, das questões existenciais e filosóficas. É aspecto dos mais sedutores, nesta presente edição, a pluralidade dos temas tão bem tratados por este autor singular.” Sim, concordo com essas palavras e digo mais: “Flores do deserto” é um livro que muito me agradou, feito para ler com gosto, muito gosto. Recomendo.

Finalizando, transcrevo o poema “Sobre as guerras” no qual nos mostra a que ponto chegamos com tantas batalhas pelo petróleo e terras alheias com a ganância do homem nesses dias atuais: “Perguntam-me de novo sobre as guerras./Digo que é coisa de gente rancorosa,/que tem a pretensão/de montar no jumento do comando/e possuir a verdade./Gente ranzinza,/cheia de complexo de inferioridade,/que valoriza mais a grana/ do que a amizade./Gente antissocial./Baixo-astral./A mais triste/ condição de um ser humano é a de homicida./Toda guerra é uma guerra de merda./E, o pior,/é que não conseguimos dar descarga./Das guerras, pouco digo:/Viva o desertor!”

Contato: marciocatunda@hotmail.com