sexta-feira, 19 de agosto de 2016

AUGUSTUS COTIDIANO E URBANDADE


Por Rogério Salgado

Quando em agosto de 2002, numa escola pública e marginalizada de Diadema – Eldorado\SP, o Grupo Divinos & Profanos, criados pelos alunos J.J. Arruda e Francisco Baker, que com o apoio da diretoria elaboraram e colocaram em prática o projeto Intervalo Poético, com a intenção de fomentar o hábito da leitura, talvez não imaginassem a importância desse trabalho para a história da literatura. Ao criarem o fanzine Augustus (pelo mês de agosto e homenageando o poeta Augusto dos Anjos). No inicio de 2003 o grupo agrega os poetas Ely Pires e Murillo Kollek, que participavam da oficina de literatura no Centro Cultural Inamar. E para mostrar a que vieram, o grupo agora lança a coletânea dos quatro poetas, intitulada: Augustus Cotidiano e Urbandade (Editora Celta).
Nota-se quatro poetas de estilos diferentes (cada um na sua), mas com uma questão em comum: usar a poesia como denúncia crítica e mostrar o mundo em que vivemos, onde o mais importante é o ter, e não o ser. E isso podemos notar neste ano de 2016, onde os interesses políticos valem mais do que os interesses do país, onde também culpamos muitas vezes defeitos governamentais, os quais cometemos no nosso dia a dia. Abaixo um pouco de cada poeta.
“Alimento,\bueiros putrefatos:\Papéis, Plásticos, Latas...\Amamento gastrite nervosa,\enquanto seborréias consomem-me...\Divido espaços deprimentes\com lençóis, louças, baratas...\Carteiros entregam-me\notícias e contas perniciosas...” (Pensamentos Arremessados Contra Tudo-J.J. Arruda). “No chão deito meu corpo.\Coberto por estrelas\durmo ao léu.\Papel jornal, forrado de letras,\revela meus sonhos.\O sino da igreja não despertou.\Ouço o silêncio,\sussurrando pelas gotas de orvalho.\Leve brisa\Choro sem ombro amigo\que me console.” (No Chão... – Francisco Baker). “Ao recanto dos santos,\vou a sua procura.\Olho para todos os lados.\Retorno ansioso\ao próximo domingo.” (A Sua Presença-Ely Pires). “Gosto do cheiro da madeira.\Ouvir os murmúrios de pessoas,\sentadas em suas mesas\saboreando as refeições do dia.\Mulheres bem vestidas.\Homens elegantes.\Crianças invisíveis.\Moças lançam sorte sobre\os rapazes.\Negociantes acertam o preço.\Há uma brisa que paira no terraço,\de onde deixo a fina chuva,\molhar meu rosto.” (Hotel Lisboa-Murillo Kollek).
Talvez os quatro autores nem tenham percebidos, mas Augustus Cotidiano e Urbandade corre o sério risco de ser um divisor de águas na moderna poesia brasileira. Mas isso, a história é quem dirá.
Contatos: Rua Caranguejo, 249 – Diadema – Eldorado\SP – Cep 09.971-100.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

SAUDADES DE KAPI

 
Em abril deste passado fez-se um ano sem a presença física em nossas vidas, do meu amigo Kapi.  Eu o conheci nos áureos tempos do Teatro Escola de Cultura Dramática, no qual tínhamos Orávio de Campos  Soares como Mestre. Era os idos da década de 70, plena ditadura militar. Kapi se enveredou pelos palcos e revolucionou com o teatro em Campos dos Goytacazes, interior do estado do Rio de Janeiro, minha terra natal. 
Nascido Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, Kapi tornou-se um dos teatrólogos, diretores teatrais e poetas mais geniais que conheci. Ousado, Kapi lançou o primeiro nu frontal, para um ator, em Campos dos Goytacazes, trabalhou com Orávio em “O arquiteto e o imperador da Assíria” de Fernando Arrabal. O trabalho poético de Kapi está no “Manual da criação de ratos”, livro de 1984 com a poeta Eloah Marconi. Nele estão poemas como “Canção amiga”, “Sangue na cidade e “Aquarela”. A peça teatral “Pontal” foi baseada em poemas de sua autoria e de outros autores, tais como Aluysio Abreu Barbosa, Artur Gomes e Adriana Medeiros. Kapi também assinou a direção de “Romanceiro da Inconfidência” de Cecília Meireles e “Profanus”, peça revolucionária para a época, de Antonio Roberto Fernandes. Como ator, Kapi esteve em vários espetáculos, tais como “O pagador de Promessas” de Dias Gomes, com direção de Gildo Henriques, no qual interpretou um repórter. Ele inaugurou o novo Teatro Trianon, dirigindo a peça “Gota d`água” de Chico Buarque e Paulo Pontes. A última montagem assinada por Kapi foi “O Anjo Pornográfico”, de Nelson Rodrigues, encenada no Sesc em 2012.
Após 11 dias no hospital Ferreira Machado, Kapi se foi dia 2 de abril de 2015. Seu velório e enterro recebeu milhares de pessoas em sua despedida.
Irreverente e um cara a frente de seu tempo, ainda em vida Kapi deixou sua mensagem, de como queria que fosse lembrado: “Um desvairado que não coube em si”
Um exemplo de sua criatividade e genialidade está no poema “Um rio”. Escrito entre 1977 e 1978 este poema é o retrato perfeito do atual estágio do Rio Paraíba do Sul. Como bem disse Artur Gomes “Exemplo mais que perfeito de que Poeta é a Antena da Raça.” A lembrança de Kapi  sempre deixará  saudades. Abaixo o poema.
UM RIO
Era uma vez…
Um rio
Que de tão vazio,
já não era rio
e nem riachão,
tão pouco riacho.
Não era regato,
nem era arroio,
muito menos corgo.
uma vez…
um rio
que, de tanta cheia,
já não era rio
e nem ribeirão.
Era mais que Negro,
era mais que Pomba,
era mais que Pedra,
era mais que Pardo,
era mais que Preto,
bem maior ainda
que um rio grande.
Era uma vez…
um rio
que de tão antigo
era temporário,
era obsequente,
era um rio tapado
e antecedente.
Que não tinha foz,
que não tinha leito,
que não tinha margem
e nem afluente,
tão pouco nascente.
Mas que era um rio.
Não era das Velhas,
não era das Almas,
não era das Mortes.
Era um Paraíba,
era um Paraná,
era um rio parado.
Rio de enchentes,
rio de vazantes,
rio de repentes:
Um rio calado:
Sem Pirá-bandeira,
Sem Piracajara,
Sem Piracanjuba.
Em suas águas
não havia Pira
não havia íba,
não havia jica,
não havia juba.
Nem Pirá-andira,
nem Piraiapeva,
nem Pirarucu.
Era um rio assim:
Sem pirá nenhum.
Mas que era um rio.
Era uma vez….
Um rio.
Que, de tão inerte,
Já não era rio.
Não desaguou no mar,
não desaguou num lago,
nem em outro rio.
É um rio antigo,
que de tão contido
não é natureza.
Um dia foi rio,
há muito é represa.
Antônio Roberto Góis Cavalcanti (Kapi)



sexta-feira, 27 de maio de 2016

O MONSTRO DO ARRUDAS & OUTRAS LAMAS: DE FERNANDO RIGHI


Ser poeta ou escritor não se resume apenas a habilidade de escrever com técnica. Eu, por exemplo, não acredito nos escritores robóticos. Fernando Righi é um poeta e escritor de muita sensibilidade, aquela mesma sensibilidade que o faz perceber pormenores no seu cotidiano e os transforma em literatura e das melhores: O Monstro do Arrudas & Outras Lamas (Editora Ramalhete) nos revela isso, um livro de excelente qualidade literária, escrito por um escritor que não se propõe a ser famoso, num mundo onde medíocres buscam os holofotes.
Composto de 12 contos, O Monstro do Arrudas & Outras Lamas fala de Seu Antonio, que depois de perder a fé, encontrou-a em seu EU como forma de libertação; um colecionador de coisas sem utilidades, que perdeu seu tempo na vida em coleções e no fim descobre: - Pra quê?; O conto que dá título ao livro, bem caberia num filme hollywoodiano, por acima de tudo, conter um final poético; o drama do poeta para ser lido, talvez ainda fato corriqueiro nos dias atuais, nessa falta humana de sensibilidade; de forma sacana e com seriedade, Salvador, um boêmio qualquer que descobre provar de forma indireta aos técnicos da literatura, que um velhinho que usou apenas a sua sensibilidade (como Carolina de jesus fez em seu Quarto de Despejo) pode sim, escrever uma obra prima. Pena apenas que esse segredo não é revelado; após uma farra movida a várias geladinhas, num ménage à trois, as frustrações mais do que humanas do amigo de infância, transforma uma suruba numa tragédia de fazer inveja a Nelson Rodrigues; dois funcionários da politicagem se vêem num encontro fantasmagórico entre passado e presente e seus questionamentos os fazem repensar suas vidas; um valor a principio, desviado para caixa dois, é desviado para outras vias, levando Silva a descobrir uma novo rumo a sua vida; usando de metáforas, como a cor por exemplo, o autor nos mostra que interesses capitalistas manobram sim, nossas vidas e até a legislação política de quem não faz parte do esquema, mesmo que esse fato prejudique nossa ecologia; de maneira satírica, faz reflexões sobre a vida, no momento da morte por uma bala perdida (achada) num assalto a padaria; um jornalista em sua pauta diária, observa que os tempos politicamente, sempre foram os mesmos, apenas a gente é que não percebe; e por fim, o “Miniconto abobrinha” faz uma brincadeira gostosa de se ler com Beethoven e The Beatles.
Fernando Right é natural de Belo Horizonte. É jornalista, poeta e escritor. Incluindo esse O Monstro do Arrudas & Outras Lamas publicou dez livros, sendo que a estréia se deu com Estrelas nos Olhos, Vaga-lumes na Cabeça (2005). Publicou também em 2014 Construindo Beethoven peça a Peça, um compêndio que  analisa os diversos aspectos históricos e filosóficos que motivaram a criação das principais obras do compositor alemão.
O Monstro do Arrudas & Outras Lamas é um livro divertido, sério, reflexivo, escrito por um dos escritores que mais admiro neste país de poucas leituras, que fala da vida e de valores dessa mesma vida. Esse com certeza eu indico para quem gosta de uma boa literatura.


quarta-feira, 4 de maio de 2016

CARNE DE UMBIGO: DE MARIA REZENDE


Por Rogério Salgado

Dona de uma poesia visceral, porém de excelente qualidade literária e estética, Maria Rezende em seu Carne de umbigo (Edição da Autora) escreve como quem dialoga com o leitor, numa conversa íntima numa mesa de bar. Sua poesia é simples e aí é que está o grande desafio: escrever para ser entendida com facilidade, sem cair no simplesco ou lugar comum. E justamente por não obedecer a regras, sua poesia é livre de cercas, contratos de risco e burocracias (incluindo censuras), atingindo o leitor em cheio, encantando-o com sua delicadeza às vezes agressiva.
A poesia de Maria Rezende não imita ninguém, é autêntica e fala por si mesma, com a sinceridade que vem impregnada em seus versos. É uma poesia que dá a cara a tapa, expondo sentimentos, com a palavra enxuta na medida certa.
Vejamos: “A lua na janela\como uma injustiça\como um rapto\A lua na janela do quarto\em noite de nudez sem platéia\A lua cheia\barriga branca da baleia\peixe no aquário do sistema solar\A lua espelho\morta\sem luz própria\Na janela do quarto\contra o céu cor de petróleo\Braços se agitam\pés se contorcem\doem cabeças\corações\No Hemisfério Sul\na exata latitude de um abraço\tiro com suor alheio o preto dos olhos\Ela congela\eu incendeio\Eu nua na janela\A lua na cama entre os lençóis"
Maria Rezende em seus versos, fala de amor sem ser repetitiva, como quando diz: “(...)\Quando eu te vi você virou um tubarão\eu fui areia\fui espuma\imensidão\Eu elefante\você todas as formigas\eu gata branca\você tigre\escorpião\Eram seis listras num azul de fim de tarde\tinha uma luz inesperada sobre mim\Quando eu te vi o que era dentro virou fora\uma janela apareceu quando eu te vi”
Em meu livro Quermesses (e outros poemas profanos) (Belô Poético-2005), eu já dizia: “Palavras, o que são palavras\senão apenas sons emitidos pela boca\que se dependessem da moralidade\algumas seriam apenas\sons omitidos pela boca.” E isso se confirma quando Sebastião Nunes publicou Elogio a punheta e foi crucificado em pleno século XX e agora o poema “Malaysian Airlines”, o melhor deste Carne de umbigo, porque seria impublicável num jornal da capital mineira (quiçá, qualquer jornal), por causa de censuras da nossa tradicional família mineira (novamente, quiçá, brasileira) a palavras segundo a qual, seriam impublicáveis. Mas fica a curiosidade de quem queira ler impresso nas páginas do livro.
Com mais de dez anos de estrada literária, Maria Rezende é poeta, carioca, atriz, montadora de cinema e TV. Cozinha banquetes para pequenas multidões pedala uma bicicleta florida, dança sem música em dias nublados, é a medrosa mais corajosa que conhece e escreve muito, muito bem mesmo. E publicou três livros, incluindo este Carne de umbigo.
Publicado de forma independente, Carne de umbigo é um livro que mexe com a sensibilidade do leitor, até mesmo aquele que não curte muito poesia se encantará com a poesia de Maria Rezende. E quem diz que “Se a vida te der um presente\aproveita\Ela tem me dado vários\entre porradas e passos de dança\eu mastigo tudo em movimentos concêntricos\depois bebo chá verde pra digerir\(...) merece ser lida, relida, comida e mastigada com todo o respeito que os verdadeiros poetas merecem. Esse eu indico.

Contato: e-mail: mariadapoesia@yahoo.com.br – facebook.com: mariadapoesia 

sábado, 17 de outubro de 2015

José Aparecido de Oliveira – O melhor mineiro do mundo: de Petrônio Souza Gonçalves


Podemos afirmar que 2015 foi realmente um ano muito fértil para o poeta, escritor e jornalista Petrônio Souza Gonçalves. Depois de publicar Um facho de sol como cachecol (Realejo Livros e Edições), comentado recentemente por mim no jornal Folha do Padre Eustáquio, vem a público organizado por ele, José Aparecido de Oliveira – O melhor mineiro do mundo, produzido pela YCO Promoções e Produções de Eventos Ltda, com patrocínio da Souza Cruz, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura, com diagramação de Giovanni Cícero, produção executiva de Branco Monteiro, revisão de P. S. Lozar, com fotos ilustrativas de arquivos da família e particulares.
José Aparecido de Oliveira, falecido em 2007 foi, antes de tudo um político mineiro que amava suas raízes e seu estado de origem. Eu mesmo narro em meu livro de memórias Poeta Ativista (RS Edições), uma experiência muito interessante que tivemos em 1985, quando ele era Secretário de Estado da Cultura de Minas Gerais, para a realização do 1º EPC – Encontro Popular de Cultura. O livro perpassa por toda a trajetória desta figura impar na política Brasileira, desde a infância no interior de Minas até a criação da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, estruturada quando Aparecido foi embaixador do Brasil em Portugal. O livro aborda ainda as muitas de suas facetas, como influencia para a política no Brasil. José Aparecido costumava dizer que um povo sem cultura é como um corpo sem alma e foi o primeiro secretário de Cultura de Minas Gerais, no governo de Tancredo Neves, e o primeiro ministro da Cultura do país, no governo de José Sarney. Quando governador de Brasília retomou o projeto original de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa e foi o responsável pelo tombamento da capital federal pela UNESCO, sendo Brasília a única cidade criada e tombada no mesmo século em todo o mundo. José Aparecido foi conhecido em vida como o “Zé de todos os amigos”.
O livro traz, além de depoimentos, artigos assinados por pessoas ligadas a ele durante toda a sua vida, como Oscar Niemeyer, Ziraldo, Mauro Santayana, Sebastião Nery, José Maria Rabelo, Aristóteles Drummond, entre muitos tantos outros amigos e admiradores. Fatos da sua vida particular, até então desconhecidos, também são abordados e revelados neste livro. Um fato interessante narrado no livro foi o encontro de Zé Aparecido com colunista Antonio Maria, que todos os dias falava mal de Aparecido em sua coluna. Quando os dois se encontraram pela primeira vez na noite da capital carioca, Zé Aparecido se recusou a cumprimentar Antônio Maria, dizendo que o colunista falava mal dele sem o conhecer. Antonio não perdeu a piada e disse: “É por isso mesmo que falo mal, pois se eu o conhecesse, seríamos amigos e eu só falaria bem de você”. Os dois se tornaram amigos da vida inteira, sendo a amizade com Maria compartilhada por toda família de Aparecido. O livro tem 230 páginas e vale ser lido, pois além de uma excelente literatura, escrita por um excelente escritor, é também um resgate histórico de suma importância para a história deste país.

Contato com o autor: (31)99239-2621 - petroniosouzagoncalves@gmail.com

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Encantamento: cd ao vivo de Marcos Assumpção

Marcos Assumpção é um desses artistas que conseguem ser românticos, sem ser piegas. Muito pelo contrário, seu trabalho musical é de altíssima qualidade e por isso vem arrebanhando admiradores em todos os níveis, desde os mais exigentes críticos, ao público mais simples, que busca palavras simples numa canção de amor e que fale diretamente em sua alma. Encantamento, mais recente cd de Marcos Assumpção, gravado ao vivo no Centro Cultural Brasileiro de Genebra\Suiça, dia 01 outubro de 2013 e no Teatro Interim em Munique\Alemanha nos dias 04  e 05 de outubro de 2013, é uma prova de que qualidade e simplicidade podem se dar muito bem.
Com voz, violão, arranjos, direção e concepção musical de Marcos Assumpção; produção executiva de MA Produções Artisticas; produção fonográfica de MA Records; mixagem e masterização de Junior Castanheira, no Estúdio Ômega, em Niterói\RJ; produção, direção executiva dos shows e fotos de Angela Mota e projeto gráfico de Charles Gianni, o cd abre com “Encantamento” de Marcos Assumpção; seguido de “Fotografia”, parceria com Paulo Delfino; “Sem memória”, parceria com Joel do Prado; “Versos de lua” e “Pode ser que não” de Marcos Assumpção; “Entre quitandas e quintais” e “Canção do amor sem fim”, parceria com Paulo Delfino; “Fonte”, “O silêncio e a canção” e “como se não existisse chegada” de Marcos Assumpção; “Sobrados”, parceria com Sérgio Castro e “O que está por vir”, parceria com Mourão Martinez.
Marcos Assumpção começou sua  carreira em 1995, quando conheceu o crítico e pesquisador musical Ricardo Cravo Albim; logo se tornaram amigos e Ricardo convidou Marcos para participar de seu programa na Rádio MEC, no Rio de Janeiro. A partir daí, incentivado pelo próprio Cravo Albim, teve seu primeiro trabalho montado e produzido, o show Clave de Luz. Em 1997, conheceu o compositor e poeta Sergio Natureza, que por sua vez o convidou a participar do show Balaio do Sampaio, em homenagem ao cantor e compositor Sergio Sampaio, no Teatro Rival - RJ, ao lado de nomes como Luiz Melodia, Lenine, Zé Renato, Jards Macalé, Renato Piau, Zeca Baleiro, Paulinho Moska. Começava aí a amizade entre Assumpção e Natureza e o poeta começou então a produzir o seu primeiro cd, tendo seu talento reconhecido pela crítica como “A Nova Revelação da MPB”, ao participar ao lado de Raimundo Fagner do projeto “Novo Canto”, da Rádio JBFM do Rio de Janeiro, em 1998. A amizade entre os dois dura até hoje. No primeiro semestre de 2002, lançou o seu segundo cd intitulado Velho Novo Amor.  Em 2004 lançou seu terceiro cd Bem Natural tendo a música “Abre Coração” executada em todo País. Em 2006 gravou seu 4º cd, onde contou com a participação de nomes renomados da MPB. A faixa “Livre pra Você” foi lançada pela radio Nova Brasil FM de São Paulo em todo o Brasil, o que acarretou numa série de shows em várias cidades brasileiras. A  segunda faixa de trabalho, “Casa vazia” também alcançou grande nível de aceitação nas rádios, assim como “Castiçais”. Outras faixas como “A trilha”, “Caravelas”, “Meu quintal” e “Romã” também alcançaram boa execução nas rádios. Em 2009, lançou o cd A Flor de Florbela, com poemas da poetisa portuguesa  Florbela Espanca musicados por ele. Em 2010, compôs a trilha sonora do musical infantil A Princesa e a Ervilha, da companhia teatral COOF , do RJ , que foi lançada em cd. Simultaneamente, lançou seu primeiro cd e dvd ao vivo – Sala de Estar. Em dezembro de 2011, Marcos Assumpção lança seu oitavo cd de carreira – O Tempo em Nós. Em 2013 e 2014 foi destaque nos 9º e 10º Belô Poético-Encontro Nacional de Poesia de Belo Horizonte.
Encantamento é um trabalho feito para quem tem sensibilidade e emoção a flor da pele.
Contatos: m.a.produartes@terra.com.brwww.marcosassumpcao.com.br  - M & A Produções Artisticas Ltda -  Tel: (21) 2613.0455 / 98885.4687 


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

MÁRIO GOMES, POETA SÍMBOLO DA LIBERDADE, MORRE AOS 67 ANOS.

A literatura brasileira perdeu neste último dia de 2014, o poeta Mário Gomes. O poeta morreu aos 67 anos. Ele estava internado no Instituto Doutror José Frota, em Fortaleza\CE, desde 29 de dezembro. A notícia foi dada pelo artista visual Tota, amigo de poeta. O poeta andarilho foi encontrado desacordado por dois dias seguidos nos arredores do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na Praia de Iracema, em Fortaleza\CE,  sem se alimentar e sem beber e, aparentemente inconsciente.
O IJF divulgou, em nota, o estado de saúde do poeta:"O paciente chegou ao hospital em estado grave, desorientado, extremamente debilitado, com um quadro profundo de anemia”. 
Mário Gomes foi encaminhado ao hospital somente na quarta tentativa de socorro, como explicou seu amigo Tota.
O enterro ocorreu durante a manhã do 1º dia de 2015, no Cemitério da Parangaba. A mãe do poeta foi enterrada neste mesmo local.
Mário Gomes teve uma trajetória de vida toda dedicada a poesia e a liberdade. “Mário é um homem da rua, da vida e da poesia, largado de qualquer ambição. Botá-lo dentro de uma casa, seria prendê-lo.” disse uma vez o teatrólogo  Oswald Barroso.
Hoje, as ruas de Fortaleza perderam seu principal andarilho. A trajetória de uma “vida dentro dos sapatos”, como bem disse a jornalista do jornal O Povo, Ethel de Paula, sobre o modo de viver de Mário Gomes. Seus admiradores e amigos se lembrarão sempre da figura desalinhada e profundamente poética, daquele que fez da Praça do Ferreira, seu escritório. Por opção, ele preferiu largar qualquer apego pela ambição para viver livre. Mesmo vivendo em situação de miséria nas ruas, Mário Gomes não abria mão da vaidade. Era comum vê-lo pelas ruas vestindo paletó sem gravata, sua marca registrada, e sapatos de bico fino. “Para mim, ele é uma lenda urbana, um personagem da cidade imprescindível. (...) Ele é uma pessoa que viveu de uma maneira mais radical à poesia. Mário era consciente desse modo de vida e enveredou por esse caminho da maneira mais conseqüente.” Afirma o teatrólogo Oswald Barroso.
O vereador e futuro Secretário de Cultura do Estado de Pernambuco, Guilherme Santana (PT), lamentou a morte de Mário e enalteceu a figura do poeta para a cultura cearence. “A morte de Mário Gomes fecha um ano de muitas perdas na literatura e nas artes. Gabriel Garcia Marquez, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves, Ariano Suassuna e tantos outros que partiram e dedicaram em vida seu pensar a todos nós, cultivo e preservação da obra do Poeta Descomunal. Salve Mário Gomes!” disse Guilherme.
Em entrevista a jornalista Ethel de Paula, ele afirmou ter feito 17 viagens a pé ou de carona. Filho de costureira e motorista, ele colecionou amigos em sua trajetória de sapatos, através da poesia, da boemia e da liberdade que nunca abriu mão.
O jornalista, escritor e amigo do poeta, Auriberto Cavalcante Vidal foi outro que lamentou a morte do companheiro de aventuras da juventude. "Conheci o Mário na década de 80, participamos de muita boemia, noitadas. Declamamos muita poesia no meio da rua, na praia. A gente sempre batia um papo (nas praças e ruas) e quando me via, ele sempre tirava do bolso uma poesia nova. É lamentável (a morte de Mário). Ele é um poeta que não existe outro igual no Brasil", disse. Vidal afirmou que acompanhou os últimos momentos de Mário Gomes e buscava ajuda, junto com outros amigos, para cuidar melhor do poeta. "Há muito tempo que a gente vem postando nas redes sociais que as autoridades deveriam ajudar, pois os amigos não podiam fazer muita coisa. A gente estava cobrando uma atenção, um cuidado, mas ninguém nunca fez nada. Ele vivia largado mesmo. É realmente uma tristeza. A literatura, a poesia cearense, estão de luto. A poesia está chorando a partida do Mário Gomes", afirmou.
Natural de Fortaleza, Mário Gomes nasceu na Rua Sousa Carvalho nº 357, no dia 23 de julho de 1947 e se descobriu poeta aos 18 anos. Publicou 8 livros e tem uma biografia intitulada “Mário Gomes, poeta, santo e bandido” escrita pelo escritor e amigo Márcio Catunda. Sua ocupação profissional era vagabundo e malandro, pois trabalhou apenas um ano de carteira assinada. Seu maior desafio? Viver sem trabalhar. O que mais gostava na vida era ser poeta.
Abaixo dois poemas de Mário Gomes.

METAMORFOSE

Ontem,
ao meio dia,
comi um prato de lagartas
passei a tarde defecando borboletas.

Quando eu morrer
irão distribuir minhas camisas,
minhas calças, minhas meias, meus sapatos.
As cuecas jogarão fora.
Ninguém usa cueca de defunto.
Irão vasculhar minha gaveta.
Vão encontrar muita poesia,
documentos e documentários.
Só sei dizer
que foi gostoso viver.
Sentir o amor e proteção de minha mãe.
De conhecer meus irmãos, meus amigos.
De ver de perto as mulheres.
Só posso deixar escrito:
“obrigado vida”. "